Adoção de IA no setor público e inclusão social: desafios no contexto brasileiro

Quais os desafios para que a IA possa ser usada para revolucionar o serviço público prestado à sociedade?

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A adoção de Inteligência Artificial (IA) no setor público, indubitavelmente, tem potencial para transformar significativamente a gestão pública e os serviços oferecidos à sociedade.  Ao automatizar tarefas repetitivas, analisar grandes volumes de dados e tomar decisões baseadas em evidências, a IA pode ajudar os governos a se tornarem mais eficientes, eficazes e responsivos.

No Brasil, onde a burocracia e a ineficiência administrativa são frequentemente citadas como barreiras ao desenvolvimento, a IA pode representar uma solução revolucionária. Nesse contexto, ferramentas de IA podem ser usadas para:

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  • Automatizar tarefas repetitivas: tarefas como processamento de pedidos, entrada de dados e geração de relatórios podem ser facilmente automatizadas usando IA, liberando funcionários do governo para se concentrarem em tarefas mais estratégicas.
  • Analisar grandes volumes de dados: a IA pode ser usada para analisar grandes volumes de dados, como dados de censo, registros de impostos e registros médicos, para identificar padrões e tendências. Essas informações podem ser usadas para melhorar a tomada de decisões, alocar recursos de forma mais eficaz e fornecer serviços mais direcionados aos cidadãos.
  • Tomar decisões baseadas em evidências: a IA pode ajudar os governos a tomar decisões mais informadas, com base em evidências em vez de suposições. Ferramentas de IA podem ser usadas para analisar dados históricos, identificar tendências e prever resultados futuros.
  • Melhorar a transparência e a responsabilização: a IA pode ajudar os governos a se tornarem mais transparentes e responsáveis. Ferramentas de IA podem ser usadas para rastrear o progresso em relação às metas, identificar áreas de melhoria e garantir que os funcionários do governo sejam responsabilizados por suas ações.

No entanto, há grades desafios a serem superados para que a IA seja realmente efetiva, especialmente quanto à universalização no atendimento aos cidadãos brasileiros, dada a grande desigualdade digital. Segundo dados do IBGE (2021), aproximadamente 20% da população brasileira ainda não possui acesso à internet. Esta falta de conectividade é particularmente acentuada em regiões rurais e comunidades periféricas. A implementação de serviços públicos baseados em IA pode exacerbar essa desigualdade se não houver uma estratégia concomitante de inclusão digital.

Veja também: A evolução da inteligência artificial e os riscos em anos eleitorais

Além da infraestrutura de acesso, a alfabetização digital é outro fator preocupante. Muitos brasileiros, especialmente os de baixa renda e os idosos, não possuem as habilidades necessárias para interagir com tecnologias avançadas. Desta forma, programas de educação e treinamento são essenciais para garantir que a população tenha a capacidade de utilizar e se beneficiar dos serviços baseados em IA.

Avançando um pouto mais, outro desafio significativo é a questão do viés algorítmico. Sistemas de IA são tão imparciais quanto os dados nos quais são treinados. No Brasil, onde desigualdades sociais e raciais são profundas, há um risco real de que sistemas de IA possam perpetuar ou até mesmo amplificar essas desigualdades se os dados utilizados não forem representativos ou se não houver um rigoroso controle de qualidade e ética na construção desses algoritmos.

E o que pode ser feito?

Para enfrentar esses desafios, é imperativo que o Brasil desenvolva uma governança robusta e políticas públicas inclusivas para a adoção de IA. Isso inclui ações, como:

  • Desenvolvimento de Infraestrutura, que envolve investimentos em infraestrutura de internet, especialmente em áreas rurais e comunidades marginalizadas, são fundamentais. Programas como o Internet para Todos, que visa expandir a conectividade em regiões remotas, devem ser ampliados e acelerados.
  • Programas de Educação e Capacitação, universais e inclusivos, com iniciativas como o Programa Nacional de Formação de Professores em Tecnologia Educacional que podem ser expandidas para incluir treinamento em IA e habilidades digitais para a população em geral. Além disso, parcerias com instituições de ensino e organizações não governamentais podem ajudar a democratizar o acesso ao conhecimento tecnológico.
  • Transparência e Controle de Qualidade, de forma a estabelecer mecanismos de transparência e controle de qualidade para o desenvolvimento e implementação de sistemas de IA. Isso inclui a criação de comitês de ética em IA, auditorias regulares dos algoritmos e a participação ativa da sociedade civil no monitoramento desses sistemas.
  • Inclusão de Dados Diversos no treinamento dos modelos para mitigar o viés algorítmico, é necessário garantir que os dados utilizados para treinar sistemas de IA sejam diversos e representativos da população brasileira. Isso pode ser alcançado através de políticas que incentivem a coleta de dados abrangentes e a colaboração com organizações que representam comunidades marginalizadas.
O Caminho para uma IA Inclusiva no Setor Público Brasileiro

A adoção de IA no setor público brasileiro apresenta uma oportunidade única para transformar a administração pública e os serviços sociais. No entanto, para que essa transformação seja verdadeiramente inclusiva, é essencial abordar os desafios de desigualdade digital, alfabetização digital, viés algorítmico e falta de infraestrutura. Políticas públicas robustas, governança responsável e uma abordagem centrada no cidadão são fundamentais para garantir que todos os brasileiros possam se beneficiar da revolução da IA. Além disso, há ainda a questão da regulamentação da IA, em tramitação no Congresso que tem a difícil tarefa de equilibrar a proteção aos direitos individuais e o estímulo à inovação.

A transformação digital inclusiva não é apenas uma questão tecnológica, mas um compromisso social e ético. Ao enfrentar esses desafios com determinação e criatividade, o Brasil pode não apenas melhorar a eficiência e a eficácia do setor público, mas também promover uma sociedade mais justa e equitativa.

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Sobre o Autor

Fábio Correa Xavier é Diretor do Departamento de Tecnologia da Informação (CIO) do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, onde lidera projetos de inovação, transformação digital e cibersegurança. É também Professor e Coordenador de Graduação e Pós-Graduação em diversas instituições de ensino, além de Colunista do MIT Technology Review, onde escreve sobre temas relacionados à tecnologia e sociedade. Possui formação acadêmica sólida, com Mestrado em Ciência da Computação pela USP, MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC/RJ, Especialização Network Engineering pela JICA-Japão, Pós-graduação em Lei Geral de Proteção de Dados, Direito Público, Gestão Pública e Responsabilidade Fiscal e Projetos de Redes. Possui ainda certificações internacionais em privacidade e proteção de dados, como IAPP CIPM e CDPO/BR, EXIN Privacy and Data Protection e (ISC)² CC.

Com mais de 30 anos de experiência na área de tecnologia e segurança da informação, atuou em empresas de grande porte, do setor público e privado, sendo reconhecido por diversos prêmios e homenagens, como o Prêmio de Inovação Judiciário Exponencial, o Ranking 100 Empresas + Inovadoras no Uso de TI, o Prêmio Empresa +Digital, o Prêmio Security Leaders Case do Ano, entre outros. Além da sua atuação profissional e acadêmica, dedica-se a trabalhos voluntários como Secretário Executivo do Comitê Gestor de Tecnologia, Governança e Segurança da Informação dos Instituto Rui Barbosa – IRB e Membro do Conselho de Administração do Instituto do Câncer Dr. Arnaldo.

É autor dos livros “LGPD no setor público: boas práticas para os municípios brasileiros”, “LGPD no setor público: Boas práticas para a jornada de adequação”, “Roteadores Cisco: guia básico de configuração e operação”, “Tecnologias, Inovação e outros assuntos em análise” e “Cartilha de Governança em Proteção de Dados para Municípios”. Também é autor de capítulos em livros sobre a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais e os Tribunais de Contas Brasileiros.

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