Rana el Kaliouby no SXSW 2026. Imagem: Reprodução/LinkedIn
A corrida global pela inteligência artificial (IA) criou oportunidades econômicas inéditas, mas também expõe fragilidades profundas no modo como a tecnologia é desenvolvida. No SXSW 2026, em Austin, nos Estados Unidos, a cientista da computação Rana el Kaliouby fez um alerta à indústria. Para ela, a IA pode avançar rapidamente, mas ainda carece de algo essencial: humanidade.
“Hoje medimos apenas a inteligência cognitiva das máquinas. Mas se quisermos chegar a uma inteligência realmente avançada, precisamos incorporar inteligência emocional”, afirmou a pesquisadora, que cofundou a startup de IA emocional Affectiva e hoje atua como investidora.
Para ela, a indústria de IA está obcecada com o QI das máquinas, enquanto ignora emoções, elemento central da comunicação humana. “Só 7% da comunicação humana está nas palavras. O restante envolve expressões faciais, tom de voz, postura e contexto. A tecnologia ainda é praticamente cega a isso”, disse.
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A discussão seguiu no formato de separar mitos e verdades sobre inteligência artificial. Confira.
Uma das perguntas mais frequentes hoje no setor é se a inteligência artificial vive uma bolha semelhante à da internet nos anos 2000. Para Rana, há sinais claros de exagero financeiro, mas isso não invalida a transformação tecnológica.
Segundo ela, diversas startups estão captando centenas de milhões de dólares mesmo sem produto ou receita, um padrão clássico de euforia de mercado. Há também estruturas de investimento que levantam questionamentos.
“Vemos grupo pequeno de empresas investindo umas nas outras. A Nvidia investe em empresas de IA, que usam esse dinheiro para comprar chips da Nvidia”, observou.
Apesar disso, ela acredita que a tecnologia ainda está em estágio inicial e deve gerar impacto profundo em vários setores. Entre os campos que considera mais promissores estão saúde e longevidade, futuro do trabalho com agentes de IA, e soluções para sustentabilidade e energia. “Estamos apenas no começo de uma enorme oportunidade econômica”, afirmou.
Para Rana, o medo de uma substituição generalizada do trabalho humano é uma visão que ignora como a automação evolui historicamente. Segundo ela, robôs devem assumir principalmente tarefas repetitivas, perigosas ou com escassez de mão de obra.
Um exemplo citado foi o uso de robôs humanoides para soldagem em estaleiros, atividade considerada extremamente arriscada. “Há trabalhos que simplesmente não têm pessoas suficientes dispostas a fazê-los. Nesse caso, faz sentido que máquinas assumam essas tarefas”, exemplificou. A verdadeira transformação, segundo ela, será redefinir como humanos trabalham ao lado dessas tecnologias.
Outro temor comum levantado na conversa foi que ferramentas de IA generativa acabem destruindo a economia criativa. Para Rana, o efeito tende a ser mais complexo.
A tecnologia reduz as barreiras para criação de conteúdo, permitindo que pessoas sem habilidades técnicas produzam imagens, vídeos ou textos. Ao mesmo tempo, isso pode aumentar o valor da originalidade humana. “Quando qualquer pessoa pode criar conteúdo, o que passa a diferenciar é a perspectiva humana, a experiência vivida e a visão autoral”, sinalizou.
Se há um ponto em que Rana não vê mito algum é na falta de diversidade da indústria. Segundo ela, a inteligência artificial hoje é amplamente dominada por homens, tanto na fundação de startups quanto no financiamento.
“Se mulheres ficarem de fora dessa corrida, vamos ampliar dramaticamente a desigualdade econômica nos próximos anos”, disse. Como investidora, ela afirma tentar corrigir esse desequilíbrio. Em seu portfólio atual, três das quatro empresas investidas são lideradas por mulheres.
Ao longo da conversa, Rana também fez críticas indiretas à forma como as grandes empresas de tecnologia conduzem o avanço da IA.
Entre os principais pontos levantados estão falta de inteligência emocional nos sistemas, já que, hoje, os principais modelos são treinados para compreender linguagem e dados, mas ignoram sinais sociais e emocionais. “Estamos criando sistemas altamente inteligentes que ainda não sabem interagir com pessoas.”
Apesar das críticas, Rana afirma que o momento atual é também uma oportunidade rara para moldar o futuro da tecnologia. Para ela, a sociedade precisa participar mais ativamente das decisões sobre como a IA será usada. “Todos temos responsabilidade. Escolhemos quais ferramentas usamos, quais empresas apoiamos e quais práticas aceitamos”, indicou.
O risco, segundo ela, é deixar que apenas uma pequena parte da indústria defina os rumos da tecnologia. “Estamos em um momento decisivo. Se não colocarmos os humanos no centro da IA agora, talvez seja tarde demais depois”, encerrou ela.
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