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Entre a velocidade e a governança: o Reino Unido e os novos rumos da inteligência artificial

Imagem: Shutterstock

*Por Vinicius Boemeke

No centro da London Tech Week – um dos principais eventos de tecnologia do mundo no qual, entre os últimos dias 08 e 12 de junho, lideranças de todo o mundo debateram sobre os caminhos da inovação e o que isso significa para empresas, sociedades e indivíduos – uma imagem simbólica chamou a atenção logo na abertura do evento, com o Primeiro-Ministro do Reino Unido, Keir Starmer, debatendo com o Jensen Huang, cofundador, CEO e uma das mentes por trás da NVIDIA.

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A cena traduz o anseio do Reino Unido em ser protagonista global na corrida da Inteligência Artificial que move o mundo – e os britânicos parecem estar cientes de que isso só é possível com uma articulação clara entre Governo, empresas, ecossistemas de inovação, pesquisa e a indústria.

A conversa entre Starmer e Huang, aliás, foi além do protocolar: discutiu-se infraestrutura, a necessidade de fomento na educação para a formação de mão de obra qualificada dentro de um futuro de curto e médio prazo, a capacidade de processamento de dados em território britânico – tudo isso com um olhar claro para a governança e com anúncios de investimentos, por exemplo a CoreWeave que anunciou o investimento de 1 bilhão de libras em dois datacenters no país, e da criação de grandes data centers já na London Week.

Nesse ponto, um comentário de Huang resumiu bem o paradoxo britânico, onde disse que UK é “O maior ecossistema de IA sem infraestrutura própria”.

Leia também: Transformação digital começa quando o cliente vira o código-fonte

Como equilibrar velocidade, infraestrutura e ESG?

E as questões que surgem, dentro desse contexto – e que valem também para o Brasil e outros países emergentes – é: como fazer esse ambiente avançar com segurança e diante da necessidade do equilíbrio com políticas de sustentabilidade energética? De que modo fortalecer parcerias com outros países e, ao mesmo tempo, incentivar a geração de empregos local? Como conciliar a escalada da IA Generativa com privacidade, leis de proteção de dados e controles eficientes e transparentes?
Tais reflexões estiveram entre os nortes do evento a partir de uma perspectiva crítica, que abriu espaço para que empreendedores trouxessem sua visão sobre o que pode ser melhorado nas estratégias de expansão da IA no Reino Unidos.

Crescer sem quebrar

Em outras palavras: o evento trouxe à tona o desafio de como crescer rápido sem perder o controle. Como promover inovação em larga escala sem comprometer princípios éticos de segurança da informação. É aqui que o Reino Unido parece querer imprimir sua marca. Não se trata de frear o avanço, mas de moldar um modelo que combine um olhar ambicioso para o futuro, mas sem passar por cima de políticas regulatórias, sustentabilidade e formação de mão de obra humana – só em formação o governo anunciou 187 milhões de libras para desenvolvimento de habilidade de tecnologia e AI para salas de aulas e comunidades.

As falas dos principais líderes de tecnologia do mundo e de algumas principais lideranças políticas britânicas revelaram um ecossistema que já está apostando que é possível ser ágil, sem abrir mão de uma governança real e estratégica, com casos reais de sucesso como a NHS que obteve um ROI de 800% no uso de AI, gerando uma economia 3,5 horas por semana e 4,5 semanas por ano para suas equipes.

Naturalmente, estamos falando de terreno sem respostas simples. Muitos marcos regulatórios, por exemplo, não acompanham o passo da Inteligência Artificial. No entanto, quem olha com atenção os dois lados dessa moeda (definição de regras claras e incentivo aos ecossistemas de inovação), pode, hoje, influenciar diretamente os rumos da tecnologia global por décadas.

Essa preocupação com o equilíbrio, aliás, ilustrou uma das palestras mais interessantes do evento com Christian Horner, CEO da equipe de Fórmula 1, Red Bull Racing. O executivo fez um paralelo entre a dinâmica das corridas e o universo da IA: ambas precisam de muita velocidade e ambas trabalham em ambientes de baixa margem de falha E para a F1 velocidade fica bem evidente na fala de Horner: “Long-term para nós é duas semanas”.

Ou seja, é um novo olhar que muda a lógica do “move fast, break things” (mova-se rápido e quebre as coisas, em tradução literal) que um dia fora usado internamente no antigo Facebook (Meta), mas que hoje não é defendido por Zuckerberg e por uma parcela importante das lideranças de tecnologia.
Fato é que a F1 é um exemplo de que é possível se mover rápido com segurança, com treino, simulação, protocolos e estratégia. E mesmo parecendo tão distante da realidade corporativa, a categoria explora de muitas das tecnologias usadas nas indústrias 4.0, como digital twins (ou gêmeos digitais.

Na Red Bull Racing, pilotos passam horas em simuladores antes de entrar no cockpit. As decisões da equipe são testadas em túnel de vento. Tudo é validado antes de entrar na pista. A noite, o time de estrategistas roda simulações com base nos briefings estratégicos – “Serão 25 milhões de simulações de tempo, de modo que eles chegarão às probabilidades de como a corrida pode desenrolar” diz Horner. A alta performance não nasce da pressa, mas do preparo.. A IA deveria seguir o mesmo caminho: agir com rapidez, sim — mas com responsabilidade.

Brasil: entre diferenciais e desafios

Olhando para o Brasil, muitas lições podem ser colhidas. No copo meio cheio do debate, temos como diferencial competitivo importante o fato de já contarmos com uma base energética limpa, grande capacidade instalada em data centers, mercado interno robusto e um histórico de absorção rápida de novas tecnologias. Segundo dados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), 88% da energia gerada no Brasil é renovável, enquanto o Reino Unido possui apenas 42% de sua matriz energética voltada à energia limpa, segundo dados do IPEA.

Mas ainda falta algo fundamental e que passa, justamente, por uma maior articulação entre Governo e empresas, pelo fomento na formação de novos talentos, educação digital e por investimentos diretos em inovação.

Há bons exemplos nesse sentido surgindo, como o caso de Eldorado do Sul que deve contar com a maior infraestrutura digital da América Latina a partir da construção de uma grande rede de datas centers.

Mas é preciso além: podemos e devemos avançar mais na corrida tecnológica – hoje o Brasil é apenas o 50º país mais inovador do mundo, segundo o Índice Global de Inovação (IGI) 2024. E a London Tech Week mostrou que não só é possível, como é fundamental para o futuro, mover-se rápido, mas com governança.

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Pamela Sousa
Tags: data centerIALondon Week
12 meses ago

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