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Esta foi minha escola de “fora de estrada”. Estas eram as minhas referências. Mas
quis o destino que eu nunca mais chegasse perto de um veículo “valente” e muito
menos andasse em terrenos difíceis e complicados. Por isso quando a Ford me
convidou para conhecer a fábrica do Troller T4 e experimentá-lo nas estradas e
areias do Ceará, meu lado aventureiro, há muito adormecido ficou bastante estimulado.
O novo Troller T4
Caso você leitor não saiba (eu não sabia até pouco tempo atrás) a Ford adquiriu
a fábrica do Troller em 2007, um veículo fora de estrada genuinamente nacional.
Fabricado originalmente usando processos próprios (semi artesanais) e alguns componentes
de terceiros, agora em 2014 foi totalmente remodelado. Em uma renovada e ampliada fábrica localizada em Horizonte, uma
cidade próxima de Fortaleza no estado do Ceará, o novo veículo tomou forma. Mas
a Troller teve o grande cuidado (e sabedoria) em reprojetar o carro com toda a
identidade visual do Troller, conhecido pelo mercado desde meados dos anos 90.
Mas mais do que isso, o novo Troller respeita o conceito criado por seu
fundador, um carro forte, robusto, capaz de enfrentar caminhos impensáveis, mas
com estilo, conforto e proporcionando a seu dono desfrutar do fora de estrada,
em companhia de seus colegas que também curtem muito este estilo de vida,
urbano durante a semana e radical no final de semana ou férias.
Não vou explorar em detalhes as especificações do Troller T4 que são facilmente encontradas no link que acabo de inserir neste texto. Mas
alguns detalhes merecem destaque:
É normalmente alguém que tem no Troller o terceiro carro da casa. Utiliza-o
para se descontrair no tempo livre e se confraternizar com outros “trolleros”. Estão
disponíveis na rede revendas (exclusiva da Troller) mais de 130 acessórios para
customização e personalização do carro. Desde protetores para diversas partes
do inferior do carro, guincho, para choques off-road, câmera de ré, bagageiro
de teto, capa de estepe, calha de chuva, bagageiro, capacete, cintas para
desatolamento, estribo de metal, pneus lameiros, manilha, quebra mato… Só
para citar alguns.
O percurso de aproximadamente 100 Km foi bastante variado. Estrada, cidade e
trilha. Embora a vocação natural do Troller seja andar por terrenos acidentados
ele foi construído de forma a ter um comportamento muito dócil no asfalto. Ao
assumir o volante não tive no início a sensação de que estava em um carro capaz
de vencer rampas íngremes andar em todo tipo de terreno, como minha história de
“jipeiro” me fazia lembrar. Os confortos a bordo não passam despercebidos.
Computador de bordo, ar condicionado dual zone, vidros elétricos, direção
assistida… Em nada lembra o velho jipe que me fora tão íntimo nos meus
primeiros dias dirigindo automóveis. É sem dúvida um carro que tem dupla
personalidade. E ambas são fortes e propícias para respectivas emoções.
Ao acelerá-lo nas estradas, por saber que se tratava de um belo motor diesel,
com alto torque em baixas rotações e que eu “cavalgava” 200 cavalos, imaginei
que a reposta do motor fosse um pouco mais vigorosa. Ele de fato acelera muito
bem, mas não posso deixar de citar que naquele momento o Troller levava perto
de 2500 Kg. Eram cerca de 2150 Kg do próprio carro somados a mais 320 Kg de 4
adultos (não pequenos).
Sobre o trecho rodoviário e urbano não há muito mais o que falar. O nível de
ruído baixo chamou minha atenção, algo que surpreendeu, pois esperava (e até
aceitaria um pouco mais pelo tipo de carro). O T4 proporciona ao seu motorista
as facilidades e confortos de um carro “comum”, guardando alguma similaridade
com os SUVs que existem. Apenas com uma personalidade mais fora de estrada real
(já que há muitos carros no mercado que tentam passar uma imagem de fora de
estrada apenas no visual).
O test-drive nas trilhas arenosas
O último trecho previsto trazia uma incursão em terreno fora de estrada. Meus
companheiros de viagem optaram por permanecer no hotel e por isso fiz sozinho
este trecho. Descobri que fazer navegação e dirigir mesmo tempo (ainda mais um
carro que neste terreno desperta interessantes emoções) não funciona. Eu me
perdi da trilha proposta após 2 ou 3 minutos. Fazer o quê? Segui em frente e explorei
por mim mesmo pequenas estradas, trilhas, areia e até duna!! Eu não iria me
perder, estava perto do hotel, assim segui meu instinto e bom senso pelo
caminho. Claro que com cuidado, pois não iria expor o carro a situações radicais
além do que ele foi projetado.
Foi neste momento que senti a verdadeira força do motor. Eu senti que as duas
primeiras marchas (as mais curtas) têm uma força extraordinária e forte
resposta ao acelerador. Isso em uma estrada de terra recoberta com muita areia trazida
pelo vento das dunas próximas.
Os pneus que vêm com o carro são para uso “geral”, ou seja, 50% asfalto e 50%
estrada. Mas mesmo assim, com certa dose de cautela eu me aventurei pelas
estradas não usuais. Confesso que desafiei o Troller algumas vezes. Sabia que
ele seria capaz de transpor trechos com muita areia ou terra, mas de propósito
eu parei o carro em pontos que com certeza um carro “comum” não sairia de lá,
ficaria atolado. Começavam aí meus momentos de pura provocação e emoção.
E nesta hora aconteceu o que eu estava esperando, fiquei atolado no areal. A
grande força aplicada nas rodas traseiras não me movia um centímetro sequer
para a frente. Nessa hora sabia o que fazer. Girei o controle que fica ao lado
da alavanca de marchas e coloquei na posição 4×4. Tentei novamente. Nem parecia
que tinha areia ali, saí de forma imediata de minha armadilha branca e fina. Não
apenas a tração das 4 rodas foi importante nessa hora. O modo 4×4 do T4 tem um sistema inteligente de
distribuição de torque privilegiando as rodas que têm melhor ou alguma
aderência.
Após explorar esta estrada sinuosa e delicada por mais algum tempo eu me atrevi
a me aproximar de algumas dunas que havia ali. Eu vira outro Troller se
dirigindo para lá. Isso me deixou mais animado e seguro. Não poderia ser muito
atrevido nas dunas. Andar neste terreno extremo exige pneus de tipo mais
apropriado. Mas mesmo sem este pneu os entendidos do assunto o fazem com “pneu
baixo”, ou seja, retirando boa parte da pressão dos pneus deixando-os mais
adaptáveis ao terreno.
Comecei com 4×2, ao perceber que iria atolar mudei para 4×4 (o Troller permite
que 4×4 seja ligado mesmo em movimente até 120 Km/h). A sensação foi
maravilhosa! Como descrever? O que mais se aproxima é “eu estou no controle e
nada vai me deter”. Isso chega perto do que eu senti. Parar na duna era o
convite para usar 4×4 reduzida, dessa vez muito mais dócil e sutil na
embreagem… Neste meio tempo o outro Troller se aventurou muito para cima e
ficou (aparentemente) definitivamente preso em uma rampa de grande inclinação
de areia. Parei o carro, pensei em ajudá-lo de alguma forma. Não foi
necessário. Se o 4×4 low não conseguiu movê-lo para a frente naquele areal todo,
seu condutor, esperto e experiente que era, engatou marcha a ré com reduzida e
escapou da areia. A foto abaixo mostra este momento logo após sua libertação.

Conclusão
O novo Troller é um veículo de nicho evidentemente. Tem um público fiel com 48%
de seus compradores já possuidores de modelo anterior do carro. Tem capacidade
e conforto para uso urbano por conta da tecnologia embarcada, itens de conforto
e sofisticação. Mas o que seu dono quer mesmo é desafiar-se por caminhos, trilhas,
lamaçais, dunas, areia, lama, riachos… Quer também desfrutar do prazer da
companhia de pessoas de mesmos gostos, comparar seu carro com o de amigos,
acrescentar pouco a pouco itens e acessórios que o permita ir cada vez mais
longe com seu Troller.
Não é um carro barato. Tem preço similar ao de um Ford Fusion. Mas qualquer
comparação com carros que não sejam off-road não faz sentido algum. São proposta
diferentes, objetivos diferentes e principalmente emoções diferentes. A
reformulação da fábrica e processos produtivos melhorou a capacidade de
produzi-lo em maior escala, mas principalmente com maior uniformidade e
controle de qualidade.
De minha própria experiência ressalto como pontos de possível melhoria algum
avanço na precisão do câmbio (embora já melhor que a versão anterior) e melhor
acesso ao banco traseiro. Em algum momento foi questionada a falta de air-bag,
não obrigatório neste tipo de veículo utilitário fora de estrada. Eu entendo
que a questão da legislação norteou essa decisão. Mas também penso no perigo de
um air-bag ser inflado sem necessidade em algum impacto seco e brusco no uso
off-road. Não seria boa ideia. Assim como última sugestão, se possível, provê-lo
de um sistema de proteção tipo air-bag, porém calibrado para uso off-road. Será
possível?
Por fim trago comigo dessa experiência a forte emoção e sensação de “estar
sempre no controle” e vivenciar fortes emoções mesmo entre 5 Km/h e 10 Km/h ao
buscar o caminho certo, a aderência certa, a tração certa… São sensações que
remetem minhas lembranças aos pastos e riachos da fazenda que foi da família
décadas atrás, de meu aprendizado de direção em terrenos acidentados, mas que nos
dias de hoje podem ser desfrutados em um Troller com segurança e grande
conforto.