Quando a tecnologia aprende a escutar

Falar sobre saúde mental é uma decisão de todos. E há tecnologia, há ciência e há redes de apoio prontas para ajudar

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Imagem: Shutterstock
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Em 2025, o Brasil registrou 546 mil afastamentos do trabalho por questões de saúde emocional. Um recorde histórico que representa um crescimento de 15% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Previdência Social. Ansiedade e depressão, que em 2021 ocupavam o nono e décimo lugares no ranking de causas de afastamento, respectivamente, chegaram ao quarto e sexto lugar em 2025. O custo para o INSS superou R$ 3,5 bilhões no ano apenas com essas duas doenças – e é fundamental que se diga, são doenças.

O que mais pesa, no entanto, não é o número. É o silêncio que ainda cerca o tema. No último ano, o Brasil atualizou a NR-1/MTE, exigindo o mapeamento de riscos psicossociais nas empresas a partir de 26 de maio deste ano. Mas norma sem cultura não muda comportamento. E mesmo com cultura, responsabilização, monitoramento criterioso e políticas estruturadas não é fácil mudar esta realidade.

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A Alemanha, país que monitora o adoecimento emocional corporativo com rigor, registrou aumento de 47% nos afastamentos por razões psíquicas na última década, segundo o Fehlzeiten-Report 2024 da AOK. Em resposta, o governo daquele país adotou políticas estruturadas de gestão de saúde no ambiente de trabalho. Ainda assim, 2025 fechou com tendência de alta tanto no absenteísmo quanto nos gastos para o tratamento de ansiedade, depressão e burnout.

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Claro, há exemplos positivos. Após anos de crescimento contínuo de afastamentos por doenças psicossociais, motivado também pela pandemia de Covid, o Reino Unido acelerou seu programa de saúde mental implementando atendimento psicológico direto, terapias baseadas em evidência em larga escala e integração total com atenção primária. Na prática, tratando da questão como um serviço básico universal, como a vacinação. Os resultados são promissores. De acordo com o NHS (o sistema de saúde local), mais de 1,2 milhão de pessoas aderiram ao tratamento em 2023 e 49,9% estão recuperadas (sem níveis considerados patológicos de ansiedade ou depressão). Além disso, a taxa de absenteísmo no país caiu pela primeira vez décadas, saindo de 2,3% em 2023 para 2% em 2024.

Embora a reversão ainda seja inicial, o padrão já é claro: à medida que o acesso a tratamento precoce se expande e políticas públicas bem estruturadas passam a atuar antes do afastamento, não depois dele, surgem ganhos mensuráveis tanto em saúde quanto em produtividade.

Se os dados mostram a dimensão do problema, a experiência pessoal (minha e de cada um) revela sua urgência. Foi a partir de uma dor muito pessoal, a perda do meu filho adolescente, que entendi o quanto o sofrimento emocional cresce em uma sociedade que tem muito pouca escuta sobre o tema. E foi essa compreensão que me levou a redesenhar o Algoritmo da Vida: uma iniciativa da agência Africa que utilizou inteligência artificial para identificar padrões de linguagem associados ao sofrimento emocional em redes sociais. Mais de 34 milhões de publicações analisadas. Mais de 1.300 perfis de alto risco mapeados e encaminhados ao Centro de Valorização da Vida (CVV), que em 2025 realizou 2 milhões de atendimentos gratuitos de apoio emocional pelo 188 e pelo cvv.org.br.

Outra bandeira importante no mundo corporativo é a criação de campanhas internas, tais como a Mental Health Matters, que transforma ambientes corporativos em ambientes livres de estigma. É preciso falar sobre saúde mental e emocional também nas empresas. Já foi o tempo em que este tema não era mencionado. O silêncio e o tabu são parte desta construção que gerou adoecimento geral da população.

Enfim, falar sobre saúde mental é uma decisão de todos. E há tecnologia, há ciência e há redes de apoio prontas para ajudar.

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Sobre o Autor

Luciana Coen é jornalista com experiência em cobertura de mercado de TI. Especializada em Comunicação Corporativa, dirige as áreas de Corporate Affairs e Social Responsibility da SAP Brasil. Dirigiu projetos sociais e de colaboração tecnológica na Índia, Moçambique, Amazônia, Paraisópolis e, há 4 anos coordena o Comitê ESG. Sua formação passa por PUC/SP, Syracuse University, FGV, Universidade de Genebra e IBGC. Luciana também é Presidente de Conselho do Instituto Fernand Braudel, Conselheira de Administração da Aberje e Conselheira Consultiva da ONG americana ANDE.

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