Passaportes Digitais de Produtos e o próximo passo da tecnologia: de dados estáticos a sistemas inteligentes 

O próximo passo da transformação digital está menos em coletar dados e mais em conectá-los para gerar inteligência sistêmica

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Os Passaportes Digitais de Produtos (DPPs) já são uma realidade concreta nas discussões sobre tecnologia, sustentabilidade e desenvolvimento econômico. Antes associados a um horizonte distante, hoje passam a ocupar um espaço estratégico na agenda de líderes de TI e de inovação, indo além do debate regulatório. Ao atribuir uma identidade digital a produtos físicos, eles abrem a possibilidade de algo que sempre foi um desafio nas cadeias produtivas: compreender, de forma integrada, como os produtos são concebidos, produzidos, utilizados e reinseridos no sistema ao longo de seu ciclo de vida. Mais do que registrar informações, os DPPs colocam em debate o papel da tecnologia como infraestrutura capaz de conectar dados, decisões e estratégias em um ambiente cada vez mais complexo. 

À primeira vista, parece uma solução técnica: mais dados, mais transparência, mais controle. Mas a experiência recente com a transformação digital mostra que a equação não é tão simples. Dados, sozinhos, não transformam realidades. Eles precisam ser interpretados, conectados e traduzidos em decisões que façam sentido para pessoas, empresas e sistemas. 

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A indústria de tecnologia já domina a coleta e o armazenamento de informações. Sensores, plataformas, nuvem e ferramentas de analytics fazem parte do cotidiano. O desafio agora é outro: transformar esse volume de dados em inteligência capaz de reorganizar fluxos, estimular a inovação e criar novos modelos de negócio. 

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Esse ponto fica evidente quando observamos como os dados são usados hoje. Na maioria dos casos, cada sistema resolve o seu próprio problema. O resultado são decisões corretas localmente, porém ineficientes no conjunto. Um processo melhora aqui, enquanto o desperdício aumenta ali. A tecnologia funciona, mas o sistema como um todo não evolui. 

É nesse contexto que surge a necessidade de conectar dados que antes estavam isolados. À medida que as informações passam a circular entre múltiplos atores, a tecnologia amplia seu papel: além de registrar eventos, passa a orientar decisões. Essa dinâmica permite que as escolhas considerem impactos em cadeia, efeitos de longo prazo e consequências coletivas, fortalecendo uma abordagem mais sistêmica e estratégica. 

Essa mudança já acontece em áreas como mobilidade, energia e serviços urbanos, nas quais dados integrados ajudam a prever demandas, evitar gargalos e melhorar a experiência das pessoas. O mesmo raciocínio começa a se aplicar aos produtos e materiais. 

Os Passaportes Digitais de Produtos podem cumprir esse papel como uma base comum de informação, capaz de sustentar novos serviços, novos negócios e novas formas de colaboração. Quando dados de produtos são estruturados e acessíveis, surgem oportunidades para reparo, remanufatura, logística reversa, análise preditiva e modelos de serviço que não dependem apenas da venda de um item novo. 

Esse movimento é particularmente relevante para o ecossistema de inovação. Startups, empresas de tecnologia e empreendedores conseguem criar soluções sobre uma mesma base informacional, ampliando o valor gerado ao longo da cadeia. Os dados alimentam um ambiente mais aberto, dinâmico e inovador, favorecendo a colaboração entre diferentes atores e a expansão do valor gerado ao longo da cadeia. 

Entretanto, isso não acontece automaticamente. Para que os DPPs cumpram esse papel, é preciso que os sistemas conversem entre si, que a informação seja confiável e que a experiência de uso seja simples. Se acessar os dados exige esforço excessivo ou se as decisões corretas parecem complexas demais, o sistema volta a funcionar de forma linear. 

A inteligência artificial (IA) entra nesse cenário como um meio, não como um fim. Seu valor está em ajudar a interpretar dados, identificar padrões e apoiar decisões.  Seu impacto se amplia quando é inserida em um contexto mais amplo, no qual regras, infraestrutura e comportamento humano caminham na mesma direção. 

O risco, nesse debate, é tratar os Passaportes Digitais de Produtos apenas como uma exigência regulatória. Quando isso acontece, eles tendem a se tornar mais um item de conformidade, sem impacto real no dia a dia das empresas ou das pessoas. O potencial está justamente em enxergá-los como infraestrutura digital para inovação, capazes de transformar informação em ação coordenada. 

No fundo, o próximo passo da tecnologia não é produzir mais dados nem criar sistemas cada vez mais sofisticados de forma isolada. É construir ambientes em que informações, decisões e pessoas estejam alinhadas. Quando isso acontece, a inovação é elevada de exceção à condição de elemento constitutivo do funcionamento natural do sistema. 

É nesse ponto que os Passaportes Digitais de Produtos superam a condição de simples etiquetas digitais e passam a representar uma mudança mais profunda: a transição de dados estáticos para sistemas inteligentes, capazes de gerar valor econômico, social e ambiental ao mesmo tempo. 

Elisa Palandi (à esquerda) é empreendedora e especialista em Passaportes de Produtos Digitais. Jamile Sabatini Marques é Diretora de Inovação, Fomento e Pesquisa da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS) no curso de Planejamento e Gestão de Cidades Sustentáveis.

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Sobre o Autor

A Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) atua com o propósito de contribuir para a construção de um Brasil Mais Digital e Menos Desigual, porque acredita que a tecnologia da informação desempenha um papel fundamental para a democratização do conhecimento e a criação de novas oportunidades, visando melhor qualidade de vida para todos, de forma inclusiva e igualitária. Diante desse propósito, o objetivo da ABES é o de assegurar um ambiente de negócios propício à inovação, ético, dinâmico, sustentável e competitivo globalmente.

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