O que o WEF, o MIT, a FGV e o livro Open to Work dizem sobre quem vai ficar de fora dessa transformação
Boa parte das pessoas que mais sentirão o impacto da Inteligência Artificial (IA) ainda nem sequer entrou na conversa. O debate sobre tecnologia frequentemente esquece um ponto fundamental: a IA é apenas mais um capítulo de uma história antiga de resistência e transformação.
Cada geração enfrentou sua revolução tecnológica com a mesma acusação de que a nova ferramenta seria uma forma de “trapaça”. Escribas temiam a imprensa; professores proibiram calculadoras; e, mais recentemente, “googlar” foi rotulado como preguiça intelectual. A acusação é sempre a mesma: se você usa a ferramenta, não está fazendo o trabalho de verdade.
Os números do Fórum Econômico Mundial (WEF) projetam a criação de 170 milhões de novos empregos até 2030, contra 92 milhões deslocados. O saldo líquido é positivo em 78 milhões de postos. Historicamente, a tecnologia sempre criou mais do que destruiu. No Brasil, a economia digital já criou categorias inteiras de trabalho que não existiam há uma geração.
Contudo, o problema nunca foi a capacidade de criar, mas a distribuição do acesso ao que é criado. Se imaginarmos o mundo como um grupo de 100 trabalhadores, 59 precisarão de requalificação até 2030, mas 11 provavelmente não receberão o treinamento necessário. Esses 11 são, invariavelmente, aqueles que já estavam excluídos antes da chegada da IA.
No cenário brasileiro, a FGV IBRE aponta que 30 milhões de ocupações estão expostas à IA generativa, com mulheres e jovens liderando o grupo de maior risco. O gargalo, no entanto, começa antes da qualificação: quase metade dos empregos que se beneficiariam da IA são travados pela simples falta de conexão e infraestrutura básica.
O livro Open to Work, de Ryan Roslansky e Aneesh Raman, sugere que o valor humano se concentrará em tarefas que dependem de julgamento, leitura de contexto e liderança em incerteza. As habilidades que definem esse valor são curiosidade, coragem, criatividade, compaixão e comunicação.
No entanto, essas competências não nascem no vácuo. Curiosidade sem exposição não vira competência; coragem sem oportunidade não vira confiança. Elas dependem de ambientes profissionais reais e mentoria. Talento nunca foi distribuído de forma desigual, mas a oportunidade, sim.
O risco real da era da IA não é apenas a automação de tarefas, mas a repetição de um padrão histórico de exclusão, agora sem a desculpa da ignorância. Desta vez, sabemos exatamente o que vem pela frente. O custo da inação é o que o livro chama de “milhões de Einsteins perdidos”: pessoas com potencial brilhante que nunca tiveram acesso ao ambiente necessário para florescer. O que falta hoje não é informação, mas uma ação coordenada entre empresas, governos e sociedade para garantir que, desta vez, o resultado seja diferente.
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