Falar que no próximo ano a tendência é Cloud, Analytics e Mobilidade é voltar no tempo. Vamos olhar mais à frente...
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Fim de ano e começamos a ler artigos e mais artigos sobre
tendências para o próximo ano. Como está claro que a transformação dos negócios
provocada pela transformação digital é inevitável e que, de alguma forma, todas
as empresas serão empresas de tecnologia (com elas, no mínimo, embarcadas em
seus produtos e serviços) vamos sair do lugar comum. Falar que no próximo ano a
tendência é Cloud, Analytics e Mobilidade é voltar no tempo. Quem ainda não
começou a jornada de usar intensamente cloud, interagir com clientes via
mobilidade, e usar dados e não apenas a intuição na sua rotina diária de
processos e decisões, já perdeu o trem. Vamos olhar mais à frente. Abordar as
tecnologias exponenciais, aquelas que tem o potencial de se disseminarem de forma
muito rápida e com impacto significativo nas empresas, modelos de negócios e na
sociedade como um todo.
Muitas vezes essas tecnologias exponenciais passam desapercebidas, pois uma tecnologia que
evolui exponencialmente, em seu início, confunde-se com uma evolução linear.
Mesmo dobrando a períodos curtos, no início, representa pouco. Por exemplo, quando
elas têm participação de mercado de 0,1%, 0,2%, 0,4%…nem aparecem nas estatísticas.
Mesmo quando começam a chamar atenção, com 1%, 2%, 4%, ainda são vistas de forma
simplista, como “menos de 10% do mercado e vai levar tempo para ser uma
tecnologia disseminada”. Aí é que temos o engano. Pensamos linearmente. E somos
atropelados pela exponencialidade. De 10% vai para 20% e em pouco tempo temos 60%
a 80% do mercado.
Um fato interessante dessas tecnologias é que muitas delas
estão na fase que o Gartner descreve em seu Hype Cycle como o “vale das
desilusões”. Alcançaram o ápice (“o pico das expectativas inflacionadas”) e por
terem sido superestimadas em sua facilidade de uso e potencial a curto prazo
caíram no vale.
Geralmente, no início, a superexposição das tecnologias na
mídia e a empolgação daí decorrente, faz com que percamos de vista o
contexto. A desilusão é decorrência
natural. Vejamos o exemplo do PC. Antes do surgimento do IBM PC, o PC, termo que
apareceu em meados
dos anos 70 , foi uma decepção. Muito badalado, na prática era usado para
poucas coisas úteis. Quando a IBM lançou o PC, a convergência da evolução
tecnológica, como processadores Intel e softwares da Microsoft, tornou a
máquina realmente útil e sua disseminação foi muito rápida. Mas, em 1975,
poucos anos antes do IBM PC, o PC era uma simples máquina para jogar Pong. Nada
mais e dificilmente alguém imaginaria o império que a Microsoft criaria a
partir dele.
Vamos então olhar algumas tecnologias que com potencial
disruptivo, mas que ainda não chegaram a despertar o interesse da grande
maioria dos executivos de negócio. Minha lista foi baseada no livro “Bold”, de
Peter Diamandis e Stephen Kotler, da Singularity University. Recomendo sua
leitura!
Impressoras 3D
Em abril
do ano passado escrevi sobre elas e seu impacto nas empresas. Lembro que,
na época, perguntei aos CIOs, em um importante evento, se algum deles já estava experimentando ou planejando experimentar o uso de impressoras 3D no curto prazo. Fez-se
silêncio, e, pelo menos para os ali presentes (estavam, entre outros,
executivos de setores com grande potencial de serem afetados como indústria e
varejo) esta tecnologia ainda não havia aparecido na tela dos seus radares. Na
verdade, verificou-se que nem estava nas suas “to do list” para os próximos
anos. Recentemente, a Deloitte realizou uma pesquisa no Brasil e constatamos
que muito pouca coisa avançou nesse campo. Poucos executivos conhecem e
avaliaram seu potencial e raríssimos são os que já usam ou que planejam usá-la
em breve.
A disseminação de uma tecnologia acontece quando a sua
interface de uso torna-se fácil, intuitiva e aberta a qualquer um. A Internet
explodiu em termos de utilização quando surgiu o primeiro browser, o Mosaic.
Antes eram apenas os iniciados que a usavam. Hoje, as impressoras 3D já estão
começando a serem de fácil uso. Com simples cliques desenhamos coisas que
podem ser impressas. Existem dezenas de
sites onde podemos pegar modelos, gratuitamente, e imprimi-los em casa. Mas
além de impressão caseira, as impressoras 3D já estão abrindo caminho em
praticamente todas os setores.
Na indústria automotiva, a maioria dos fabricantes
incorpora partes 3D nos veículos já produzidos. Em 2014, a Local Motors produziu um carro
em 3D, usando apenas 50 peças, em vez das quase 2500 da maioria dos
veículos. Olhemos à frente. Será que um carro continuará a ser produzido em
massa, nos moldes do modelo de produção criado por Henry Ford, ou a produção em
3D demandará um novo conceito de linha de produção? Na indústria aeroespacial
motores dos foguetes da SpaceX são produzidos em
3D. Partes das turbinas da nova geração de jatos comerciais da Airbus
também são produzidos
em 3D.
Mas, podemos ir mais longe. Em 2016, foram necessários 63
bilhões de animais terrestres para alimentar 7 bilhões de seres humanos. Os
animais ocupam um terço da massa terrestre, utilizam 8% do nosso abastecimento
de água e geram 18% de todos os gases com efeito de estufa. A
Modern Meadow, uma empresa da Singularity University, se propõe a fazer uma
disrupção nessa indústria usando bioprinting (engenharia de tecidos e impressão
3D) para produzir couros em laboratório e, futuramente, carne (carne, frango e carne de porco).
Em 2016, a empresa com sede no Brooklyn arrecadou 40
milhões de dólares com o objetivo de se tornar a principal fonte de couro para os
fabricantes mundiais de moda e acessórios, bagagens, artigos esportivos,
estofados e móveis. Sua visão é fazer isso em larga escala e reduzir
drasticamente o impacto ambiental da carne e da produção de couro. Com a
bioimpressão de carne, poderíamos alimentar o mundo com 99% menos terra, 96%
menos água, 96% menos gases com efeito de estufa e 45% menos energia. Se isso
realmente acontecer, afetará países altamente dependentes de exportação de
carne, como o Brasil.
Vamos em frente. Cerca de 10% da população global é afetada
por doença renal crônica, com milhões de pessoas morrendo a cada ano devido à
falta de tratamento acessível. Mas, recentemente, os cientistas do Harvard’s Jennifer Lewis
Lab deram o primeiro passo para a criação de um rim artificial que, um dia, poderá substituir os rins de doadores biológicos. E o hospital do futuro
está começando a sair da imaginação…sugiro a leitura do artigo que descreve a
visão
desse hospital, que será aberto em 2017 na Austrália.

Inteligência
Artificial
Abordei especificamente essa tecnologia nesse artigo aqui.
Sua evolução é assustadora. Depois do Watson, da IBM, ganhar o Jeopardy e o
AlphaGo, do Google, vencer partidas contra o campeão
mundial de Go, um jogo altamente complexo, agora o Hiro, da alemã Arago, conseguiu vencer 80%
dos seus concorrentes humanos em jogos
de estratégia de construção de civilizações. Já é indiscutível o efeito que
a IA acarretará na nossa sociedade. Só não sabemos qual será sua proporção.
Stephen Hawking, o famoso físico, abordou recentemente o tema no evento de
lançamento de um instituto da Universidade de Cambridge criado para estudar o seu efeito na sociedade. O texto é “Stephen
Hawking: AI will be ‘either best or worst thing’ for humanity”.
Também devemos prestar atenção ao crescente número de
sensores que estão espalhados pelo planeta e aumentando exponencialmente. Por
exemplo, se olharmos os bilhões de smartphones e tablets, vemos que cada um
deles contém dezenas de sensores, como telas sensíveis ao toque, microfones,
acelerômetros, giroscópios, câmeras, etc. Somente a superfície das telas
sensíveis ao toque, em 2015, já somavam cerca de 36 milhões de metros
quadrados. Mas além desses dispositivos, vemos sensores ajudando a tornar os
veículos autônomos, possibilitando manutenção preditiva em turbinas, como os
mais de 250 sensores em cada turbina da GE, que monitora seu desempenho em
tempo real.
No combate à criminalidade, a ShotSpotter tem sensores acústicos que
detectam ruídos e, através de algoritmos, isolam o som de um disparo, triangulam
sua localização com precisão de cerca de três metros e direcionam a polícia
para o local. Com sensores em todos os lugares e os seus preços diminuindo
constantemente, o limitador para o uso dos sensores será apenas nossa
imaginação! Um recente estudo da Universidade de Stanford propõe que serão
demandados cerca de um
trilhão de sensores em 2023!
Ao conectarmos esses sensores uns com os outros e a outros
sistemas, as oportunidades são imensas. Mas, chamo a atenção para um aspecto
importantíssimo: a formação de gente capacitada que permita construir e usar
essas tecnologias. Um estudo mostrou dos 100% do preço de
venda de um iPhone, 66% ficam com a Apple, 32% com os fabricantes de seus componentes (GPS e
outros sensores) e apenas 2% com as empresas que os montam. Portanto a imensa
maioria da captura de valor da cadeia está no capital intelectual e não no trabalho
de montagem, de baixo valor agregado. Educação e capacitação é um dos nossos
gargalos e se reflete no baixo uso dessas tecnologias aqui no Brasil.
Robótica
Já os vemos substituindo
jóqueis em corridas de camelos nos Emirados Árabes Unidos e Qatar. O
impacto da robótica e da Inteligência Artificial no que entendemos hoje por
trabalho será altamente impactante. Escrevi sobre isso aqui
e recomendo também a leitura do estudo “The
Transformation of the Workplace Through Robotics, Artificial Intelligence, and
Automation: Employment and Labor Law Issues, Solutions, and the Legislative and
Regulatory Response”. Já vemos, inclusive, aceleradoras de startups focadas
em robótica, como a Robot Launchpad.
Biologia sintética
A ideia da biologia sintética parte da premissa que o DNA é software, nada mais
que códigos de quatro letras arrumadas em ordens específicas. Como nos
computadores, o código direciona a máquina. Na biologia a ordem do código
governa os processos de fabricação e desenvolvimento das células, as instruindo
a produzir determinada proteína, por exemplo. E como todo software, o DNA pode
ser reprogramado.
Diferente da engenharia genética, que é a inserção de
determinado gene para mudar características de uma planta ou animal, a biologia
sintética é uma reprogramação do próprio DNA. No fundo é a engenharia genética
tornando-se digital. As implicações são imensas e ainda não conseguimos
visualizar até onde chegaremos. Um exemplo instigante é o projeto Cyborg da Autodesk,
para permitir a programação biológica de modo fácil, sem necessidade de ser um
PhD para tal. Claro, aspectos legais, éticos, morais e sociais estarão em
debate. O que não podemos é ignorar as mudanças que o mundo digital vem provocando.
O mundo nos próximos anos será bem diferente do
que conhecemos hoje. Novos negócios, novas funções e profissões. Empresas
estabelecidas sumirão do mapa e apesar do ceticismo, que é comum diante do
inesperado, as mudanças chegarão. Se vamos gerar oportunidades ou sermos
atropelados, é uma decisão estratégica dos países e das empresas. Cabe a nós
mesmos decidirmos nosso futuro.
(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures
e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open
Source, Cloud Computing e Big Data
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