Fábrica de software: berço de criatividade ou senzala intelectual?

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Fábrica de software: berço de criatividade ou senzala intelectual?

O tema é desafiador para as empresas de TI: afinal, como alinhar as fábricas de tecnologia com o momento em que a tecnologia se torna cada vez mais ativa nas relações pessoais e empresariais? Como reduzir o abismo entre as requisições, os problemas a serem solucionados, a demanda do cliente e o que é efetivamente entregue? O que inovação (não) tem a ver com hierarquia? O que os novos compradores que emergem dentro das empresas afetam nessa relação e de que forma a computação na mão do usuário impacta o desenvolvimento de novas ferramentas? Não queremos apenas incitar dúvidas, mas resolver alguns pontos dessa equação.

Para tanto, o IT Mídia Debates de outubro trouxe nada menos que Cesar Gon, CEO da Ci&T; Monica Herrero, CEO Brasil da Stefanini; Rogério Oliveira, ex-presidente para a América Latina da IBM e membro do conselho da Resource; e Gustavo Mac Fadden, diretor-comercial da i9 User Experience, para encontrar algumas respostas Este é mais um registro importante para a história da TI, onde a análise do direcionamento estratégico e até governamental de países como Índia e China determinaram os atuais ? e já ultrapassados ? modelos de produção de tecnologia. Acompanhe os principais pontos da discussão realizada em uma manhã de outubro e que pode virar uma fagulha para um debate mais profundo e continuado.

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Cesar Gon, CEO da Ci&T ? A tecnologia vive o pico da experiência do usuário. A exemplo disso temos Apple, Google e Amazon. A sociedade percebeu que seu uso pode gerar impactos políticos e sociais. Quando eu olho de dentro da indústria de TI para fora, esta é a ponta do iceberg. Quando eu olho de dentro para dentro, a grande indústria de TI corporativa virou uma senzala intelectual. Temos pessoas com extrema capacidade de resolver problemas mas, me parece, enjauladas nas famigeradas fábricas de software. Cunhadas pela grande demanda da década de 90, capturamos a forma indiana de offshore. Vivemos hoje a idade das trevas da computação, com o modelo fordiano de fazer a coisa. Focamos no dilema de como formar a mão de obra que falta e não olhamos a capacidade do que já temos. Formar mais 2 milhões de pessoas é uma solução do passado. Uma revisão quase transacional de ambiente de legados. Não é isso que vai atender às expectativas da sociedade e tirar o potencial das tecnologias que estão surgindo. Chegou a hora de revisar o papel do profissional de TI.
Rogério Oliveira, presidente do conselho consultivo da Resource e ex-presidente para a América Latina da IBM ? O mundo é altamente instrumentalizado, temos 100 mil transistores por pessoa no planeta. São 8 bilhões de pessoas. A tecnologia está em mais coisas que possamos imaginar! Um automóvel tem mais de 100 mil linhas de código de software. A capacidade de conectividade e as novas tecnologias trazem a tecnologia para a vida das pessoas sem que elas percebam. Companhias não existem sem tecnologia, dependem dos seus processos automatizados de forma profunda. Esse lado é o que dispara a senzala que o Cesar Gon levantou. Os legados que ele citou têm bilhões de dólares em investimentos. A manutenção disso é que faz automação das pessoas nos processos de TI. E o modelo financeiro levou à terceirização maciça.

Acredito que vai haver uma troca dos legados ao longo do tempo, vão entrar soluções empacotadas e uma maneira mais leve de fazer sistemas e isso vai abrir a porta para empresas de nichos que têm controle sobre um domínio. O Brasil é reconhecido pela tecnologia bancária.

Aqui todos sabem manter um sistema bancário, mas o conhecimento da arquitetura como um todo ninguém tem. Hoje você terá dificuldade em encontrar uma empresa que possua um frame de uma área complexa do banco. Por isso é que elas têm dificuldades de manter esta meia verdade. Estamos melhorando, mas ainda longe do nível que gostaríamos de estar.

Monica Herrero, CEO da Stefanini no Brasil ? O mercado tem de parar de olhar a forma de fazer sistema vertical. Empresas têm legados. E para o cliente mudar, você tem que mostrar onde pode agregar. Por isto, todos falam sobre alinhar a TI ao negócio. Tem de mostrar ganho. O Brasil tem algumas pontas de inovação interessantes. Por outro lado, tem que estimular os desafios para a equipe ? e sair da senzala. Não desafiamos as pontas. Precisamos ver outros segmentos onde a tecnologia é diferencial. Se a gente não conseguir estar alinhado e levar valor, continuaremos sendo a senzala.

Gustavo Mac Fadden, diretor-comercial da i9 User Experience ? Na ponta de tudo você tem o usuário do sistema que não sabe o que tem atrás daquilo. O que se ouvia muito na implementação de uma tecnologia é que o problema era de quem a usava. Mas é necessário olhar essa ponta e aperfeiçoar o trabalho para ele.

Cesar Gon, CEO da Ci&T ? Qual o ambiente ideal para fazer uso da tecnologia? O de negócios, que é altamente ágil? Na ponta de tecnologia há uma dinâmica extremamente rápida do que se pode fazer. Há uma relação financeira. Estamos próximos de comprar, a mil dólares, a capacidade de processamento do cérebro humano. Mas não tem software capaz de explorar toda essa capacidade. Estamos longe do ambiente criativo que possibilite isso. Todo mundo sabe como vai ser o hardware no futuro, com números bastante precisos, mas ninguém tem a mínima ideia de como vai ser o software dadas as possibilidades criativas.
Enquanto isso, temos dois ambientes se movimentando: o tecnológico e o de negócios. E aí criamos, neste cenário, ciclos de aprendizado extremamente longos, em que o usuário tem, em média, 7 níveis hierárquicos para chegar até quem resolve o problema dele. A senzala intelectual está longe do usuário. Por isso vemos ciclos enormes para desenvolver um projeto que vai gerar muito pouco aprendizado dadas as dinâmicas desses contextos. Na base de quebrar o processo está o repensar a indústria: será que faz sentido um departamento de TI? Faz sentido uma fábrica de software? Que valor real estas estruturas estão gerando? Não pergunto isto pelo CIO e nem pelo fornecedor, mas sim pela sociedade como um todo. O movimento tem de ser mais rápido e objetivo. Precisamos discutir como vamos criar um ciclo menor, se não, ele não vai criar competência e domínio. Não estou falando que vamos deixar de cuidar dos legados, estou dizendo que é preciso cortar a grama. Não se faz só paisagismo. Porque o que ocorre hoje não é um ambiente de inovação. Quando a ordem é top down, se alguém tem uma visão não pode usá-la. Temos de criar times de alta performance e um ciclo de aprendizado em uma velocidade diferente da que temos hoje. Tem de haver um propósito compartilhado onde todos querem a mesma coisa. O bem estar e o futuro da humanidade depende da tecnologia para resolver os enormes problemas de sustentabilidade. E isto passa por questionarmos o valor das coisas hoje.

Rogério Oliveira, presidente do conselho consultivo da Resource – O primeiro dogma que existe é que não existe solução tecnológica para problema gerencial. E o que acontece hoje é porque há um problema estrutural. Afinal, como os donos do processo permitem que mais pessoas tenham acesso? As tecnologias disruptivas são um tsunami. As ondas planas são longas e chatas. Quando é um tsunami há uma demanda louca do mercado.

Cesar Gon, CEO da Ci&T ? Há uma complexidade intrínseca de reproduzir a capacidade criativa humana. Não vai ser em algumas décadas que vamos produzir um computador que pinta igual ao Picasso. É ingênuo pensar assim. Quase tudo é problema gerencial. Não é uma crítica ao indivíduo, mas ao modelo. A Índia foi a pioneira e isso se reproduziu e se padronizou. Só que já está ultrapassado. Tem de se olhar o potencial da tecnologia hoje.

Felipe Dreher, mediador ? Onde está sentado o CIO hoje nas empresas?

Cesar Gon, CEO da Ci&T ? Na maioria, este cara é o porteiro. Ele só fala não para as inovações que não pode ver. O novo só não vai acontecer na área de TI das empresas. Ele sempre fala: ?vamos segurar, vamos esperar?. A questão social também vai impulsionar esta mudança. A nova geração está antenada nisso! Teremos impactos gigantescos sobre o que é entender o consumidor.

Gustavo Mac Fadden, diretor comercial da i9 User Experience ? Para ter foco na inovação é preciso liberdade para a equipe e autonomia.

Rogério Oliveira, membro do conselho da Resource ? O conceito de inovação é diferente de invenção. A história está cheia de pessoas com projetos individuais que levaram à invenção. A inovação, por definição, é um processo coletivo. Há inovação no produto, no processo e no modelo de negócio. E tudo cai no modelo tecnológico. De novo: o problema é gerencial. O empresário brasileiro é autocrático. Quem toma decisão é a cúpula. Então é difícil ver inovação. A gente sonha que o Brasil vai fazer inovação nos laboratórios controlados pelas empresas. Quem inventou o PC foi a inovação e não o empreendedorismo. A atitude dos gestores é que define o nome do jogo. É uma ditadura no processo, o modelo não permite que se faça de maneira estruturada e produtiva. Eu acho legal quando um funcionário vira seu sócio, mas isso é raro.

Monica Herrero, CEO Brasil da Stefanini – Na vida há evoluções e melhorias. Tem um histórico para ser sustentado. O desafio é propor o novo. O CIO, na verdade, sai da área de tecnologia e fica diretamente na de negócio. Eles entendem o negócio da empresa. Aplicando TI, ganham espaço. Nosso grande desafio é entender a necessidade da ponta. E é um papel que não é só do CIO e sim de todos nós. Muito da inovação vem da produção. Temos de envolver todo mundo na mesma iniciativa, para não acabar tendo pessoas que não veem importância no processo. Além disso, somos corresponsáveis pela nova geração. Temos de saber o que eles gostam e como atraí-los.

Estela Bernardes, da IBM ? Mas como reter ou atrair profissionais?

Cesar Gon, CEO da Ci&T ? Eu não consigo ver a TI separada da produção. Vamos levar para a ponta o poder. Acredito em times de alta performance. A atratividade tem a ver com a TI ser menos hermética.

Monica Herrero, CEO Brasil da Stefanini ? Na Stefanini, para o desafio de reter talentos, o primeiro ponto é comunicação. Todos têm de saber o que está acontecendo dentro da empresa.

Rogério Oliveira, membro do conselho da Resource ? Tem um estudo que mostra um fenômeno de pessoas que tem ideias novas, empreendem, constroem suas empresas e passam a ser vítimas do processo de destruir o espírito inovador. E começam a ter que resolver problemas estruturais. Os mecanismos para que isto perdure são imensos.

Cesar Gon, CEO da Ci&T ? Nosso modelo de negócio é voltado à inovação. Nosso modelo de negócio é resolver modelo de negócio. O colaborador tem de ter senso de propósito compartilhado. A Ci&T tem 1,7 mil pessoas, menos de 5% saem da empresa. Isso não é mágica. É senso de propósito compartilhado e autonomia.

Rogério Oliveira, membro do conselho da Resource ? A grande oportunidade no Brasil não está nas empresas, está dentro do governo como cliente. A área mais atrasada no Brasil é o governo, com segurança, educação, saúde, administração, logística etc…

Cesar Gon, CEO da Ci&T ? Precisamos começar a Renascença na indústria de TI.

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