Do disquete à IA: um artigo sobre o QA e o fim da curva de Rogers. Na parede da mudança, a curiosidade e o fôlego humano são o motor da Empresa Viva
Comecei minha carreira na tecnologia nos anos 90, na era dos mainframes. Eu era estagiária na área de microinformática, de uma multinacional e, naquela época, “instalar um software” era um exercício físico: carregava caixas de softwares com disquetes, anotava nomes dos usuários à mão e ocupava armários inteiros com versões físicas de programas. A área de microinformática já era vista como um futuro sem volta, uma grande transformação. Não discordo disso, mas a velocidade era outra.
Hoje, olho para esse passado e percebo que o que mudou não foi apenas a velocidade ou o bit, mas o que medimos e como lideramos. Naquela época, o sucesso era medido pela capacidade de operação. Hoje, ele é medido pela capacidade de adaptação ao novo.
Estamos diante de um salto que parece diferente de todos os outros que vivim da internet discada ao e-commerce, da nuvem à internet das coisas (IoT). O que nos tira o sono em 2026 não é a falta de tecnologia, mas a velocidade da sua evolução em contraste com a nossa linearidade biológica.
O abismo entre os anos 90 e 2026 é brutal, mas a maior diferença não está no hardware, mas na carga que impomos ao processador mais complexo da empresa: o cérebro humano.
| Dimensão | Era do disquete (Anos 90) | Era da IA (2026) | O que mudou na liderança |
| Capacidade | 1.44 MB (um disquete) | 1 TB (mínimo p/ smartphone) | De gerir escassez para gerir curadoria.
~700.000x mais espaço |
| Velocidade | 56 Kbps (modem discado) | 1 Gbps (5G/Fibra) | De gerir prazos para gerir ritmo de atenção.
18 mil vezes mais rápido |
| Processamento | ~$1.000 por 1 GFLOPS | <$0,01 por 1 GFLOPS | 100.000x mais barato |
| Indicador | Eficiência pperacional | AQ (quociente de adaptabilidade) | Do “saber fazer” para o “saber aprender”. |
Enquanto a capacidade das máquinas cresceu exponencialmente, nossa biologia permanece linear. O líder moderno deixou de ser o guardião da estabilidade dos sistemas para se tornar o curador do fôlego e do impacto humano. Seu papel não é apenas garantir que a tecnologia funcione, mas assegurar que o time navegue por ela sem perder de vista o valor real que entrega à sociedade.
Se o QI resolve problemas conhecidos, o QA (Quociente de Adaptabilidade) é o que nos permite prosperar no desconhecido. Ao longo da minha carreira, vi muitos projetos seguirem a clássica curva de adoção de produtos ou tecnologias de Everett M.Rogers mas hoje percebo que o “shape” em forma de sino mudou radicalmente.
Se antes tínhamos o luxo de permitir que os retardatários (laggards) esperassem anos para aderir a uma inovação, hoje essa curva é uma parede vertical. Quem espera para ser o último a adotar, não está sendo cauteloso; está assinando sua própria obsolescência. Para liderar nessa nova realidade, foco em três pilares:
Em minha trajetória pelos setores Agro e Pharma, também vivi o momento em que a tecnologia deixou de ser “suporte” para ser “validadora da ciência”. No campo, sistemas protegiam investimentos em biotecnologia e estimulava o sistema regulatório.
Hoje, a tecnologia faz o mesmo, mas o guardião mudou. A IA entrega o “o quê” de forma instantânea, mas apenas o humano pode entregar o “porquê”. Liderar na era da IA é, paradoxalmente, um exercício de humanidade: é saber onde a máquina deve parar para que o discernimento, a ética e a empatia humana assumam o volante.
O disquete me ensinou que, quanto mais limitada era a tecnologia, mais estratégica precisava ser a escolha humana. Naquela época, o espaço escasso nos obrigava a decidir o que era vital. Hoje, na abundância da IA, o risco é processarmos tudo no automático, operando por algoritmos e perdendo a alma do negócio.
Não estamos mais apenas implementando sistemas; estamos redesenhando o que significa ser uma organização. A “empresa viva” é aquela onde a tecnologia serve para ampliar o potencial do homem para servir à sociedade, respeitando o seu tempo de adaptação.
Do disquete de 1.44MB ao processamento exponencial, o que garante o sucesso não é a máquina que você usa, mas a humanidade que você preserva. Liderar hoje é ter a coragem de ser o curador do contexto e o guardião do fôlego do time; é saber que a tecnologia é o motor, mas o coração humano continua sendo a única bússola capaz de apontar para o valor real.
Se tem menos de 30 anos e só conhece o ícone de “salvar” do Word, aqui vai um choque de realidade: o disquete era um objeto físico, quadrado e estranhamente barulhento. Ele armazenava incríveis 1.44 MB. Para ter uma ideia, uma “selfie” em alta resolução hoje precisaria de uns 4 disquetes para ser guardada. Era a nossa “nuvem de bolso”, só que sem o Wi-Fi, com muita reza para não dar “erro de leitura” e uma paciência que a IA ainda não conseguiu devolver.
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