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No auge das empresas pontocom, no fim da década de 90, o empresário Daniel Topel fazia mestrado na Universidade de Stanford e trabalhava no Vale do Silício. Ele viveu intensamente no coração desta revolução do mundo dos negócios que hoje faz parte de nossa vida. Dez anos depois, de volta ao Brasil, Topel montou uma típica companhia baseada no que havia conhecido e é um dos casos brasileiros que explicam como a internet tem modificado os modelos de negócio que vemos atualmente.
Topel é CEO da NetMovies, maior locadora online de filmes o Brasil. “Eu não gostava de ter ir até a locadora, perder tempo procurando nas prateleiras e pagar multa quase sempre quando atrasava a devolução”, lembra. Conhecedor do modelo americano da Netflix, que já era um sucesso, Topel decidiu implantá-lo por aqui. “Tinha certeza de que haveria outras pessoas com as mesmas necessidades”, comenta.
E ele estava certo. Em 2009, a NetMovies realizou 10 milhões de locações para clientes que preferem não sair de casa para consumir cinema. O crescimento em relação a 2008 foi de 100% e a previsão para 2010 é alcançar 350% sobre os números do ano passado. Daqui a alguns anos, o futuro da empresa está na mobilidade, garante o executivo.
Somos fascinados por modelos de negócio desse tipo que surgem na internet. Os negócios digitais estão na moda e a rede mundial se tornou uma plataforma comercial como foi prevista pelo escritor Alvin Toffler, em seu livro A Terceira Onda, de 1980. De fato, vemos profundas modificações nas relações de trabalho, interpessoais e de consumo nos últimos anos.
Só que essa visão de que tudo ocorre porque tem a internet no meio pode estar chegando ao fim. Especialistas em inovação apontam que é cada vez mais comum o uso da rede mundial de computadores nas estratégias de negócios. E, se qualquer empresa está ou pode estar nessa onda, isto é sinal que nos próximos anos a internet virará commodity.
Trágico? Nem um pouco. É apenas o que se esperava. “Como a internet é uma plataforma tecnológica, ela segue o mesmo caminho do computador e de outras tecnologias da informação usadas em empresas”, aponta o físico, consultor de inovação em empresas e autor de diversos livros sobre o tema, Clemente Nóbrega. A internet não deixará de ser importante, apenas perderá, aos poucos, seu valor como diferencial competitivo. Com isto, prevalecerão as estratégias de modelagem de novos negócios, na qual qualquer tecnologia é apenas um dos ingredientes desse bolo a ser servido para o mercado.
Exemplos de revolução
O iPod é um exemplo de como isso se desenvolve. O produto revolucionou o mercado não por ser um simples tocador de música digital com belo design. Seu segredo está em ter resolvido a necessidade das pessoas de comprar, armazenar, organizar e compartilhar música a qualquer momento e qualquer lugar. Para isso, utiliza a web para conectar desenvolvedores de software de forma colaborativa e para apresentar uma loja virtual que vende música graças a acordos com gravadoras.
Vários fabricantes de celulares como Nokia e LG imitaram o modelo de loja virtual posteriormente. Amazon MP3, Nokia Music e Play Now Arena também passaram a concorrer diretamente com iTunes e a rede de desenvolvedores foi copiada até pelo Google ao lançar a plataforma e sistema operacional mobile Android. É um exemplo evidente de que a tecnologia pode ser copiada. No entanto, o modelo integral de negócio inovador do iPhone permanece intocado.
Esse é o segredo para as empresas que desejam criar novos modelos de negócio futuramente. Não existe uma fórmula exata para ser seguida. Existem passos que devem ser dados nesse caminho. “É um método no qual a tecnologia e a Internet têm seu papel, mas dentro de uma dessas etapas”, aponta Nóbrega. Para o consultor, o arranjo de negócios tem quatro elementos. Em cada um deles é possível lembrar de modelos inovadores que aparentemente são causados pela internet, mas na realidade são fundamentados em um bom plano estratégico.
O primeiro passo é identificar a oferta de valor. É descobrir o que o produto vai realizar. O Skype entra neste contexto. O software não é um telefone pela web, mas uma resposta para as pessoas que querem se comunicar globalmente com facilidade e baixos custos. A tecnologia só entra posteriormente, quando é preciso identificar os recursos que farão a idéia vingar. Isto envolve a escolha da decisão tecnológica e também os acordos comerciais, além do produto em si. O iPod é o exemplo claro dessa complexa união.
Mão na massa
Depois vem o dia a dia e os processos que farão tudo acontecer. Nesse escopo entram o treinamento, a definição dos líderes, insumos, fabricação e fornecedores. Toyota, com o seu modelo enxuto de manufatura, o método Wal-Mart de logística global e a venda indireta da Dell são exemplos disso. Todos surgiram antes da internet, mas quando a rede se tornou essencial para suas estratégias, eles a adotaram para melhorar ainda mais esses modelos. Outro exemplo a ser seguido.
Por último, vem a fórmula do lucro. Algo que foi esquecida durante a bolha pontocom e que impede que vejamos mais empresas de sucesso hoje. O valor pago pelo produto ou serviço deve cobrir todos os custos e gerar uma sobra para futuros investimentos. O Google tem uma excelente formatação disso com seu sistema de publicidade. Algo tão bom que fez seus concorrentes antigos como Altavista, WebCrawler e Ask serem esquecidos.
Os casos de sucesso agregam todos esses elementos. A NetMovies, que tem uma oferta de valor clara, não daria certo sem adequar-se ao dia a dia. Ela não conseguiu ser uma cópia exata da Netflix. Foi impossível fazer os mesmos acordos de compartilhamento de receita com os estúdios e distribuição pelo correio que viabilizaram o modelo nos Estados Unidos. Com isso, a empresa precisa comprar filmes como uma locadora comum e manter um centro próprio de logística e tratamento das mídias. A adaptação meio online e meio offline garantiu a sobrevivência.
Olhando para o caso da NetMovies e para matriz de criação de novos modelos, é impossível deixar de lembrar mais empresas das quais podemos estar falando daqui há dez anos. Os serviços de computação em nuvem da Amazon (EC2) e do Google (GAE) são boas apostas. “Eles redefinem uma arquitetura, apresentam novas formas de serviço e tem mercado”, explica o sócio-fundador da E-Consulting Corp, Daniel Domeneghetti. Há outras empresas para ficar de olho porque mostram um modelo novo aparentemente sem falhas.
Uma das mais evidentes é a Salesforce.com, que é símbolo do mercado de software como serviço. A Red Hat tem mostrado ano após ano que seu modelo de software livre é viável, desde que se pense globalmente e não se foque em vender camisetas e canetas com um pinguim estampado nelas. Citrix e VMware mesmo apoiadas fortemente em tecnologia, resistem à comoditização por terem clientes leais que enxergam nelas boas parceiras para enxugarem suas infraestruturas de TI e manterem o crescimento do e-business.
A aposta arriscada fica para todo o ecossistema das redes sociais. Facebook e Twitter tem centenas de clones pelo mundo e uma pequena parte dessa concorrência muito bem focada em nichos de mercado. Como não apresentaram ainda um modelo lucrativo, o futuro dessas empresas é incerto. A democratização do acesso à Internet está do lado delas, mas elas terão de trabalhar com commoditização e adotar inovações mantenedoras para sobreviverem e nos mostrarem que possuem um modelo de negócio novo e não apenas abriram nossa visão para a Web social.
“Vivemos um ciclo de decantação dos negócios criados na internet”, alerta Domeneghetti. Para o consultor, somente em alguns anos teremos certeza de ver qual empresa tem potencial de se juntar à lista que contém Apple, Google, Amazon, Wal-Mart e Toyota. “Estamos no pico do conhecimento gerado pela Internet, onde tudo que poderia ser digitalizado já foi”, diz. Com isso, sobreviverá quem arquitetar seus atributos de acordo com o negócio e a pressão desse mercado – em vias de commoditização.
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