Capacidade de sintetizar com credibilidade qualquer imagem ou som e distribuir o fake pelas redes exige curadoria profissional de informações
Este ano eleitoral mal começou e alguns acontecimentos já deixaram claro que a combinação de inteligência artificial, redes sociais, oportunismo e mau-caratismo enterraram a verdade em um bloco de concreto que o cidadão comum não consegue romper. Nesse cenário, o jornalismo surge como o contraponto urgente, e, por isso mesmo, sofre ataques de quem se beneficia da enorme mentirada.
O primeiro caso veio com a prisão de Nicolás Maduro, que desembarcou em Nova York usando um agasalho de uma famosa marca americana, que inundou as redes sociais com a foto do ditador venezuelano usando o seu produto. Até aí, é o marketing sendo marketing. Mas não se pode ignorar como isso capturou o debate digital com uma mensagem do tipo “preferida até pelos criminosos”. E houve ainda as incontáveis imagens falsas dessa prisão geradas por IA, aumentando a desinformação.
Pior que isso foi o recente ataque orquestrado nas mesmas redes sociais contra o Banco Central e autoridades financeiras envolvidas com a liquidação do Banco Master. Até perfis de fofoca tentaram tirar a legitimidade de uma ação bem-feita.
Há ainda as agressões contra a jornalista Malu Gaspar, de “O Globo”, por realizar seu trabalho jornalístico, ao apresentar fatos suspeitos envolvendo um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e sua esposa com o mesmo banco. Esses atentados se enquadram em três categorias ou na combinação livre entre elas: desconhecimento do trabalho jornalístico, manipulação das massas ou má-fé de interessados no caso.
Qualquer que seja o motivo e diante do enorme barulho que esses temas estão criando, é preciso esclarecer como funciona o jornalismo e por que ele se torna, cada vez mais, essencial para a sociedade, especialmente com a proximidade das eleições.
Veja esse artigo em vídeo:
Os detratores de Gaspar afirmam que ela atua com interesses políticos, visando desmoralizar ministros do STF, e que ela faz acusações sem provas. Cabe então explicar como a imprensa funciona e por que ela é tão fundamental, especialmente em sociedades como a nossa, que se tornam tão obtusas por ações nas redes sociais.
Um jornalista investiga os fatos e eventualmente coleta informações que podem servir como provas, mas esse não é o seu trabalho. Quem produz provas é a autoridade policial, que pode ser provocada a agir por informações da imprensa. Mas o jornalista não é policial. Sem tais informações, talvez nunca houvesse investigação e justiça em um dado caso.
Um dos recursos mais valiosos dessa investigação são as fontes, pessoas que têm informações privilegiadas sobre um assunto e interesse em divulgá-las. Elas usam o jornalista para que aquilo ganhe notoriedade, enquanto o jornalista usa a fonte para obter informações valiosas que, de outra forma, continuariam restritas.
Leia mais: Como nos proteger da máquina de desinformação da IA em um ano eleitoral
Shakespeare escreveu que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a tua filosofia.” Se hoje a sociedade busca a verdade nesse angu de caroço do Banco Master, é porque algumas pessoas sempre souberam de tudo nesses bastidores, e contaram pelo menos parte dela à jornalista, que deu visibilidade a essas informações, ampliadas depois por outros veículos, como o Estadão e a Folha.
Os agressores de Gaspar exigem que ela divulgue quem são essas pessoas, mas esse pedido é descabido. A despeito do seu interesse em divulgar o que sabem, muitas não podem aparecer, e esse anonimato é garantido pelo artigo 5º, inciso XIV da Constituição, que estabelece que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício da profissão”. Sem essa proteção, muita gente guardaria para si informações importantes.
O grande desafio do jornalista é não ser manipulado por uma fonte, interessada em propagar uma mentira. O profissional deve confirmar que a informação é verdadeira e de interesse público. Em caso afirmativo, tem a obrigação de publicá-la, para que, dessa forma, a sociedade corrija imperfeições e melhore. Foi o que Gaspar fez. E, depois dela, uma enxurrada de fatos suspeitos ou mal explicados corroborou tudo.
Vale dizer que os que a acusam de interesses políticos são os mesmos que aplaudem a imprensa quando ela usa os mesmos métodos para expor falcatruas “do outro lado”. E a boa imprensa fiscaliza qualquer tipo de poder, não importa quem estiver lá.
De 15 anos para cá, aqueles que se beneficiam de uma sociedade sem essa visão emplacaram a ideia de que, com as redes sociais, o cidadão não precisaria mais da imprensa, pois teria acesso direto à origem dos fatos. Infelizmente boa parte da população comprou essa lorota. E casos como os que analisamos aqui demonstram que, enquanto o jornalismo profissional insiste em desenterrar a verdade, as redes sociais massacram a sociedade com mentiras.
Foi o que aconteceu no dia 27, em um ataque coordenado de perfis com milhões de seguidores contra instituições e autoridades ligadas à liquidação do Banco Master. Limitado a 36 horas, ele foi identificado pela Febraban e divulgado pelo Estadão. Alguns influenciadores vieram a público para dizer que lhes foi oferecido muito dinheiro para participar do ataque à reputação dos envolvidos. Vale dizer que muitos dos perfis envolvidos não tratam de finanças: a maioria se dedica a fofocas.
Como de costume, a massa alheia às notícias e com seus interesses cuidadosamente inflamados pelos produtores de desinformação repercutiu as mentiras. De novo, enquanto os jornalistas sérios informam, as redes sociais deformam. Infelizmente a manipulação é tão grande, que a turba não vê que se tornou massa de manobra.
Agora, com as eleições chegando, tudo isso se tornará café pequeno e as imagens falsas de Maduro parecerão piadinhas. A inteligência artificial não para de dar mostras de que infelizmente também se presta a refinar a desinformação, para que se torne absolutamente crível, incluindo aí a produção de fotos, áudios e até vídeos que retiram de cada um de nós a capacidade de identificar uma verdade diante de nossos olhos.
Nesse mundo de cacofonia extrema, pulverizado com armadilhas da “hipersuasão” descrita pelo filósofo da informação Luciano Floridi, em que a IA capta nossos valores e desejos mais íntimos para nos enganar, a curadoria cuidadosa de profissionais da imprensa desponta como esperança de fugirmos da manipulação. E isso vale para todo o espectro político, e não apenas um “lado”.
Afinal, se as redes sociais construíram seu negócio sobre a desinformação ruidosa e visceral disseminada por criminosos, os jornalistas sérios continuam tentando encontrar os fatos muito além das obviedades do nosso cotidiano, seja digital ou não.
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