Um tributo a Ikujiro Nonaka: um dos arquitetos da gestão do conhecimento

Antes da IA, havia pessoas. Nonaka nos ensinou a ouvi-las e compartilhar seus conhecimentos

Publicado:

Leitura 8 minutos

Imagem: Shutterstock
Imagem: Shutterstock

A morte de Ikujiro Nonaka, em 25 de janeiro de 2025, aos 89 anos, encerrou um capítulo na história da gestão moderna. Seu legado, porém, é indestrutível: um conjunto de teorias que redefiniram a forma como as organizações inovam, aprendem e prosperam. Este tributo, em forma de artigo, explora sua trajetória intelectual e como suas ideias moldaram — e continuam a influenciar — a economia do conhecimento.

Contextualização histórica

Na década de 2020, a aproximação entre as teorias de Gestão do Conhecimento (GC) e Inteligência Artificial (IA) já era inevitável – e Nonaka previu isso ao declarar, em 2023: “A tecnologia deve ser o vaso, não o vinho da sabedoria organizacional” (tradução nossa) – declaração feita no Fórum Global de Inovação de Kyoto, 2023.

As melhores notícias de tecnologia B2B
Acompanhe todas as novidades diretamente na sua caixa de entrada

Leia também: Planejamento de projetos: do Termo de Abertura (TAP) ao plano de gerenciamento

1. Primórdios: a formação de um visionário (décadas de 1950–1970)

1.1 Influências
Nascido em Tóquio (1935), Nonaka cresceu no Japão pós-guerra, onde testemunhou a transformação de empresas como Sony e Honda em gigantes globais. Sua formação em Ciência Política (Universidade de Waseda) e o MBA (Universidade da Califórnia) lhe proporcionaram uma visão híbrida – ocidental na metodologia, japonesa na filosofia.

1.2 Primeiras Pesquisas
Nos anos 1970, estudou o sistema de inovação japonês, observando que empresas bem-sucedidas priorizavam o know-how implícito (conhecimento tácito) dos funcionários, em vez de procedimentos formalizados. Isso contrastava com os modelos ocidentais centrados em processos explícitos.
Seu estudo de caso na Matsushita Electric (1978) documentou como operários não qualificados desenvolviam soluções técnicas superiores às dos engenheiros formais.

2. A espiral do conhecimento: tornando o invisível visível

2.1 Teoria SECI
Nonaka propôs que o conhecimento organizacional surge da conversão entre conhecimento tácito (experiência, intuição) e explícito (registrado, documentado). O processo ocorre em quatro etapas:

  • Socialização (Tácito → Tácito): aprendizado por imersão.
    Ex: estagiários observando mestres-artesãos na Toyota.

  • Externalização (Tácito → Explícito): articulação em conceitos.
    Ex: um engenheiro transformando insights em manuais de design.

  • Combinação (Explícito → Explícito): integração de informações.
    Ex: cruzando dados de vendas com tendências de mercado.

  • Internalização (Explícito → Tácito): aplicação prática do conhecimento.
    Ex: times usando relatórios para melhorar operações.

2.2 Impacto na inovação
Empresas como a Maekawa Manufacturing (Japão) aplicaram a espiral ao criar sistemas nos quais operários compartilhavam melhorias diárias, transformando microideias em patentes incrementais.
A startup canadense NeuraLink Collab utiliza IA para mapear conversas informais entre funcionários, identificando padrões de conhecimento tácito que resultaram em três novos produtos em 2024.

3. Liderança como catalisadora do conhecimento

3.1 O papel do líder-mediador
Nonaka argumentava que bons líderes não controlam, mas facilitam:
• Criando crises produtivas para estimular a criatividade.
• Conectando pessoas de áreas díspares (sinergia entre heterogeneidade e propósito comum).
• Protegendo equipes da burocracia corporativa.
Na SpaceX, Elon Musk – criticado por sua forma de gestão – aplicou princípios nonakianos ao formar times mistos de físicos e biólogos para projetos de colonização marciana.

3.2 Middle-up-down management
Diferentemente das hierarquias tradicionais (top-down ou bottom-up), defendeu que líderes intermediários são cruciais para:
• Traduzir visões estratégicas em ações práticas.
• Sintetizar conhecimento operacional e tático.
Na Fujitsu, gerentes atuaram como “tradutores” entre desenvolvedores e diretores durante a criação de IA ética.
72% das empresas listadas no Forbes 100 (2025) possuem programas de desenvolvimento de líderes intermediários baseados em Nonaka.

4. Ba: o contexto que nutre a inovação

4.1 Definição e tipos
Para Nonaka, o Ba (場, “lugar” em japonês) é qualquer ambiente – físico ou virtual – que facilita a troca de conhecimento.

Tipo de Ba Função Exemplo Moderno (2025)
Originating Troca de experiências Cafeterias corporativas com mesas redondas
Dialoguing Debate de ideias Hackathons em metaverso
Systemizing Organização do conhecimento Plataformas de IA que conectam dados
Exercising Aplicação prática Laboratórios de prototipagem rápida

 

4.2 Ba na era digital
Empresas como a Siemens Healthineers utilizam ambientes de realidade mista para médicos e engenheiros colaborarem no design de equipamentos, combinando presença física e ferramentas digitais.

Caso IBM: em 2025, o projeto Cognitive Ba integra salas de reunião equipadas com sensores de voz e análise de sentimento para promover debates mais inclusivos.

5. The new new product development game (1986)

5.1 Rugby vs. corrida de revezamento
Artigo seminal com Hirotaka Takeuchi comparou o desenvolvimento de produtos a um jogo de rugby, em que a bola (projeto) passa entre departamentos de forma orgânica. Princípios-chave:
• Equipes multidisciplinares auto-organizadas
• Iterações rápidas (antecessor dos sprints ágeis)
• Tolerância a ambiguidades

5.2 Aporte para o Scrum
Jeff Sutherland e Ken Schwaber usaram esses conceitos para criar o framework Scrum em 1995. Nonaka, porém, criticou a excessiva ritualização de cerimônias em detrimento da criatividade.
Em 2024, 41% das equipes ágeis globais relataram retorno aos princípios originais de Nonaka para evitar o scrum zombie (processos vazios).

6. Parceiros e colaboradores

6.1 Hirotaka Takeuchi
Coautor de trabalhos-chave, trouxe uma perspectiva ocidental como professor da Harvard Business School. Sua parceria com Nonaka durou 40 anos, até a aposentadoria de Takeuchi em 2020.
“Takeuchi me ensinou que teorias precisam de pernas para caminhar no mundo real” (Nonaka, 2010).

6.2 Comunidade acadêmica
Nonaka formou discípulos como:
• Katsuhiro Umemoto – teórico do conhecimento tácito em TI
• Florian Kohlbacher – aplicações em marketing intergeracional

7. Últimos anos e morte

Em 2024, já com a saúde fragilizada, Nonaka participou de um simpósio virtual sobre IA generativa e conhecimento tácito, defendendo que “a sabedoria humana deve guiar algoritmos, não o inverso” (tradução nossa).
Declaração durante o Simpósio IA Generativa e Conhecimento Tácito, 2025. Palestra virtual, MIT Sloan Management Review.

Sua morte, em janeiro de 2025, gerou homenagens globais – da Toyota ao Fórum Econômico Mundial.
Homenagem Póstuma: o Nonaka Prize for Knowledge Innovation foi lançado em março de 2025, premiando iniciativas que integram IA e gestão humana.

8. Legado para as empresas em 2025

8.1 Adaptações contemporâneas
Espiral do Conhecimento 2.0: startups utilizam LLMs (Large Language Models) para externalizar o conhecimento tácito dos funcionários, criando bancos de dados vivos.
Liderança Distribuída: plataformas DAO (Organizações Autônomas Descentralizadas) aplicam o modelo middle-up-down por meio de smart contracts.

8.2 Desafios persistentes
Preservando o Ba: equipes remotas enfrentam dificuldades para recriar a espontaneidade do conhecimento tácito.
Ética do Conhecimento: quem detém a propriedade intelectual em sistemas co-criados por humanos e IA?
Exemplo – Dilema: em 2024, a startup NeuralBridge enfrentou processos por utilizar dados de funcionários para treinar IA sem consentimento explícito.

Conclusão: o futuro é uma espiral

Nonaka ensinou que o conhecimento não é estático, mas um rio que se renova. Em 2025, enquanto navegamos crises climáticas e disrupções digitais, sua obra permanece uma bússola. Como ele refletiu: “A verdadeira inovação começa quando alguém diz: ‘Isso não faz sentido… Vamos tentar diferente.'” (tradução nossa).
NONAKA, Ikujiro; TAKEUCHI, Hirotaka. The Knowledge-Creating Company: How Japanese Companies Create the Dynamics of Innovation. New York: Oxford University Press, 1995.

Nonaka na era da IA colaborativa

A ironia é bela: teorias pré-internet agora norteiam sistemas de IA generativa. Veja como:

Espiral SECI 2.0
Socialização: engenheiros de prompt refinam modelos de linguagem ao compartilhar técnicas tácitas em fóruns (ex.: Hugging Face).
Externalização: LLMs convertem essa expertise em guias estruturados para novos usuários.
Combinação: plataformas como OpenAI Codex integram conhecimentos de programação, design e negócios.
Internalização: startups utilizam esses recursos para treinar equipes multidisciplinares.

Diálogos Humanos–Máquina
Hitachi (2024): implementou assistentes de IA baseados no conceito de Ba:
– Catalogam sugestões de funcionários em reuniões híbridas
– Identificam conexões improváveis entre departamentos
Exemplo: um modelo preditivo cruzou dados de logística com reclamações de clientes, revelando gargalos invisíveis à gerência.

Desafio ético
Nonaka alertaria: “A IA deve amplificar, não substituir, a intuição humana” (tradução nossa).
NONAKA, Ikujiro. Managing Flow: A Process Theory of the Knowledge-Based Firm. Hampshire: Palgrave Macmillan, 2008.
Caso atual – IBM (2025): fábricas de ideias onde IA sugere inovações, mas humanos filtram via critérios éticos.

Palavras finais – a espiral continua
Em um mundo onde a IA gera relatórios em segundos, o maior legado de Nonaka é nos lembrar que perguntas disruptivas – não respostas rápidas – são o cerne da inovação sustentável.

Fontes Consultadas
• Relatório Anual Hitachi 2024
• Harvard Business Review: Agile at Crossroads (2024)
• Entrevista com CEO da NeuralBridge, TechCrunch (2025)

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

Sobre o Autor

Construiu uma sólida carreira de 40 anos na área da Gestão da TI, focando na informação e no conhecimento, na estratégia, nos sistemas, na inovação, nos processos e projetos. Consultor, palestrante, educador, pesquisador e escritor. Doutor em Ciência da Informação, Mestre em Administração, Bacharel em Ciência da Computação e Analista de Sistemas. Coordenador, professor e pesquisador de pós-graduações Lato e Stricto Sensu. Criador do Treinamento de Ideação e Priorização de Projetos e do KMCanvas.

Ver publicações deste autor

Colunas relacionadas