Quando o projeto funciona, mas a governança falha.

O que projetos de TI, Departamento Jurídico e problemas financeiros têm em comum

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Governança de IA. Imagem: Shutterstock
Governança de IA. Imagem: Shutterstock

Em tecnologia, existe um tipo de risco que raramente aparece nos dashboards: o projeto que opera normalmente, gera valor para o negócio, mas nunca é formalmente encerrado.

O sistema está em produção. Usuários dependem dele. A empresa cliente já o incorporou à rotina. Ainda assim, o contrato segue aberto, o aceite não vem e a última etapa do faturamento permanece suspensa.

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Esse não é um problema pontual de documentação. É um sintoma de falha de governança.

O erro está em tratar o aceite como burocracia.

Em muitos projetos de software, o aceite final ainda é visto como um ato meramente formal, quase cartorial. Algo que depende de uma assinatura — e, sem ela, nada acontece.

Esse modelo não escala. Nem do ponto de vista jurídico, nem do ponto de vista de gestão.

Aceite não é um papel. É o encerramento lógico de um ciclo de entrega. Quando ele depende exclusivamente da boa vontade tardia do cliente, o fornecedor perde previsibilidade, controle financeiro e clareza operacional. E não possui provas robustas de que o projeto foi entregue da forma como foi contratado.

Para lideranças de tecnologia, esse é um risco que precisa ser tratado de forma sistêmica.

Uso do sistema é um fato — e fatos têm consequências.

No ambiente empresarial, contratos não são interpretados apenas pelo que está escrito, mas pelo que efetivamente acontece.

Quando um software entra em produção, passa a ser utilizado e cumpre sua função econômica, esse comportamento gera efeitos jurídicos relevantes. O uso contínuo da solução, sem rejeição formal dentro de um prazo razoável, deixa de ser neutro.

O direito brasileiro reconhece que, em determinadas circunstâncias, o silêncio — ou a inércia — pode significar concordância. Especialmente quando havia prazo, comunicação clara e possibilidade real de contestação.

Para executivos de TI, isso se traduz em um ponto-chave: governança contratual começa no desenho do processo de entrega, não no departamento jurídico.

O departamento jurídico entra na sequência, para criar os documentos necessários que validem as etapas do processo de entrega previsto pelo time de tecnologia.

E após o Financeiro deve também estar alinhado à essas etapas, consolidando as faturas de acordo com o que já foi desenhado pelo time de desenvolvimento e assegurado pelo Jurídico.

Assim, conseguimos implantar um ciclo efetivo de governança que atuará de forma integrada: TI (desenvolvimento/engenharia); Jurídico e Financeiro. São as 3 engrenagens que deverão rodar em conjunto nesse processo, com transparência entre os departamentos, a fim de que o projeto seja entregue como foi contratado, e a empresa tenha a documentação jurídica assinada e as cobranças efetivadas.

Se uma dessas engrenagens falhar, todo o processo cai por terra. E uma falha dessa pode impactar todo o Financeiro da empresa, sem contar no reflexo jurídico, abrindo margem para que o cliente conteste – inclusive judicialmente – o que recebeu.

Contratos empresariais permitem — e exigem — clareza.

Em relações B2B, presume-se equilíbrio entre as partes. Isso dá liberdade para estruturar contratos mais inteligentes, com regras claras sobre homologação, aceite e encerramento.

Não se trata de criar contratos agressivos, mas contratos funcionais, práticos, que traduzem a realidade. Prazos objetivos, critérios técnicos de validação e hipóteses de encerramento automático reduzem conflitos e evitam projetos indefinidamente abertos.

Aceite técnico não pode ser um evento emocional nem político. Precisa ser operacional.

Como disputas de software são analisadas na prática.

Quando conflitos chegam ao Judiciário, a análise raramente se limita à ausência de um termo assinado. O foco recai sobre evidências concretas:

  • O sistema foi entregue?
  • Foi implantado?
  • Está sendo usado?
  • Atende ao propósito para o qual foi contratado?

O Superior Tribunal de Justiça tem consolidado o entendimento de que, quando o núcleo da obrigação foi cumprido, não é razoável bloquear pagamentos relevantes por pendências secundárias. O uso efetivo do software pesa — e muito.

Isso não elimina a necessidade de correções ou melhorias, mas desloca essas demandas para o campo adequado: suporte, SLA ou garantia, e não retenção indefinida de valor.

Aceite começa na engenharia, não no jurídico.

Para que essa lógica funcione, o processo técnico precisa ser consistente. Empresas mais maduras tratam o encerramento do projeto como parte da arquitetura de entrega.

Isso envolve:

  • Notificação formal da entrega;
  • Ambiente de homologação bem definido;
  • Critérios objetivos de validação;
  • Registro estruturado de falhas;
  • Prazo claro para manifestação.

Ao final desse ciclo, três caminhos são possíveis: aprovação, rejeição fundamentada ou ausência de resposta. Este último não pode ser um limbo — precisa ter consequência prevista.

Evidência é o que transforma tese em segurança.

Logs de deploy, e-mails de entrega, registros de acesso, chamados de suporte e relatórios de uso não são apenas documentos operacionais. Eles são ativos de governança.

Sem evidência, o aceite fica frágil. Com evidência, o encerramento do projeto deixa de ser negociado e passa a ser executado.

Para C-levels, isso exige integração real entre tecnologia, jurídico e financeiro.

Se a cada etapa cumprida no desenvolvimento, há um aceite formal e é coletada evidência jurídica disso, é possível vincular esse momento ao fator financeiro.

Uma sugestão de fluxo simplificado para vincularmos as etapas de entrega do projeto com validação jurídica e cobrança financeira, sendo tudo isso já previsto em contrato:

Projeto que nunca termina não é normal — é falha de gestão

Projetos permanentemente abertos distorcem indicadores, afetam fluxo de caixa e fragilizam relações comerciais. Mais do que isso, sinalizam imaturidade na gestão de contratos e entregas.

Quando o aceite deixa de depender de uma assinatura tardia e passa a integrar um processo técnico, contratual e documental bem definido, a empresa recupera controle.

Em um cenário de margens pressionadas e cobrança por eficiência, previsibilidade deixou de ser conforto. Virou requisito estratégico.

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Sobre o Autor

Advogada especialista em Direito Digital e Segurança da Informação. CEO e sócia-fundadora de Gisele Truzzi Tech Legal Advisory.

Experiência de 20 anos na área do Direito Digital, dos quais 15 são à frente de seu próprio escritório, assessorando empresas e startups a alavancarem seus negócios neste mundo digital, com segurança jurídica, agilidade e inovação

Graduada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/SP, com pós-graduação em Segurança da Informação, e especialização em Direito Eletrônico pela FGV/RJ. Certificada em Direitos Autorais para a Internet pela Harvard Law School (parceria ITS-RJ).

Pós-graduanda em Neurociências, Comunicação e Desenvolvimento Humano (Centro de Mediadores, Brasília/DF).

Colunista do portal ITForum, para o qual escreve periodicamente sobre Direito e Tecnologia.

Autora de diversos artigos sobre temáticas relacionadas a Direito e Tecnologia, publicados em vários portais, sites, revistas e livros, tais como IstoÉ Dinheiro, Conjur, Galileu, IBDI/IOB, entre outros.

Coautora das obras jurídicas “Direito Digital: Debates Contemporâneos” (Org.: Ana Paula Canto de Lima e outras. RT, 2019) e “Manual de educação digital, cibercidadania e prevenção de crimes cibernéticos” (Org.: Higor Vinícius Nogueira Jorge. Juspodium; 2019)

Professora convidada em cursos de Pós-graduação e MBA, para lecionar disciplinas relacionadas ao Direito Digital, Proteção de Dados e Privacidade,  Compliance e Segurança da Informação (EPD/SP, PUC – Campinas, ESA/OAB, UNINASSAU, entre outras instituições).

Condecorada com a medalha Tobias Barreto, pela UNINASSAU/PE, pela qualidade dos serviços jurídicos prestados e compartilhamento de conhecimento com a sociedade.

Ministrou palestras e treinamentos sobre as temáticas nas quais atua, em diversas empresas, órgãos públicos e eventos, tais como: Exército, Tribunal Superior do Trabalho (TST), Escola de Magistratura (EMATRA), PRODAM, PRODESP, FENALAW, CNASI, ICCyber, entre outros.

Responsável pela coordenação de projetos de Compliance em várias empresas, em temáticas relacionadas à Proteção de Dados e Privacidade, Governança Corporativa e Segurança da Informação, entre outros assuntos.

Atualmente assessora diversas empresas que necessitam de suporte jurídico especializado em demandas relacionadas à Tecnologia. Ministra palestras e treinamentos in company.

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