Europa e América Latina apostam na complementaridade para acelerar inovação industrial
A edição 2026 da Hannover Messe*, maior feira de tecnologia industrial do mundo, consolida um movimento que CIOs e CTOs já vêm acompanhando de perto: a convergência entre inteligência artificial, dados e automação como eixo central da competitividade global. Neste ano, o evento ganha um elemento adicional de relevância estratégica com o Brasil como país parceiro oficial.
A presença brasileira foi expressiva. Mais de 140 empresas participaram, ocupando cerca de 2.700 m² distribuídos em seis pavilhões. Entre elas, nomes como Vale, Embraer e Natura apresentaram aplicações concretas de tecnologia em escala industrial, indo além de discursos conceituais e reforçando o posicionamento do país como fornecedor de inovação aplicada.
No caso da Vale, o destaque foi o uso intensivo de tecnologia em mineração, com foco em eficiência operacional e práticas alinhadas a ESG. Já a Embraer apresentou avanços em mobilidade aérea urbana, incluindo seu projeto EVE, em um momento em que concorrentes europeus, como a Airbus, desaceleram iniciativas similares. A Natura, por sua vez, levou ao evento uma narrativa centrada em bioeconomia, com experiências imersivas que conectam tecnologia, rastreabilidade e uso sustentável de ativos da Amazônia.
Outro ponto de atenção para executivos de tecnologia foi a evolução dos biocombustíveis como alternativa energética viável. Fabricantes alemães como Mercedes Benz e Volkswagen já demonstram caminhões operando com biodiesel brasileiro, prontos para escala industrial, o que reforça o papel do Brasil em cadeias globais de energia e mobilidade.
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Se há um tema transversal à feira, é a inteligência artificial aplicada à indústria. Mais do que robôs humanoides ou demonstrações isoladas, o avanço relevante está na integração entre IA e sistemas industriais tradicionais.
No estande da Siemens, uma demonstração prática sintetiza essa transformação: braços robóticos equipados com IA capazes de lidar com variabilidade e imprevisibilidade em tempo real. Diferentemente da automação tradicional, baseada em tarefas rigidamente programadas, esses sistemas aprendem continuamente a partir de tentativa e erro, ajustando movimentos e estratégias conforme o contexto.
Para CIOs e CTOs, isso representa uma mudança estrutural. O stack industrial passa a ser composto por três camadas integradas: hardware (máquinas), software (programação) e dados. A partir da análise desses dados, torna-se possível gerar insights operacionais em tempo real, reduzindo downtime — um dos principais custos ocultos da indústria — e permitindo ajustes dinâmicos por meio de interfaces cada vez mais próximas de modelos baseados em prompts.
Na prática, a IA industrial já permite reconfigurar processos complexos que antes exigiam meses de setup, além de antecipar falhas e otimizar linhas produtivas com base em padrões detectados continuamente.
A edição deste ano também foi marcada por discussões geopolíticas e econômicas, especialmente no contexto do acordo entre Mercosul e União Europeia. A narrativa apresentada pelas empresas brasileiras reforçou um posicionamento de que o nosso país é um parceiro estratégico em cadeias globais que envolvem tecnologia, sustentabilidade e produção industrial.
Executivos destacam que a complementaridade entre Europa e América Latina pode ser um diferencial competitivo frente à hegemonia tecnológica de Estados Unidos e China. De um lado, a Europa traz estrutura, padronização e profundidade técnica. De outro, a América Latina apresenta maior adaptabilidade e velocidade de execução em ambientes voláteis.
“Essa combinação de um povo que se adapta fácil a novas realidades com outro mais estruturado e linear pode acelerar a adoção de tecnologias como inteligência artificial de forma mais eficiente: unindo capacidade de implementação rápida com modelos estruturados de inovação”, afirma Pablo Fava, CEO da Siemens Brasil.
*O jornalista viajou a convite da Siemens.
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