All Rights ReservedView Non-AMP Version
Preprod IT Forum
  • Homepage
  • Carreira
Notícias

Do ensino básico à requalificação: como o Brasil pode superar o déficit profissional de TI

Imagem: Shutterstock

Por Ricardo Scheffer e Roberta Piozzi

Embora a tecnologia avance a passos largos, a formação de talentos em TI continua sendo um ponto frágil no Brasil. O cenário se agravou no pós-pandemia, quando a aceleração da digitalização não foi acompanhada pela qualificação necessária para sustentar esse movimento. O mais recente relatório da Brasscom (Perspectivas do Mercado de Trabalho do Macrossetor TIC – 2025) revela um descasamento de 30,2% entre oferta e demanda. Entre 2019 e 2024, o setor demandou 665 mil profissionais, mas apenas 464 mil foram formados.

As melhores notícias de tecnologia B2B
Acompanhe todas as novidades diretamente na sua caixa de entrada

Ao contrário do que podemos imaginar, o problema não está apenas na quantidade de formados, mas na adequação da formação ao que o mercado exige. Ainda existe um descompasso entre o que é ensinado em sala de aula e as competências técnicas e comportamentais que as empresas de fato buscam. Além disso, a baixa oferta de vagas de entrada limita a inserção de novos talentos, o crescimento da informalidade tem avançado mais rápido do que os vínculos formais e barreiras regulatórias acabam dificultando a contratação de profissionais em formação, especialmente no modelo de ensino técnico e profissionalizante. Outro problema é a ausência de políticas públicas específicas para facilitar a transição da formação para o trabalho, como incentivos para primeiro emprego.

Leia também: Skyone recebe investimento da Advent para avançar em expansão e M&As

Essas lacunas são agravadas pelo avanço da inteligência artificial generativa, que já está reconfigurando funções e elevando a demanda por habilidades como pensamento crítico, criatividade e aprendizado contínuo. Essas competências, no entanto, ainda não estão plenamente integradas à formação tradicional. O resultado é um mercado que cresce em sofisticação, mas que não encontra, na mesma velocidade, profissionais preparados para acompanhar sua evolução.

O impacto não se restringe à indústria da tecnologia. Hoje, toda empresa é também uma empresa de tecnologia, pois automação, dados, nuvem e inteligência artificial permeiam todos os segmentos. Sem profissionais qualificados, as empresas perdem competitividade, o mercado nacional desacelera e o país sofre com perda de produtividade e inovação. O peso econômico é evidente: de acordo com o Relatório Setorial 2025 do Macrossetor TIC da Brasscom, o mercado movimentou mais de R$ 760 bilhões em 2024, o equivalente a 6,5% do PIB (Produto Interno Bruto), empregando mais de 52 mil  pessoas, com salários médios mais que o dobro da média nacional. Até 2028, a expectativa é de R$ 774 bilhões em investimentos em tecnologias digitais. No entanto, sem mão de obra preparada, esses recursos correm o risco de se transformar em desafio, e não em alavanca de crescimento.

A solução passa por mobilização de múltiplos atores. O Fórum Econômico Mundial estima que 60% da força de trabalho global precisará ser requalificada até 2027, e que quase metade das habilidades atuais deve deixar de ser relevante nesse mesmo período. Isso significa que governos, instituições de ensino e empresas precisam trabalhar de forma integrada para formar, requalificar e atualizar profissionais em ritmo compatível com a transformação digital. No âmbito corporativo, as áreas de treinamento e desenvolvimento passam a ter papel central, deixando de atuar apenas de forma operacional para se tornarem motores de inovação, performance e retenção de talentos.

Diversos países já mostram caminhos possíveis. A Coreia do Sul, por exemplo, tornou obrigatória a educação em codificação nas escolas básicas e incluiu inteligência artificial no ensino médio, expandindo gradualmente a presença da tecnologia na formação desde a infância. Em Singapura, portais de emprego e programas estruturados de bolsas, coding e aceleração de habilidades digitais são conduzidos pela autoridade nacional de mídia e tecnologia, com forte envolvimento entre Estado e mercado.

Já a França promove a capacitação de professores com plataformas gratuitas como o Wallcode, voltadas ao letramento digital e ao pensamento computacional. E nesta linha, a Suíça, por meio do Swiss Advanced Manufacturing Center, oferece capacitação técnica em novas tecnologias aplicadas à indústria, com foco em atualização contínua da força de trabalho. Essas referências ajudam a embasar estratégias brasileiras, reconhecendo a necessidade de investir em formações práticas, letramento digital de professores, requalificação profissional e conexão direta entre capacitação e oportunidades de trabalho.

No Brasil, o Plano Brasil Digital 2030+ da Associação BD30+, liderado pela Brasscom, surge como uma oportunidade de alinhar esforços e construir uma agenda de transformação coordenada, inclusiva e sustentável. A iniciativa foi entregue ao governo como uma proposta intersetorial para estruturar a digitalização do país. Para que seja eficaz, porém, deve se traduzir em programas práticos de formação e empregabilidade que conectem educação, setor produtivo e sociedade.

O déficit de talentos em tecnologia não é apenas uma estatística preocupante, é um risco direto à competitividade do Brasil no cenário global. A capacitação em tecnologia é uma necessidade estratégica, social e econômica. Portanto, requalificar profissionais, formar desde a base e atualizar continuamente competências não é apenas uma recomendação, mas uma condição de sobrevivência para as empresas e para o país, que tem potencial para se tornar um exportador de talentos tecnológicos.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

Next Nvidia investe US$ 5 bilhões na Intel e executa acordo anunciado em setembro »
Previous « Segurança digital: 10 previsões da iProov para 2026
Share
Published by
Pamela Sousa
Tags: profissionais de TI
5 meses ago

    Related Post

  • Novos executivos da semana: Uncover, Tech for Humans, Diebold Nixdorf, Unico e mais
  • Se o Brasil não organizar seus dados culturais, outro fará isso por nós, alerta Jorge Brivilati
  • CBYK nomeia Maurício Matsuda como novo CEO

Recent Posts

  • Notícias

83% dos CIOs já adiaram projetos estratégicos por restrições de orçamento

A pressão por controle de custos vem alterando a dinâmica das áreas de tecnologia nas…

5 dias ago
  • Estudos

Fintechs brasileiras captam US$ 2,77 bi em 2025 e entram em nova fase de maturidade

O mercado brasileiro de fintechs passou por uma transformação no perfil dos investimentos em 2025.…

5 dias ago
  • Notícias

Sioux aposta em IA e dados para nova fase de experiências digitais e expande atuação para a Europa

O avanço da inteligência artificial e o uso estratégico de dados vêm transformando a forma…

5 dias ago
  • Artigos

Qual é o risco do desenvolvimento de software com IA?

Por Ramon Ribeiro Quase metade do código produzido por assistentes de inteligência artificial contém vulnerabilidades…

6 dias ago
  • Notícias

Se o Brasil não organizar seus dados culturais, outro fará isso por nós, alerta Jorge Brivilati

Peça a um modelo de inteligência artificial que gere a imagem de uma cidade, sem…

6 dias ago
  • Notícias

Novos executivos da semana: Uncover, Tech for Humans, Diebold Nixdorf, Unico e mais

O IT Forum apresenta, semanalmente, os novos executivos e os principais anúncios de contratações, promoções e mudanças…

6 dias ago
All Rights ReservedView Non-AMP Version
  • L