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O pragmatismo que leva à miopia

Estamos em uma era de extremismos. Me recordo de uma frase do genial Itamar Assumpção que dizia: “Entre o sim e o não, há um vão”. Nunca me pareceu tão necessária essa reflexão, seja para voltarmos à racionalidade no que diz respeito ao momento político do País, seja para vislumbrarmos como conduzir nossas organizações em direção a um futuro que hoje parece tão incerto.

Ao momento político não tenho nenhuma contribuição, tudo já foi dito, minha opinião não cabe, e sobretudo não é disso que trata o presente artigo. Já a respeito do mundo corporativo, me ocorrem algumas reflexões:

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Em tempos de incerteza quanto ao futuro da macroeconomia, e de um presente no qual  empresas auferem perdas significativas de receita, margem, mercado, enfim, onde tudo parece ir de mal a pior, o recrudescimento de uma postura conservadora por parte dos gestores é compreensível. Tudo parece girar em torno da receita, até porque, sem ela, não há perspectiva de sobrevivência no médio prazo. 

Ignora-se o comportamento senoidal da economia e a consequente recomposição do caixa das organizações, dois ou três anos após o “fundo do poço” dos balanços. Ocorre que o ciclo de investimentos em tecnologia e inovação demanda constância, sem a qual não só deixam de ser incorporadas novas tecnologias, como todos os investimentos anteriores são perdidos. Dessa diferença de comportamento entre as ondas da performance financeira e do investimento nasce um grande desafio: manter a linha de investimentos quando a onda das finanças estiver em baixa. 

Mais do que uma questão de sensibilidade às circunstâncias, me parece uma questão de mentalidade: é claro que, entre realizar a folha de pagamento ou honrar os compromissos com os fornecedores e manter os investimentos dos projetos de inovação tecnológica, eu também optaria pelos primeiros; mas aqui entre nós, quantas empresas estão de fato diante desse trade-off? 

É mesmo verdade que só há disponibilidade de recursos para uma das alternativas? Ou será que o pânico, a falta de visão estratégica de longo prazo, ou até mesmo a (pouca) importância que se atribui à inovação é que assumem o comando das emoções e das decisões nesse momento?

Nas últimas três décadas, o que tenho observado na prática é que a crise é o normal. Foram raros os períodos, de 1986 até os dias atuais, nos quais o País não estava em uma situação de risco financeiro. As ondas de crescimento e de estabilidade econômica foram a exceção, e nem por isso as empresas deixaram de crescer e de prosperar, o que me leva a crer que é de fato uma questão mais de mentalidade do que de cenário a atitude de perseverar na manutenção dos investimentos. 

Há cases notórios no mercado de empresas que, ao chegarem ao topo, não se reinventaram e pereceram alguns anos depois, e não lhes faltava dinheiro para isso, o que faltou foi mesmo a visão de que tudo pode mudar, muito rápida e intensamente, e que para sobreviver a essas mudanças é necessário pensar de forma nova seus produtos, seu posicionamento no mercado etc. Não tenho notícia de que alguém conseguiu fazer isso sem o vetor da inovação tecnológica. 

É dessas reflexões que surge o receio do pragmatismo, qualquer que seja: desde o corte irrestrito dos investimentos, até o desperdício de recursos com os investimentos errados. Bem, mas como saber quais são os investimentos certos? Não tenho essa resposta de forma tão clara, quisera tê-la, mas posso arriscar alguns palpites: a assimilação de más escolhas do passado (gestão do conhecimento), a compreensão do mercado no qual está inserido (inteligência empresarial), a percepção das necessidades e tendências deste mercado para o futuro (inteligência competitiva), e a gestão adequada dos próprios recursos para fazer frente aos momentos de crise (gestão empresarial). 

Dentro de todos esses parênteses, está a inovação tecnológica. O pragmatismo que leva à miopia, que leva à morte das organizações, está do outro lado, soprando aos ouvidos do gestor que isso tudo pode ficar para depois, “quando as coisas melhorarem”.

Klaiton Simão, CIO da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo

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Redação
Tags: gest˜inovaçãoinvestimento em TI
10 anos ago

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