Imagem: Shuttestock
Por Cristieni Castilhos e Ana Luiza Prado
A inteligência artificial já chegou às escolas — e, com ela, um desafio urgente: garantir que essa tecnologia fortaleça o aprendizado em vez de ampliar desigualdades. À medida que cadernos e quadros passam a conviver com plataformas digitais, assistentes virtuais e sistemas de recomendação, fica claro que a transformação necessária é simultaneamente pedagógica e tecnológica.
Por muito tempo, sustentou-se o mito de que o corpo docente rejeitava inovações, mas a realidade mostra outra situação. A pesquisa TALIS indica que 56% dos educadores brasileiros já utilizam ferramentas de IA no cotidiano — um índice superior ao de países mais desenvolvidos, onde a média da OCDE é de 36% e a da União Europeia, 32%. Entre aqueles que ainda não usam IA, seis em cada dez afirmam não ter formação adequada ou infraestrutura suficiente, um diagnóstico que converge com os dados do Censo Escolar, segundo os quais apenas 42% das escolas possuem dispositivos adequados. Isso evidencia algo fundamental: a barreira não é cultural, mas estrutural. E é justamente esse contexto que coloca o grande desafio de implementar inovações tecnológicas. Sem conectividade robusta, equipamentos funcionais e formação contínua, a tecnologia simplesmente não se sustenta na prática. E as consequências dessa ausência já são perceptíveis.
A primeira delas é a perda de oportunidades reais de melhoria da aprendizagem. O Brasil enfrenta, há anos, desafios profundos no ensino médio, e evidências internacionais mostram que a IA, se bem integrada ao trabalho docente, pode contribuir para reduzir lacunas persistentes. Em Edo, na Nigéria, um programa de tutoria por IA gerou, em apenas seis semanas, avanços equivalentes a até dois anos de escolaridade. Nos Estados Unidos, estudos de Stanford demonstram que mesmo tutores inexperientes conseguem personalizar o ensino e obter melhores resultados quando apoiados por IA. Em todos esses casos, o princípio é o mesmo: a educação continua sendo humana, mas a IA amplia a capacidade de personalizar e apoiar o aluno. Nesse sentido, o bom uso da IA não é apenas uma inovação interessante, é uma oportunidade concreta para que alunos brasileiros, sobretudo os mais vulneráveis, aprendam mais.
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A segunda consequência é ainda mais profunda: ao não integrar plenamente a tecnologia, a escola não prepara o jovem para o mundo em que eles já vivem. Segundo a TIC Educação, a IA faz parte do cotidiano dos estudantes brasileiros — sete em cada dez alunos do ensino médio recorrem a ferramentas generativas para realizar pesquisas e tarefas. No entanto, apenas 32% receberam orientação de professores sobre como utilizá-las de forma adequada. Eles usam, mas usam sozinhos, sem mediação pedagógica, e acabam construindo noções imprecisas sobre como navegar no ambiente digital. Os dados mostram a extensão desse problema. A TIC Kids revela que 59% dos estudantes não sabem que o primeiro resultado de uma busca pode não ser o mais relevante; 43% não compreendem que ‘curtir’ ou comentar algo pode prejudicar outras pessoas; e 27% desconhecem que empresas pagam para influenciar conteúdos online. Não estamos falando de habilidades avançadas, mas do mínimo necessário para circular com segurança e consciência em uma sociedade digital — justamente o tipo de aprendizado que a escola deveria garantir.
Essa lacuna formativa se torna ainda mais preocupante quando observamos o cenário econômico. A automação avança de forma acelerada. O Fórum Econômico Mundial estima que, atualmente, 47% das atividades econômicas são realizadas exclusivamente por humanos, mas esse percentual deve cair para 33% até 2030. A diferença será absorvida por máquinas, algoritmos e sistemas inteligentes. Exemplos concretos já surgem: nos Estados Unidos, a Amazon anunciou que pode reduzir 500 mil postos de trabalho devido à automação. Em um mundo assim, excluir habilidades digitais da formação escolar é condenar parte da juventude a uma posição estruturalmente vulnerável. Não por acaso, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) incorporará, em 2029, uma avaliação específica de Alfabetização Midiática e Inteligência Artificial, reconhecendo que essas competências são hoje essenciais.
Estamos, portanto, diante de um ponto de inflexão. A IA tem potencial para reduzir desigualdades históricas, especialmente ao apoiar os estudantes que mais precisam. Mas, sem enfrentar as disparidades de infraestrutura e formação docente, ela corre o risco de reproduzi-las — ou até ampliá-las. A pergunta que se impõe, então, é simples e decisiva: a IA será, no Brasil, uma ferramenta de equidade ou de aprofundamento das desigualdades educacionais?
A resposta dependerá da nossa capacidade de criar condições reais para que a tecnologia seja usada de forma crítica, ética e pedagógica. E isso exige, com urgência, três pilares estruturantes:
O caminho para uma educação mais justa passa por garantir que a IA seja incluída de maneira com mais equidade nas escolas. Isso passa por garantir pilares como infraestrutura, formação docente contínua, e habilidades digitais. A IA pode ampliar horizontes, mas só a educação – com propósito, criticidade e equidade – pode garantir que esse futuro seja verdadeiramente humano.
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