Para entender por que a filosofia é essencial à inteligência artificial, é preciso voltar algumas casas no tempo.
Alguns anos após sua popularização, a inteligência artificial já deixou de ser somente uma tecnologia distante e pouco acessível. E, conforme os algoritmos se tornam mais sofisticados e presentes no dia a dia da população, surgem perguntas profundas, como: qual é o propósito de um sistema de IA? Como ele decide o que é certo ou errado? Em que tipo de mundo essa IA acredita?
Mas é importante entender que essas perguntas não são novas, e possuem uma base filosófica por trás. E é por isso que, como afirmam Michael Schrage e David Kiron no artigo da MIT Sloan “Philosophy Eats AI”, a filosofia está devorando a IA. Para as companhias que almejam utilizar a IA de forma responsável e eficaz, compreender os fundamentos filosóficos que a sustentam é um grande diferencial estratégico.
Para entender por que a filosofia é essencial à inteligência artificial, é preciso voltar algumas casas no tempo. Nos primórdios da IA, o foco estava no desempenho técnico: treinar modelos, coletar dados, otimizar predições. Esse período, entre 2012 e 2015, marcou a transição da tecnologia de um campo majoritariamente acadêmico para uma aplicação em larga escala. Foi nesse contexto que o deep learning avançou significativamente, impulsionado pela disponibilidade de grandes volumes de dados e poder computacional (como GPUs), que permitiu que os algoritmos se tornassem significativamente mais eficazes.
Grandes empresas, como Google, Facebook, IBM, Microsoft e Amazon, foram protagonistas desse movimento. Ainda que a OpenAI só tenha surgido em 2015, seu impacto nas fases seguintes consolidou o uso de IA generativa como nova fronteira da tecnologia. Portanto, esses primeiros anos da IA moderna foram fundamentais para definir os alicerces do que viria a se tornar uma das transformações mais profundas da era digital.
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Porém, hoje, as maiores questões em IA são éticas, sociais e filosóficas. No caso da filosofia, ela entra em cena por três motivos principais: os dados refletem valores humanos; as decisões automatizadas têm consequências éticas e a IA influencia diretamente o comportamento humano e as estruturas sociais. Em outras palavras, a IA aprende com o mundo, e este, por sua vez, é filosoficamente moldado.
Nesse sentido, os três pilares filosóficos que fundamentam a IA são: teleologia (qual é o propósito da IA), epistemologia (o que é conhecimento para a IA) e ontologia (o que é real para a IA). Esses conceitos ajudam a moldar tanto o desenvolvimento técnico dos sistemas, como também as decisões de design, aplicação e regulação. A teleologia orienta a criação de sistemas em função de certos objetivos: uma IA voltada para maximizar lucros, por exemplo, pode agir de maneira bem diferente de uma programada para promover bem-estar social.
A epistemologia questiona como a IA “sabe” o que sabe, ou seja, quais dados alimentam seu aprendizado, como são validados e quais vieses estão embutidos. Já a ontologia desafia os próprios limites da realidade percebida e modelada por esses sistemas. Uma solução de reconhecimento facial, por exemplo, pode ter uma ontologia enviesada que identifica pessoas negras ou transgênero de forma equivocada. A filosofia, aqui, tem um papel vital para corrigir preconceitos sistêmicos.
Portanto, compreender esses pilares não é um exercício abstrato, pois é essencial para garantir que as tecnologias desenvolvidas hoje estejam alinhadas com valores éticos, sociais e humanos duradouros. Ao incorporar os princípios filosóficos na criação e evolução da IA, as corporações conseguem antecipar dilemas e alinhar os algoritmos aos valores da empresa e dos consumidores. A inteligência artificial impacta bilhões de vidas, mas seus fundamentos estão longe de serem neutros. Para líderes visionários, a pergunta que fica é: você está programando apenas código ou também valores?
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