De Minas a Marte: como o brasileiro Ivair Gontijo se tornou um cientista da Nasa

Durante sua palestra na Campus Party, físico mineiro relembrou os momentos cruciais da missão Curiosity

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Foto: Gabriel Maciel | Campus Party

“Eu botei a mão no ombro da minha esposa e falei ‘acho que esse trem vai dar certo’”. A fala é do mineiro Ivair Gontijo ao lembrar do momento em que a sonda Curiosity, da Nasa, fez história ao pousar em Marte no dia 6 de agosto de 2012. Naquele dia, Gontijo assistia apreensivo ao lado de colegas do Jet Propulsion Laboratory (JPL) uma das etapas mais fundamentais do projeto de exploração do nosso planeta vizinho.

“O mais difícil é chegar em Marte. É uma desaceleração enorme, uma sequência muito complexa na entrada da atmosfera. O veículo vai colidir com a atmosfera marciana, ele vai fazer curvas até chegar no lugar correto. Várias medidas estão sendo feitas”, lembrou o físico que abriu a programação de palestras da Campus Party 12 na noite dessa terça-feira (12).

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Gontijo liderou o trabalho do radar que controlou a descida final do Curiosity. “O povo brincava que se esse radarzinho não funcionasse, um que custou 2 bilhões de dólares, todo o trabalho iria por água abaixo. Então era uma pressão bem bacana”, brincou Gontijo. Quando o robô pairou certeiro na Cratera Gale, a vibração dos cientistas da Nasa e do público que assistia o pouso era palpável. “Ciência e tecnologia podem ser tão emocionantes como um gol em final de Copa do Mundo”, comparou Gontijo.

Mas como é que um mineirinho, nascido em Moema, município no Alto São Francisco foi parar na Nasa? Gontijo detalha sua trajetória em seu livro “A caminho de Marte”, Editora Sextante, mas é no palco da Campus Party que abriu ao público os anos cruciais que o levaram até o laboratório da agência espacial americana.

“Para a gente parar na Nasa, a gente tem que começar de algum lugar. Eu começo no interior do Brasil, próximo a nascente do rio São Francisco”, contou. Estudante de escola pública, Gontijo deu início ao curso técnico agrícola aos 15 anos para mais tarde exercer a profissão em uma fazenda ao Norte de Minas Gerais. Ele conta que conseguiu juntar dinheiro suficiente para ir a Belo Horizonte, onde lá estudaria Física na UFMG, para depois emendar um mestrado em ótica na mesma universidade. Um dos saltos viria logo depois em um Doutorado em Optoeletrônica na Universidade de Glasgow, Escócia.

Mas foi o ano 1998 o divisor que levou Gontijo a fixar residência em Los Angeles para trabalhar no JPL. “Eu acordo às 5h da manhã todos os dias para ir trabalhar. Dirijo 60 km até chegar ao JPL. Seis mil pessoas trabalham aí. Eu sou um deles”, revelou o mineiro não sem antes reclamar do engarrafamento da cidade.

No telão do palco Feel the Future, Gontijo exibiu uma série de vídeos da Nasa, mas são duas fotos de seu arquivo pessoal que utiliza para inspirar a plateia. Um comparativo do garoto que trabalhava na fazenda em Minas e o Gontijo atual, cientista da Nasa. “Entre aquela primeira foto, minha aos 18 anos, e esta, 30 anos se passaram. Projetos ambiciosos que fazem você querer modificiar o seu futuro leva tempo e muita dedicação, mas tudo é possível”.

Atualmente, o mineiro trabalha na missão Mars 2020, que enviará ao planeta vermelho um veículo semelhante ao Curiosity. A missão é ainda mais ambiciosa, pois a expectativa é que se conclua em três etapas. O veículo terá um conjunto diferente de instrumentos e terá como destino a Cratera Jezere. A ideia é que ele seja um coletor de amostras.

“Vão ser colocadas amostras em tubinhos de metais para depois, em uma segunda missão, um veículo menor, com um foguetinho disparar na órbita de Marte. Ninguém nunca fez isso antes. Depois, uma terceira missão sairia da Terra e encontraria esse foguete para trazer as amostras para estudar aqui. Temos equipamentos sofisticados, enormes, que enchem um laboratório inteiro, não dá para levar eles lá para Marte, então temos que trazer as amostras aqui”, explicou.

E para os brasileiros e brasileiras que sonham um dia conseguirem trabalhar na Nasa? Gontijo diz que não tem muito segredo. “Vocês têm um futuro brilhante a espera. O preço é alto, primeiro, você tem que ter um plano a longo prazo. Você tem que pensar o que você quer fazer na sua vida, tem que ter foco, se você tiver foco e trabalhar muito duro e tiver paciência, eu levei 30 anos, se você fizer isso, quase tudo é possível. Esta é a mensagem que quero deixar, é muito trabalho, foco e paciência”.

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