Não existem balas de prata, só complexidades

Publicado:

Leitura 4 minutos

maze-2264
maze-2264

Se a complexidade não é a chave do mundo, mas o desafio a enfrentar, por sua vez o pensamento complexo não é o que evita ou suprime o desafio, mas o que ajuda a revelá-lo, e às vezes mesmo a superá-lo.  Edgar Morin

Quando iniciei essa coluna, prometi um bônus de pensamento sistêmico em alguns artigos. Pensamento sistêmico e pensamento complexo serão tratados como sinônimos aqui.

Nesse início de ano e de governo, senti a necessidade de propor que a sociedade foque sua energia em identificar e debater problemas objetivos, ao invés de brigar a respeito de visões de mundo ou acreditar sem uma visão crítica em “balas de prata” ou “salvadores da pátria”.

As melhores notícias de tecnologia B2B
Acompanhe todas as novidades diretamente na sua caixa de entrada

O momento é ideal para propor uma reflexão sobre complexidade.

A premissa central da complexidade é a impossibilidade, mesmo em teoria, de termos todo o conhecimento necessário para resolvermos problemas complexos de forma definitiva. Isso porque ela compreende não apenas grandes quantidades de unidades e interações no âmbito de um sistema, mas também de incertezas e fenômenos aleatórios.

Num certo sentido, complexidade tem estreita relação com a emergência de fenômenos que não temos como antecipar.

Democracia, segurança pública, desenvolvimento econômico, inovação tecnológica, desigualdade social, mudanças climáticas, costumes sociais, educação em alta escala e muitos outros são temas complexos. O planejamento deles requer pensamento sistêmico, pois operam por meio de um conjunto de sistemas e subsistemas. Não partir dessa compreensão é um erro que prejudica sair desse  “labirinto dinâmico” que é a complexidade. 

Qualquer exemplo será muito limitado em um texto dessa extensão, mas pensemos na proposta de  liberar porte de armas para combater a violência. A partir da entrada de mais armas no sistema,  a sociedade brasileira pode ter como efeito colateral o roubo de armas para uso de bandidos, mortes acidentais por falta de habilidade ou engano, mortes banais por excesso de medo ou acesso facilitado a armas, aumento de latrocínios por medo da vítima portar arma, entre outros. O resultado final no sistema pode ser mais perdas de vidas humanas (inocentes e criminosos), sem falar nos problemas de saúde com feridos a bala, sobrecarregando o já precário sistema público de saúde.

Talvez uma melhor intervenção sistêmica, no curto e médio prazo, seja reduzir a circulação de armas ilícitas, ao controlar melhor as fronteiras, destruir armas apreendidas, asfixiar financeiramente as organizações criminosas que traficam armas e prender seus líderes. Mas potencialmente a melhor solução de longo prazo é compreender e reduzir as razões sistêmicas que fomentam a proliferação de criminosos, entre as quais a extrema desigualdade social é um ponto central, algo tão complexo que nunca é incluído num plano de segurança pública. Países menos desiguais são mais seguros. Fato!

Como lidar com a complexidade na prática? De forma ultra resumida, sugiro os seguintes passos não lineares, mas iterativos, com idas e voltas aos mesmos passos, como acontece em uma espiral.

  1. Definir e estudar a fundo qual problema complexo queremos resolver;
  2. Definir e modelar (visualmente) o  sistema complexo no qual o problema se encontra;
  3. Identificar as partes do sistema que não funcionam adequadamente;
  4. Fazer cenários e estratégias para intervir em partes-chave do sistema;
  5. Mapear os atores e as iniciativas com mais poder para promover mudanças no sistema;
  6. Articular atores no entorno das mudanças propostas, mantendo uma visão de ecossistema (sistema e subsistemas).    

O White Paper “Recomendações sistêmicas para combater a desinformação nas eleições do Brasilpercorreu quase todos os passos acima. Abaixo, um mapa para ilustrar o passo 2.

Mapa do Sistema Propaganda Eleitoral na Internet

A convivência entre ordem e desordem, acerto e erro, certeza e incerteza, segurança e risco, dados confiáveis e “pontos cegos” não apenas é inevitável, como são processos complementares inerentes às estratégias de mudanças sistêmicas.

Planos com base somente em “balas de prata”, certezas, rigidez e bravatas só servem para prejudicar a compreensão do mundo complexo, inibir as potencialidades re-organizadoras do sistema e, muitas vezes, provocar consequências negativas não intencionais.

A aceitação da complexidade e suas propriedades, nuances, consequências e efeitos colaterais ou indesejados é uma mudança de paradigma urgente.

Lidar com ela é possível. Dominá-la, não!

E não podemos esquecer… “a complexidade é o desafio e não a resposta”

Se quiser falar comigo, escreva para [email protected]

 

Sobre o Autor

Mestre em administrador de empresas com 28 anos de experiência profissional. Na Fundación Avina, foi gestor de Tecnologia para Mudança Social, coordenador do Fundo Latino Americano de Inovações Cívicas e da Iniciativa Latino Americana de Dados Abertos. Também, foi consultor de fundações internaciona

Ver publicações deste autor

Colunas relacionadas