Sem integração ao negócio e liderança ativa, inovação perde escala, consistência e capacidade de gerar valor sustentável
Nos últimos anos, o fomento à inovação passou a ocupar lugar central no discurso empresarial no Brasil. Editais, incentivos fiscais e linhas de financiamento tornaram-se instrumentos amplamente conhecidos, sobretudo entre empresas de base tecnológica. Ainda assim, a recorrência de projetos financiados com alcance limitado em termos de impacto consistente indica que o desafio da inovação vai além da disponibilidade de recursos. O acesso a recursos, por si só, não garante inovação relevante.
Nesse contexto, é comum que o fomento seja tratado como ponto de partida, quando, na prática, deveria ser consequência de uma estratégia previamente definida. Quando a inovação surge apenas como resposta a uma oportunidade de financiamento — e não como parte de um direcionamento claro de longo prazo — o risco é a proliferação de iniciativas desconectadas do negócio, com baixa capacidade de escala e sustentação.
A experiência mostra que muitos projetos aprovados e executados não chegam ao mercado ou não geram resultados duradouros. Isso ocorre, em grande medida, porque a inovação permanece frequentemente conduzida de forma isolada, restrita a núcleos específicos e sem integração efetiva com a estratégia corporativa, com a agenda tecnológica ou com os objetivos de crescimento da organização. O recurso é aplicado, o projeto avança, mas a transformação esperada não se consolida. Sem conexão com a estratégia do negócio, o fomento tende a financiar projetos — não necessariamente inovação.
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Empresas que apresentam maior maturidade em inovação costumam seguir uma lógica distinta. Antes de buscar qualquer instrumento de fomento, definem com clareza em que frentes desejam inovar, quais problemas estratégicos pretendem endereçar e quais capacidades precisam desenvolver ou fortalecer. Avaliam sua estrutura organizacional, sua governança e sua disposição para assumir riscos. Nesse cenário, o fomento atua como acelerador de uma trajetória já em curso — e não como tentativa de suprir a ausência de visão.
Esse processo pressupõe envolvimento direto da liderança. Inovação é, antes de tudo, uma agenda estratégica da organização, indo além dos aspectos meramente técnicos ou operacionais. Ela exige decisões claras, alinhamento entre áreas e compromisso da alta gestão com uma perspectiva de longo prazo. Sem esse respaldo, mesmo projetos bem financiados tendem a perder tração gradualmente.
Tratar o fomento como meio, e não como fim, é condição fundamental para a construção de uma inovação sólida e orientada à geração de valor. Recursos são importantes e necessários, ganhando maior efetividade quando associados à estratégia, à coerência organizacional e à visão sistêmica. Quando essa lógica guia as decisões da empresa, o fomento ultrapassa a função de financiamento e se torna um impulsionador de inovação real e sustentável.
Daniela Jacobina Pires é Mestre em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para Inovação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora de projetos no Think Tank – Centro de Inteligência, Políticas Públicas e Inovação da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES).
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