Entre intuição e ciência, o empreendedorismo moderno se consolida como ferramenta estratégica para interpretar dados, inovar e transformar mercados
Existe uma mística que envolve a figura do empreendedor no imaginário coletivo. Frequentemente a imagem do empreendedor é estereotipada como sendo a de um “herói solitário”, um Prometeu moderno que, munido de um “brilho nos olhos” e um instinto premonitório, que desafia os “deuses do mercado” para trazer o fogo da inovação à terra.
Mas, o ato de empreender seria meramente um “instinto” de sobrevivência, ou o fazer estruturada com rigor acadêmico e técnico?
Na era digital, há muitos dados disponíveis, mas nem sempre há compreensão sobre o que eles significam. Por isso, o empreendedor moderno precisa ir além da ação prática: deve saber interpretar informações, reconhecer oportunidades e decidir com método. Sem esse apoio, a intuição empreendedora tende a se perder diante da complexidade dos mercados atuais.
Por muito tempo, a Administração estudou principalmente empresas já consolidadas. Com as mudanças tecnológicas e econômicas, tornou-se necessário compreender também como novos negócios surgem. Desse modo, o empreendedorismo deixou de ser visto apenas como prática aprendida pela experiência e passou a ser tratado como campo de estudo acadêmico.
Há pouco mais de duas décadas, o empreendedorismo ainda era considerado um campo acadêmico incipiente e com pouco rigor metodológico. Com o tempo, esse cenário mudou.
Atualmente, o empreendedorismo está mais consolidado como área de pesquisa, com revistas científicas especializadas, aumento da produção acadêmica e presença em disciplinas universitárias. No Brasil, esse crescimento também aparece em estudos sobre o tema e em cursos oferecidos por instituições como a USP.
Esse avanço mostra que o empreendedorismo deixou de ser visto apenas como prática de mercado, passando a integrar a formação acadêmica, contribuindo para que os estudantes pensem não só no emprego tradicional, mas também na criação de novos negócios e oportunidades.
O Coração Científico do Empreendedorismo
Se considerarmos o empreendedorismo como ciência, seu objeto de investigação mais profundo é a informação. Para perpassar as incertezas e abstrações do mercado, o empreendedor possui como instrumento de orientação o aporte da Ciência.
Segundo o sociólogo Manuel Castells, o ser humano sempre buscou classificar o mundo para sobreviver, mas a “sociedade da informação” elevou essa necessidade ao patamar de requisito básico de existência organizacional. A informação é um fenômeno social que demanda a organização sistêmica para que o conhecimento se torne útil e acionável.
Ao discutir o empreendedorismo como espaço de mudança, Joseph Schumpeter apresentou o conceito de “destruição criativa”. Para ele, o empreendedor é um agente importante do crescimento econômico, pois introduz inovações capazes de substituir formas antigas de produzir, organizar e competir.
No século XXI, essa destruição acontece, sobretudo, nos modos de organizar informações, processos e decisões. O empreendedor rompe com práticas antigas quando encontra formas mais eficientes de usar a informação para gerar valor.
Entretanto, a inovação não surge apenas da genialidade individual. Ela depende do ambiente social, da cultura, das oportunidades e das condições que estimulam ou limitam a criatividade. Para tanto, o excesso de dados precisa ser interpretado e transformado em conhecimento aplicado. Sem método e investigação, a “destruição criativa” pode se tornar apenas desorganização, e não a base para uma nova dinâmica econômica.
O Brasil é um ambiente difícil, mas também relevante para observar o empreendedorismo. A burocracia e a complexidade tributária tornam a criação e a manutenção de negócios mais desafiadoras.
Segundo o Banco Mundial, os conflitos fiscais representam cerca de 70% das execuções judiciais no país, o que leva muitos empreendedores utilizando grande parte de sua energia lidando com exigências legais e tributárias, em vez de concentrá-la no aperfeiçoamento de seus produtos e serviços. Assim, o grande desafio brasileiro é criar condições para que o empreendedor deixe de atuar apenas pela sobrevivência e passe a inovar de forma mais estruturada.
Outro aspecto importante, é a gestão da informação, conceito acadêmico que deve ser pensado como recurso estratégico para a sobrevivência das organizações. Gerir informação de forma adequada significa identificar necessidades, mapear os caminhos pelos quais a informação circula e garantir que o conhecimento chegue às pessoas responsáveis pela tomada de decisão.
Nesse processo, é necessário integrar pessoas, tecnologias, recursos financeiros e relações sociais. A cultura organizacional tem um papel central, pois define como as pessoas valorizam, compartilham e utilizam o conhecimento dentro da organização.
O empreendedorismo é, portanto, objeto de investigação das ciências sociais aplicadas. Ele se sustenta por meio do método e na análise de dados transformados em capital intelectual. O rigor do método acadêmico e a agilidade do mercado devem ser indissociados em seu uso, reconhecendo que empreender é, em sua essência, um processo de investigação contínua, que, identifica padrões na interpretação da informação e, por meio do método e da inovação, desenvolve soluções que gera riqueza, progresso e dignidade para toda a sociedade.
Gustavo Lunardelli Trevisan é pesquisador do Think Tank da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), Doutor e mestre em Ciência da Informação (UNESP/UEL) e MBA em Digital Business pela USP, professor, pesquisador e divulgador científico, com atuação nas áreas de Ciência da Informação, marketing digital e tecnologias da informação. As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, os posicionamentos da Associação.
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