Paradoxo do CIO: a destruição criativa

Para manter o dia a dia e enfrentar os desafios das novas tecnologias é preciso sacrificar modelos antigos para que novos possam se estabelecer

Publicado:

Leitura 9 minutos

Paradoxo do CIO: a destruição criativa

A cada 25
anos, aproximadamente, a indústria de TI passa por um período de destruição criativa,
com um novo modelo substituindo o paradigma anterior. O termo destruição
criativa é muito interessante e associado ao economista Joseph Schumpeter. Pode
e deve ser visto em mais detalhes no Wikipedia em http://en.wikipedia.org/wiki/Creative_destruction .

Se voltarmos
ao tempo, nas décadas de 60 e 70  do
século passado o predomínio era incontestavelmente da computação centralizada. Era
o reino dos mainframes, quando os usuários da computação eram limitados apenas
aos funcionários das empresas que podiam manter estas então caríssimas máquinas
em seus chamados CPDs (Centro de Processamento de Dados).

As melhores notícias de tecnologia B2B
Acompanhe todas as novidades diretamente na sua caixa de entrada

Existiam
algumas dezenas de milhares de máquinas e os usuários chegavam a unidade dos
milhões. Os programadores eram escassos e o mercado de trabalho restrito apenas
profissionais especializados. Neste período o predomínio era da IBM e embora
houvessem outras empresas como Honeywell, NCR, Unisys e algumas na Europa,
todas, à exceção da IBM,  desapareceram
ou deixaram de fabricar estas máquinas. O objetivo dos sistemas era acelerar as
principais funções transacionais e o valor criado foi de automação dos processos
até então feitos manualmente.

Posteriormente
chegaram seus irmãos menores, os minicomputadores, que embora permitissem que
empresas menores passassem a ter condições de usar computadores, mantinham o mesmo
modelo computacional centralizado, ou sejam usuários conectados diretamente ao
computador via terminais. Nesta época nasceram e despareceram muitas empresas
como HP, Digital, Prime e Data General. De todas, apenas a HP continua operando
hoje.

Por volta
dos anos 90 surgiu um novo modelo, inicialmente gerando muitos questionamentos
quanto à segurança , disponibilidade, etc. Foi o modelo cliente-servidor com
servidores interconectados com desktops, em redes locais (LAN – Local Area
Networks). Com a disseminação da web, 25 anos atrás, ampliou-se o alcance da LAN
para a própria Internet e a computação disseminou-se muito mais rapidamente.
Agora pequenas  empresas podiam ter sua
capacidade computacional. Os usuários cresceram para a casa das centenas de
milhões. Passamos a ter com os PCs computação individual e o emponderamento dos
funcionários, que poderiam inclusive trabalhar em casa. Reengenheirou-se os
processos das corporações. Novas empresas surgiram ou se expandiram como
Oracle, Microsoft, SAP, Novell, Intel e diversas empresas de consultoria.

Estamos agora
diante de uma nova mudança, uma outra destruição criativa. Estamos vivenciando
a chegada de diversas ondas tecnológicas que se entrechocam criando uma mudança
de paradigma: falamos do fenômeno que algumas empresas chamam de CAMS, SMAC, Nexus
of Forces ou mesmo terceira plataforma. Mas de qualquer modo a chegada da
computação em nuvem, Big data/analytics, mobile e o social business trazem os
desafios das mudanças de paradigma  para
a TI como um todo, tanto para os produtores de serviços e produtos de
tecnologia quando para seus clientes. E escala também mudou. Agora são bilhões
de usuários (basta ter um celular ou smartphone) e as aplicações subiram para a
casa dos milhões (basta ver o numero de APPs que existem nas lojas de APPs).

De maneira geral
um novo paradigma começa meio desapercebido, aparece inicialmente apenas como
um  traço nas pesquisas de utilização,
quando comparado ao modelo vigente, mas sua curva de adoção aponta rapidamente
para cima. Recomendo a leitura do livro “The Structure of Scientific
Revolutions: 50th Anniversary Edition”, de Thomas Kuhn. Descreve como surge um
novo paradigma e ajuda a entender as reações e desconfianças iniciais que
geralmente acompanham as mudanças. Vale a pena ler. (http://www.amazon.com/The-Structure-Scientific-Revolutions-Anniversary/dp/0226458121 ).

Embora as
tecnologias dos paradigmas anteriores não desaparecem, mas evoluem, perdem
progessivamente sua importância e foco de atenção.. Um exemplo é este artigo de
2012, mas bastante atual, do The Economist que mostra como os mainframes ainda
são e serão importantes para a IBM:  http://www.economist.com/blogs/schumpeter/2012/09/ibms-mainframes .

Mas sem
sombra de dúvidas muitas empresas que se consolidaram na última ondas não
deverão sobreviver. Os números de várias pesquisas mostram que os investimentos
das empresas usuárias de TI estão rapidamente 
se direcionando ao novo paradigma. Estes números mostram que embora os
investimentos ainda sejam grandes no modelo atual, a curva de adoção está
mudando de direção de forma muito rápida. Por exemplo, um estudo do IDC mostra
que em 2020 cerca de 98% do crescimento da industria de TI será no novo
paradigma e não no atual.

Todos os
números apontam crescimento acelerado nas ondas tecnológicas que compõem o novo
modelo. Comprova-se esta tendência quando vemos que a imensa maioria das
empresas de tecnologia está disputando uma árdua corrida para se posicionarem
como um dos players atuantes em cloud computing, mobilidade, Big data e social
business. Mobilidade, por exemplo, está se tornando  o “ primary design point”  para acesso à aplicações e o fenômeno da
consumerização está subvertendo a tradicional ordem das coisas, afetando
de  forma irreversível o poder do setor
de TI de determinar e controlar a entrada das tecnologias nas empresas. Big
Data reflete o fato de gerarmos zetabytes de dados por ano, dobrando este
volume a cada dois anos.

Estas ondas
são um verdadeiro desafio para os CIOs que precisam ao mesmo tempo manter o
avião voando, simplificando e automatizando suas operações (reduzir custo é
business as usual) e ao mesmo tempo investir na adoção e integração de todas
estas tecnologias e conceitos de forma acelerada em suas empresas. O risco de não
serem ágeis o suficiente é serem colocados em posição periférica nas
estratégias de negócio. É o paradoxo do CIO…

A mudança de
paradigmas no curto prazo gera muita desconfiança e muito provavelmente não
conseguimos visualizar seus efeitos no médio e longo prazo.  Entretanto já vemos claros sinais que estas
mudanças não afetam apenas os setores de TI, mas tem o potencial de transformar
e mesmo criar novos modelos de negócio, impensáveis há alguns anos atrás. Na
época do inicio da web e dos primeiros sites de comércio eletrônico alguém
conseguiria imaginar um Google ou um Facebook? Quando os celulares começaram a se
disseminar alguém imaginaria o surgimento do iPhone e seu efeito em toda
indústria de celulares (e da indústria de software), além de mudar o dia a dia
da sociedade?

Voltando ao paradoxo
dos CIOs.  O novo modelo vai afetar de
forma radical as funções de back-end como infraestrutura tecnológica que em
grande parte vai ser colocada em nuvens hibridas ou publicas, mas o seu efeito
vai se sentir principalmente na camada de front-end, onde os APPs em smartphones,
tablets e “ wearable devices” , usando conceitos de Big data e social, vão
criar um novo modelo de relacionamento e engajamento com os clientes. Os
executivos de negócio e os usuários, mais íntimos da tecnologia, e incentivados
pela facilidade e o uso intuitivo das apps vão cada vez mais assumir papel de
predominância no uso e disseminação das tecnologias pelas empresas.

Aqui e ali
já observamos estes sinais. Em um evento com CIOs um deles reclamou que os
usuários tem mais tempo que ele para estudar e propor novas tecnologias. Sua
preocupação foi claramente externada  pelo
risco de ficar apenas como responsável pelo legado, com as inovações não sendo
iniciadas pelo seu setor. Outro me disse que entende que a fase do controle
rígido acabou pois os usuários vão buscar APPs e soluções diretamente nas
nuvens, sem consultar o setor de TI.

O CIO da
nova geração tecnológica terá papel diferente dos CIOs do paradigma atual. O
legado vai continuar existindo, pois embora tenda a ser commodity, é importante.
Mas uma nova camada de aplicações, desenvolvidas em novo conceito (vale a pena
pensar no conceito de entrega contínua, com DevOps) vai se tornar a parte mais
importante da TI nas empresas. Será o diferenciador competitivo. O legado tem
que se transformar de centro de atenção do CIO em um backbone  resiliente e seguro que será a base que vai
permitir a rápida criação de novas soluções. O CIO terá que conciliar ritmos e
modelos de evolução diferentes. O legado muda mais lentamente que as apps. Estas
interagem diretamente com os usuários e seu foco é experimentação, criatividade
e inovação. O vetor resultante é que novos modelos de governança devem ser
adotados, modelos que conciliem estes diferentes objetivos.

É um
processo irreversível. Não existe possibilidade de lutar contra. No inicio da
web havia muita desconfiança do potencial do e-commerce e hoje este é um
assunto já vencido. O mesmo com o Internet banking, meio mais comum de acesso
aos bancos hoje. Vemos a mesma história se repetir com Big Data, Cloud, etc.
Portanto os CIOs devem se reposicionar e repensar suas próprias equipes. O
mesmo vai acontecer com os fornecedores de produtos e serviços de tecnologia.
Os que não conseguirem se adaptar e evoluir em tempo rápido o bastante vão se
tornar lembranças na história da computação ao lado de tantos outros nomes que
foram famosos.

 

(*) Cezar Taurion é consultor sênior, sempre envolvido em discutir e prever os impactos de TI nos negócios, com experiência em grandes corporações como IBM, PwC e Shell. Autor de seis livros, sobre diversos temas como Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data. Atuou em projetos de grande porte e transformadores de negócios e constantemente palestra em eventos de renome.

Notícias relacionadas

Ver mais Seta para direita