É preciso expandir a infraestrutura de data centers voltados para IA, no mundo, a fim de expandir o poder computacional
Os desdobramentos da evolução da inteligência artificial tomaram diversos rumos, alguns deles ligados à própria tecnologia em si. Esses desdobramentos perpassam as camadas da política, da sociedade e das relações internacionais. Esse é o caso da soberania de IA, um dos principais temas da atualidade, discutido entre empresas e nações, tema de palestras e painéis em eventos, foco de reportagens em diferentes meios de comunicação e uma preocupação genuína para o momento atual da tecnologia e da dinâmica entre países.
Para aqueles que ainda não estão familiarizados com o termo, a IA soberana ou soberania de IA se refere às capacidades de uma nação de produzir e manusear a inteligência artificial usando seus próprios recursos, como infraestrutura, dados, força de trabalho e pesquisa e redes de negócios. É uma questão tanto de capacidade física, de hardware, quanto de capacidade digital e de dados, de software e informação.
É de suma importância garantir que as nações se tornem mais independentes no desenvolvimento e uso da inteligência artificial, uma tecnologia que exige poder computacional proporcionado por data centers significativamente mais sofisticados do que os atualmente disponíveis na maioria dos países. Apesar disso, são poucas as nações que dispõem desse tipo de infraestrutura. Uma recente pesquisa da Universidade de Oxford aponta que apenas 32 países no mundo abrigam essas estruturas fundamentais para a viabilização da IA, e 90% desses data centers estão nos EUA e na China. Esse cenário precisa ser transformado com urgência, promovendo uma distribuição mais equitativa do poder computacional ao redor do globo.
Além disso, um recente relatório da ONU trouxe um importante alerta sobre o crescimento da lacuna digital entre os países. Quanto menor o investimento em infraestrutura de data centers, mais distante esses países ficam de obter avanços por meio de ferramentas baseadas em IA. Com a mudança de paradigma trazida pela IA, essa lacuna afasta nações de maneira que pode ser irremediável no futuro – o que é prejudicial para a economia global e o próprio desenvolvimento científico e social.
A proposta é que os grandes modelos de linguagem sejam desenvolvidos e treinados por pesquisadores e profissionais locais, usando dados e infraestrutura locais, considerando, sobretudo, o contexto do país em que essa IA está sendo desenvolvida. Um exemplo disso é treinar uma IA totalmente na língua, ou línguas, nativa do seu país, considerando expressões idiomáticas, fontes culturais e práticas tipicamente ligadas ao povo que vive nesse país.
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A proposta não é só uma questão de localização, mas de adequação aos cenários de cada lugar, com seus obstáculos e possibilidades. E essa soberania ainda vai muito além de ter uma tecnologia nacional de ponta. Há uma busca por independência de ter de se adequar a modelos pensados para cenários que não são os de cada país. Essa infraestrutura doméstica, que aqui incluirá fábricas de IA, voltadas a construir e treinar essas inteligências, ajudam a IA a promover a economia local, controlando dados e permitindo que os benefícios do uso dessa IA sejam todos locais.
É imperativo que as nações realizem uma busca por essa soberania, pois essa é uma nova força do mercado, que irá ter impactos internos e externos. Suas aplicações são inúmeras, indo de contextos sociais, como a preservação de línguas locais nativas que estejam se perdendo, como a projeção de planos de melhoria climática ligados ao ecossistema específico de cada país. Um exemplo concreto que ilustra bem essa visão é o projeto Amazônia IA, realizado pela startup brasileira WideLabs. Trata-se de um modelo de linguagem de código aberto, treinado com dados locais e voltado à preservação de idiomas indígenas e à aplicação em políticas públicas na região amazônica. A iniciativa representa um passo concreto rumo à soberania de IA, ao combinar infraestrutura nacional com valorização cultural, proteção ambiental e autonomia tecnológica.
Ter uma IA soberana permite uma nação não ser uma espécie de “colônia digital”, dependente de dados de outros lugares do mundo, mas sem conhecimento completo e profundo de sua própria nação. Essa questão com certeza tem grande peso na autonomia, soberania e discussões sobre legislação e regulamentação da IA.
Além disso, a IA soberana também precisa se utilizar dos recursos do país, o que garante potencial a locais como o Brasil, que possuem grande potencial energético como um de seus recursos mais abundantes. Ou seja, aqui há potencial para construir em cima do que cada país tem de melhor.
No caso de muitos países que estão subordinados a outros em tantas questões, já há décadas, sempre atuando e trabalhando com sistemas pensados para outros cenários, essa é a chance de conseguir se desenvolver de forma a garantir autonomia completa e parcerias realizadas e pensadas em pé de igualdade. Isso tem impactos imensos nas relações internacionais. É poder de decisão e gerência de um país sobre si mesmo.
A geopolítica digital é um campo que se desenvolveu muito nos últimos anos, e já vimos diversas situações em que depender única e exclusivamente de um fornecedor ou país, deixou outras nações em desvantagem. A tecnologia, por sua vez, só tem a ganhar com isso.
No caso do Brasil, há muito potencial. Já existem diversas empresas pensando e fazendo IAs no contexto nacional. O apoio governamental, aqui, é essencial. Mas também é preciso investir em educação, pois em um mercado em que os dados são tudo e a tecnologia evolui rápido, aqueles com capacidades mais abrangentes e atualizadas conseguem sair na frente. No entanto, o avanço rumo à soberania de IA no Brasil enfrenta barreiras estruturais importantes. A escassez de infraestrutura computacional de ponta, como supercomputadores e centros de dados com capacidade para treinar grandes modelos, ainda limita o protagonismo nacional. Soma-se a isso o déficit de profissionais altamente qualificados e a ausência de políticas públicas consistentes para estimular a inovação local. Sem uma ação coordenada entre governo, setor privado e academia, há o risco de perpetuar a dependência de soluções estrangeiras, mesmo com potencial doméstico latente.
Aposto que veremos muito mais sobre a soberania de IA daqui para frente, já que a IA agora é parte de um complexo cenário geopolítico e é apenas uma ferramenta – dela derivam e continuarão a derivar inúmeras tecnologias futuras, com potencial ilimitado. As ramificações dessa questão são tantas que teremos um futuro muito atribulado e interessante pela frente.
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