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Tempos atrás fui surpreendido em uma edição passada do SAP Forum. A tradicional empresa, é responsável pela inteligência de negócios de um vasto número de imensas corporações. Também médias empresas que podem usar sua solução na forma da solução “Business One”. Mas a surpresa se deu porque conheci uma vertical diferente no seu portfólio, a de gestão de esportes e equipes. Contei essa história no texto “SAP, da manufatura à bola!” e achei que não teria mais surpresas deste quilate. Estava enganado.
Porque o iatismo é difícil de ser compreendido? Em primeiro lugar a ação acontece longe das pessoas e por isso não se consegue ver nada. Para se ter algum tipo de entendimento, o melhor é que se acompanhe visto de cima. Ou dentro de um helicóptero ou por meio de um satélite. No caso do satélite acaba até sendo mais barato porque nós colocamos rastreadores com GPSs nos barcos. Assim conseguimos ter a “visão de cima”.
Se as regatas fossem todas apenas na direção do vento, a competição seria entediante, pois quem largasse na frente sempre venceria a competição. Por isso sempre se larga uma regata contra o vento e isso quer dizer que nenhum barco navegará em linha reta e sim em alguma trajetória angular. Isso implica que cada velejador terá que tomar a decisão se vai por um lado, por outro lado e em qual ângulo. Este é essencialmente um dos grandes desafios deste esporte.
Qualquer um que entenda isso consegue perceber a analogia que isso tem com o mundo dos negócios. Porque vou por um caminhou ou por outro caminho. Se imaginar a baía da Guanabara, se o vento está soprando sobre o Pão de Açúcar, isso significa que terá mais vento do lado esquerdo do que do lado direto da baía. Há também que considerar o fluxo da água, com correntes que deixariam um barco mais vagaroso do que pelo outro lado. O velejador tem sempre que considerar e fazer um balanço de todas as informações que ele tem a todo momento e em tempo real para tomar decisões específicas e sua estratégia. E ele tem que fazer isso com a velocidade de um corredor de 100 metros!
Esta introdução toda foi para mostrar para vocês porque considero velejar um esporte estratégico. Nós treinamos tendo o acompanhamento por cima, por meio de rastreamento por GPS. Baseado no posicionamento dos barcos, dados sobre o vento, como o vento está soprando ao longo do percurso da regata, sabemos a cada momento quem está em primeiro, segundo, terceiro, etc. algo que toda pessoa que assiste esta competição gostaria de ver, quem está ganhando, quem está perdendo… Temos muito mais informações, quão rápido está cada barco, que distância percorreram… a cada momento, ir para a esquerda ou direita, são decisões que permitirão aproveitar uma oportunidade para pegar um atalho. Com tudo isso agora podemos pegar todas estas informações e explicar as táticas e estratégias dos diferentes velejadores. Os velejadores se tornam mestres em tomar decisões e elaborar estratégias, tomando decisões muito rapidamente a todo minuto.
A ferramenta que nós utilizamos é o
SAP Sailing Analytics , uma solução SAP Hana Cloud que está disponível de forma pública por meio do site (cujo link está citado no começo deste parágrafo). É utilizado por inúmeros velejadores do mundo todo e recebe milhões de visitas, também usado por comentaristas para explicar o que está acontecendo em uma competição. O efeito disso e muito dramático. Imagine velejadores para os espectadores, é como se os competidores estivessem envoltos na escuridão e conseguimos acender a luz que permite ver tudo! Esta tecnologia é usada em eventos/competições e por nossa equipe para acelerar a aprendizagem.Há mais soluções para comentar, mas gostaria de abrir para perguntas.
Flavio Xandó: esta solução da SAP é utilizada principalmente em treinamentos ou ela também pode ser utilizada em uma competição?Marcus Baur: não pode ser usada pelos velejadores durante a competição, pois a regra determina que não pode haver nenhuma ajuda externa. O técnico não pode se comunicar com o(s) velejador(es) que estão no barco, sem contato por rádio de qualquer tipo. Sem auxílio eletrônico a bordo, somente a bússola magnética. Mas mesmo assim, após a regata, nós fazemos uma reunião para discussão (debriefing) na qual conversamos sobre fatos objetivos e dados obtidos capturados nas regatas. No passado havia “Gurus” que explicavam o que teria acontecido. E agora temos dados e fatos. Isso muda muito a forma de ver as regatas.
Marcus Baur: exatamente isto!
Jornalistas: os barcos são basicamente iguais em uma competição?
Marcus Baur: são essencialmente iguais, mas com pequenas diferenças, uns mais que outros (risada). Na competição há duas classes de barcos, uma chamada de “Design Class” e a outra “Open Class”. A verdade é que tem se tornado parecidos por causa da evolução, mas existem algumas pequenas diferenças de projeto e design. O que um velejador de alto nível acaba fazendo é comprar 3 barcos e depois de muito experimentá-los, escolhe aquele que ele sentiu ser o melhor, muitas vezes por causa de detalhes mínimos!
Flavio Xandó: os detalhes fazem a grande diferença…
Marcus Baur: velejar é um esporte no qual a soma inúmeros detalhes vai fazer a grande diferença no final, se vai ganhar ou perder. Não existe a “bala de prata”, que o faça vencer. Isso é outra similaridade com o mundo dos negócios, gerenciar a complexidade que os fazem ser vencedores. Grandes velejadores são muito bons para lidar com a complexidade. A tecnologia é uma das partes deste mosaico que está cada vez mais importante.
Flavio Xandó: a equipe alemã, bem como outras equipes do mundo, já está estudando a baía da Guanabara para ter mais informações sobre o palco das regatas da olímpiada Rio 2016??
Marcus Baur: Sim, sim, sim (rindo)! Com certeza!! Obrigado pela pergunta!! Isso me permite falar de outra solução que estamos usando. O SAP Sailing Analytics que falei antes tem recursos para efetuar certos níveis de predição que ainda não são muito usados por treinadores, mas quando você tem dispositivos capaz de medir ventos em determinado ponto, temos como fazer um primeiro nível de estimativa se o barco deve ir para a direita ou esquerda. Ainda é uma estimativa grosseira, mas na baía da Guanabara nós também medimos as correntes marítimas e construímos um modelo matemático que nos ajuda a entender os movimentos da água associados à maré, que hora flui saindo da baía ou entrando, de uma forma razoavelmente previsível. Muito mais previsível do que os ventos porque a água é bem mais pesada do que o ar o que torna o estudo das correntes bem mais preciso. Nós distribuímos várias boias com rastreadores GPSs na baía e gravamos a profundidade, distâncias percorridas e velocidades.
Marcus Baur: com certeza! A curva de aprendizado, que começou há mais de 4 anos, é muito mais íngreme, a colaboração da última hora é menor, mas sempre agrega dados importantes.
Flavio Xandó: desde quando esta tecnologia está sendo utilizada, toda esta assistência para os velejadores?Marcus Baur: começamos o desenvolvimento do SAP Sailing Analytics há cinco anos. Depois de 7 meses de desenvolvimento já tínhamos uma primeira versão. Desde então vem evoluindo de forma constante.
Flavio Xandó: eu perguntei isso porque eu tive um tio, já falecido, que foi da equipe olímpica brasileira de vela, participou das olimpíadas de 1968 e 1972. Faz muito tempo!! Eu fico imaginando como era velejar há 40 anos e como é agora!!!!
Marcus Baur: veja que coisa interessante. Velejar há 10 anos, era essencialmente a mesma coisa que 45 anos atrás, em 1972!! Os barcos tinham alguma evolução, mas era a mesma coisa. E esta é uma comparação muito interessante. O futebol começou há mais de 100 anos, estádios começaram a ser construídos, surgiram as comunidades de fãs, etc. Mas somente começou a haver grupos de pessoas que acompanham regatas, os torcedores da modalidade vela, não mais que nos últimos 4 anos. Nós estamos bem no começo da popularização deste esporte, nó nível dos outros esportes de massa.
Flavio Xandó: o Brasil teve ao longo das várias olimpíadas recentes, bons resultados, boas colocações e até medalhas.
Marcus Baur: sim, com certeza!! Robert Sheidt, a família Grael (Lars e Torben Grael) são ótimos velejadores!! Bem melhores que os velejadores alemães!! Mas estamos nos esforçando para chegar lá!!
Flavio Xandó: meu tio perdeu a medalha olímpica na última regata, mas mesmo assim ficou com o 4º lugar na classificação geral. Poderia ter sido 3º ou 2º lugar (bronze ou prata). Por coincidência ele era de origem alemã, seu nome era Joerg Bruder.
Esta interessante história da olimpíada pode ser vista com mais detalhes aqui em uma ótima entrevista com o seu antigo parceiro.
Mas não só isso, foi 3 vezes consecutivas campeão mundial de Finn (neste link ele aparece no Hall da Fama da classe Finn), 70, 71 e 72 (estava indo em 73 competir pelo 4º título na França quando faleceu), 2 vezes campeão nos Jogos Pan-americanos de Finn… só para citar algumas de suas conquistas. O cartel completo e muito mais informações sobre os títulos, podem ser vistos na página “Bruder, um texto inédito sob ótica de Jan Willem Aten, seu amigo e proeiro”.
Eu era ainda pequeno, mas me lembro da sua determinação e imensa dedicação. Ele mesmo quem fabricava os seus mastros, de madeira ou alumínio e que eram especialmente projetados para serem leves e terem a flexibilidade exata para atingir os melhores resultados. Era altíssima tecnologia à época!!
Seu barco Finn de nome “Neguinho” e prefixo BL3 era conhecido e bastante temido. Falava-se que o Bruder era capaz de achar vento que ninguém mais achava e se quisessem se dar bem na regata, bastava segui-lo (mas chegando atrás)! Décadas depois, amigos meus criaram uma escola de vela em São Paulo e Ilhabela e foram pedir a autorização para minha tia, irmã de meu pai, para usar o nome BL3 em sua escola, como uma homenagem. E por fim apresento a página no Facebook que minha prima (sua filha) fez para ele “Jörg Bruder – Joerg Bruder”
Retornando à entrevista…
Jornalistas: você já têm como aferir se com todos estes recursos se os velejadores de sua equipe estão de fato melhorando seu desempenho com o uso de todos estes, dados, análises e tecnologias?
Marcus Baur: nós temos acompanhando o desempenho individualmente ano após ano e houve melhorias de forma dramática. Mas vejam, a equipe alemã vem de um histórico de pontuações bem baixas em competições e claro, é algo que consiste de múltiplos fatores. Existem outros aspectos que também ajudam. Também somos patrocinados pela Audi e temos a SAP como sponsor. Estas parcerias impulsionaram muito nossa equipe. E eu não estaria em nada errado ao dizer que por meio do SAP Sailing Analytics nós nos tornamos melhores de verdade. Não é o único fator, mas um dos grandes fatores para esta evolução.
Jornalistas: é possível identificar características individuais dos velejadores por meio desta tecnologia?
Marcus Baur: sim, por exemplo, podemos nos aprofundar na análise dos dados e assim facilmente ver que alguns velejadores têm mais facilidade com ventos fortes, alguns são melhores com ventos fracos, alguns assumem maiores riscos, outros são mais cautelosos e conservadores, alguns fazem muitas manobras, outros fazem menos manobras… Assim nós temos muitas informações que não havia antes tornando bem objetivo o que antes era apenas palpite ou algum tipo de adivinhação ou estimativa.
Jornalistas: mesmo em barcos com mais de um tripulante?
Marcus Baur: sim, pois durante os treinamentos nós podemos carregar nos barcos tanto smartphones como câmeras, e podemos até acompanhar seus diálogos! Confesso que participamos à distância até de situações bem divertidas!!
Mas segundo as próprias palavras do Marcus, toda a nossa conversa no SAP Forum, é evidente que a tecnologia usada como forma de monitoração, estudo, análise, pesquisa, etc. permite que no momento do treino possa haver uma fortíssima integração da equipe com os velejadores, propiciando oportunidades imensas de aprendizagem!! Nas regatas e competições oficiais a comunicação é proibida. Aliás, acho isso 100% certo uma vez que velejar é uma atividade milenar do ser humano e ainda precisa contar com grande sensibilidade do velejador. Mas mesmo assim todo o histórico de dados pode ser analisado posteriormente e achar as explicações para erros e acertos dos velejadores e assim mais uma oportunidade para aprimoramento.
Meu saudoso tio Bruder jamais poderia sequer imaginar em seu tempo que um mísero quinhão desta tecnologia pudesse ser possível. Será que aprovaria? Penso que ele que era um privilegiado, caçador dos ventos, tinha a sensibilidade extremamente apurada, poderia ser alçado a um nível ainda mais extraordinário de desempenho se auxiliado por todos estes recursos.
Confesso minha grande surpresa com tudo isso, vindo por meio da SAP, tradicional e exímia fornecedora de soluções empresariais, mas que mostra que seu conhecimento está a serviço também de outras áreas de conhecimento humano!! Sinceramente só espero que não nos leve a uma situação análoga ao nefasto 7×1 da copa do mundo dessa vez nas raias das regatas! Velejadores brasileiros, estejam preparados, a equipe alemã vem forte!!!