Sem propósito, sua liderança está destinada ao fracasso

Liderança com propósito transcende a mera gestão de crises ou desafios de mercado

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Imagem: Shutterstock
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Vivemos tempos em que a transformação digital deixou de ser uma tendência futura para se consolidar como uma necessidade imperativa para qualquer organização que queira prosperar no mercado competitivo e dinâmico de hoje. No entanto, essa transformação não é movida apenas por avanços tecnológicos. Enquanto a tecnologia desempenha o papel de ferramenta, o verdadeiro motor por trás dessa revolução é a liderança. E mais do que nunca, a liderança eficaz precisa ser guiada por um propósito claro e inspirador.

No meu novo livro Mapa da Liderança, exploro como uma visão com propósito é fundamental para liderar equipes em um cenário de incerteza e rápidas mudanças tecnológicas. Quando menciono transformação digital, não me refiro apenas à implementação de novas ferramentas ou sistemas. Estou falando de uma mudança profunda na cultura organizacional, que só pode ser alcançada por líderes que têm uma visão clara do futuro que desejam construir – e, mais importante, por que querem construí-lo.

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Simon Sinek, em seu famoso conceito do “Círculo Dourado”, ressalta a importância de começar sempre pelo “Porquê”. Segundo Sinek, as pessoas não compram o que você faz, mas por que você faz. Para ele, o sucesso de uma organização não está apenas em suas metas tangíveis, mas no propósito que as guia. Esse “Porquê” é o que move não só os líderes, mas também suas equipes e, em última instância, os clientes. No contexto da transformação digital, isso significa que, para além das tecnologias disruptivas, as mudanças realmente sustentáveis só acontecem quando são movidas por um propósito maior, capaz de engajar e inspirar as pessoas a darem o seu melhor.

Quando abordo a transformação digital, defendo que esta é muito mais do que adquirir as tecnologias mais avançadas. Trata-se de reimaginar processos, repensar modelos de negócios e, acima de tudo, transformar a mentalidade das pessoas. Só assim é possível liderar uma transformação significativa e duradoura. Um líder que possui uma visão clara e um propósito alinhado é capaz de criar um ambiente onde a mudança é vista como uma oportunidade, e não como uma ameaça.

Líderes como Satya Nadella, da Microsoft, são grandes exemplos dessa abordagem. Ao assumir a empresa em um momento de declínio, Nadella não focou apenas em reestruturar o portfólio de produtos ou aumentar as receitas de curto prazo. Ele articulou uma visão clara de transformar a Microsoft em uma plataforma de nuvem e inteligência artificial, com o propósito de permitir que pessoas e organizações “alcancem mais”. Essa visão, ancorada em um propósito inspirador, não apenas revitalizou a empresa, mas também a reposicionou na vanguarda da inovação digital.

Esse tipo de liderança com propósito transcende a mera gestão de crises ou desafios de mercado. Ela inspira e mobiliza equipes em torno de uma causa maior, gerando um comprometimento que vai além das obrigações contratuais. Quando a transformação digital é guiada por uma liderança forte e visionária, as equipes enxergam o valor do que estão fazendo e passam a trabalhar com mais empenho e engajamento, pois entendem que estão contribuindo para algo que impacta de forma positiva os clientes, a organização e a sociedade como um todo.

Um exemplo emblemático de liderança com propósito vem de Yvon Chouinard, fundador da Patagonia. Mesmo quando sua empresa enfrentou crises financeiras, ele se manteve fiel ao seu propósito de sustentabilidade. A crise nos anos 90 foi um momento decisivo para a Patagonia, mas, ao invés de comprometer seus valores para superar as dificuldades, Chouinard dobrou seus esforços em práticas empresariais sustentáveis.

Sua liderança, movida por um compromisso profundo com o meio ambiente, fez com que a Patagonia emergisse como um exemplo global de responsabilidade social, transformando o que poderia ter sido uma falência em um novo modelo de negócios focado em valores. Isso nos mostra que, em tempos de crise, uma visão com propósito tem o poder de transformar obstáculos em oportunidades.

Entendo que, como líderes, devemos refletir sobre como uma visão com propósito ajuda a guiar equipes por momentos de transformação e mudança. Mais do que gerenciar, líderes devem criar uma conexão emocional com suas equipes, engajando-as em torno de uma visão que transcende os desafios cotidianos. Isso é fundamental em tempos de transformação digital, onde as mudanças rápidas podem gerar insegurança e resistência. O líder que possui uma visão clara, conectada a um propósito autêntico, é capaz de transformar essa resistência em motivação para inovação.

Steve Jobs tinha como propósito não simplesmente criar produtos tecnológicos, mas transformar a maneira como as pessoas interagem com a tecnologia. Jobs não via o iPhone ou o Mac apenas como dispositivos tecnológicos, mas como ferramentas que democratizariam a criatividade e o acesso à informação. Ele liderava com um propósito claro: “colocar um computador nas mãos de cada pessoa”. Sua visão foi o que impulsionou a Apple a se tornar uma das empresas mais inovadoras do mundo. Jobs entendeu que a tecnologia só é poderosa quando está a serviço de um propósito maior, e essa compreensão o ajudou a criar produtos que não só dominaram o mercado, mas também mudaram o mundo.

Liderar com propósito também exige empatia e inclusão. Em Mapa da Liderança, discuto a importância de o líder entender as necessidades e preocupações de sua equipe. A transformação digital pode gerar medo, especialmente se for vista como uma ameaça aos empregos tradicionais ou à forma como as pessoas estão habituadas a trabalhar. Um líder empático reconhece esses medos e, ao mesmo tempo, inspira sua equipe a ver além das dificuldades imediatas. Essa conexão emocional é o que move as equipes a abraçarem a mudança, transformando o processo de inovação em algo que faz sentido para elas.

Ao liderar com propósito, não estamos apenas promovendo uma transformação tecnológica; estamos deixando um legado. A verdadeira liderança é aquela que transcende o presente e impacta o futuro, moldando culturas organizacionais que continuarão a inovar e prosperar, mesmo após a saída do líder. O legado de uma liderança com propósito não se mede apenas pelo sucesso financeiro, mas pelo impacto duradouro que a transformação gera nas pessoas e na sociedade.

A jornada de transformação, seja digital ou humana, começa com uma liderança visionária e movida por propósito. Assim, líderes poderão não apenas transformar empresas, mas também o futuro.

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Sobre o Autor

Fábio Correa Xavier é Diretor do Departamento de Tecnologia da Informação (CIO) do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, onde lidera projetos de inovação, transformação digital e cibersegurança. É também Professor e Coordenador de Graduação e Pós-Graduação em diversas instituições de ensino, além de Colunista do MIT Technology Review, onde escreve sobre temas relacionados à tecnologia e sociedade. Possui formação acadêmica sólida, com Mestrado em Ciência da Computação pela USP, MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC/RJ, Especialização Network Engineering pela JICA-Japão, Pós-graduação em Lei Geral de Proteção de Dados, Direito Público, Gestão Pública e Responsabilidade Fiscal e Projetos de Redes. Possui ainda certificações internacionais em privacidade e proteção de dados, como IAPP CIPM e CDPO/BR, EXIN Privacy and Data Protection e (ISC)² CC.

Com mais de 30 anos de experiência na área de tecnologia e segurança da informação, atuou em empresas de grande porte, do setor público e privado, sendo reconhecido por diversos prêmios e homenagens, como o Prêmio de Inovação Judiciário Exponencial, o Ranking 100 Empresas + Inovadoras no Uso de TI, o Prêmio Empresa +Digital, o Prêmio Security Leaders Case do Ano, entre outros. Além da sua atuação profissional e acadêmica, dedica-se a trabalhos voluntários como Secretário Executivo do Comitê Gestor de Tecnologia, Governança e Segurança da Informação dos Instituto Rui Barbosa – IRB e Membro do Conselho de Administração do Instituto do Câncer Dr. Arnaldo.

É autor dos livros “LGPD no setor público: boas práticas para os municípios brasileiros”, “LGPD no setor público: Boas práticas para a jornada de adequação”, “Roteadores Cisco: guia básico de configuração e operação”, “Tecnologias, Inovação e outros assuntos em análise” e “Cartilha de Governança em Proteção de Dados para Municípios”. Também é autor de capítulos em livros sobre a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais e os Tribunais de Contas Brasileiros.

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