Inteligência artificial no mundo corporativo

Qual a responsabilidade das lideranças?

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Imagem: Shutterstock
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Por Gisele Truzzi e Georgia Vasconcelos Ferfoglia*

A discussão sobre o uso de Inteligência Artificial (IA) nas empresas lembra, em muitos aspectos, o debate sobre o uso de telas por crianças e adolescentes. Não é mais possível imaginar um mundo onde elas cresçam sem ter contato com celulares, tablets e computadores — e, convenhamos, também não faria sentido ignorar os benefícios que essas tecnologias trazem para o desenvolvimento cognitivo, o acesso à informação e ao lazer.

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Leia também: Vazamento de dados na XP: sua empresa está preparada para o próximo incidente?

Por outro lado, o uso excessivo, sem limites exatos ou supervisão, pode gerar problemas sérios. Com a IA nas empresas, a lógica é semelhante.

Para alguns, o cenário ainda é de resistência: há empresas tentando bloquear o uso da IA em todos os formatos, criando políticas de proibição generalizadas. A verdade é que a IA já faz parte do ambiente corporativo — com ou sem autorização formal.

Para gestores de TI e líderes empresariais, o caminho parece não ser ignorar ou proibir, mas assumir o protagonismo da governança dessa tecnologia. E é aqui que a área jurídica, especialmente o Direito Digital, surge como aliada estratégica.

O que está em jogo

A IA já começou a ganhar espaço em diferentes áreas corporativas. Em muitas organizações, está presente em sistemas de atendimento, automação de e-mails, emissão de relatórios financeiros, análise preditiva de dados e até em ferramentas de recrutamento. Mesmo que de forma sutil ou indireta, essa tecnologia vem sendo incorporada aos processos — e, quando bem aplicada, transforma a rotina operacional em algo muito mais estratégico e produtivo. Mas adotá-la vai muito além disso: é indispensável transformar a cultura, os fluxos de trabalho e, principalmente, as expectativas.

O papel do gestor: orientar, limitar, acompanhar

Assim como educadores e responsáveis devem estabelecer tempo de uso, tipo de conteúdo e supervisão para as telas, a liderança precisa criar um ambiente em que a IA seja aplicada com propósito, regras específicas e responsabilidade.

Na prática, isso significa definir diretrizes com atenção à proteção de dados e transparência dos resultados; capacitar colaboradores não apenas do ponto de vista técnico, mas também sob os aspetos ético e jurídico; oferecer opções seguras, de preferência homologadas; e monitorar continuamente a execução dos projetos.

Como e o que fazer?

O bloqueio total das atividades, além de ineficiente, transmite a mensagem de que a empresa não está preparada para lidar com a inovação de forma madura. A liberação de tecnologias sem critério, por sua vez, pode aumentar os riscos: vazamento de dados, decisões equivocadas, uso indevido de informações sensíveis e impactos legais.

Por isso, recomendamos os seguintes passos:

  1. Encontre um problema real: questione qual dor do negócio pode ser resolvida com dados e automação. A IA deve ajudar na resposta, não ser ponto de partida.
  2. Defina um plano de governança: crie diretrizes objetivas sobre privacidade de dados, transparência de modelos e auditoria de decisões automatizadas. Sem isso, a IA representa um risco legal e reputacional.
  3. Teste pequeno, escale rápido: Teste IA em áreas de baixo risco e avalie resultados com indicadores qualificados. Se funcionar, escale com segurança. Caso contrário, aprenda rápido e ajuste a rota.
  4. Use IA para decisões, não para substituições: IA deve aumentar a capacidade humana, não eliminar talentos. Use-a para entregar dados mais rápidos, obter previsões mais assertivas e relatórios mais inteligentes. Mas a decisão final — especialmente nas áreas críticas — ainda é humana.

O timing é agora

Seja qual for o porte, não é necessário complicar o uso da IA nas empresas. É possível integrá-la ao dia a dia com segurança jurídica, sem travar a inovação. O segredo está na clareza, na governança e na colaboração entre TI, jurídico e demais áreas de negócio.

Não se trata de escolher entre proibir ou liberar. Mas sim de incluir com responsabilidade, orientar com precisão e aplicar com consciência. “Esperar para ver” é abrir espaço para concorrentes mais ágeis. O risco não está em testar.

Fique de olho em algumas dicas práticas que podem pautar a definição de políticas e fluxos sobre o tema:

INFORMAÇÕES A SEREM INSERIDAS:

 Cuidado ao inserir dados em IAs como ChatGPT, Gemini, Copilot, entre outras

O que não fazer Ação indicada
·         Não insira texto ou imagem que contenha dados pessoais (tais como nome, e-mail, CPF, conta bancária), informações da empresa (nome, CNPJ, e-mail corporativo) ou de clientes nos comandos;

·         Não insira informações confidenciais, estratégicas, financeiras ou comerciais.

 

·         Realize perguntas direcionadas que possam te auxiliar e anonimize o conteúdo ao usar a ferramenta;

·         Troque o nome de empresas ou pessoas, para que assim não possam ser identificadas;

·         Verifique se a informação compartilhada pela IA é verídica;

·         Entenda que a IA possui limitações, logo, ela deve ser utilizada como uma ferramenta de suporte, e não para substituir o julgamento e análise humanas.

TRANSCRIÇÃO DE REUNIÕES:

Como realizar uma transcrição de uma reunião com IA da forma correta

O que não fazer Ação indicada
·         Não utilize uma ferramenta que não apresente segurança ou desrespeite a LGPD e/ou demais legislações brasileiras;

·         Tenha cuidado com o conteúdo da transcrição e a possibilidade que o conteúdo deixe de ser confidencial.

·         Verifique a política de privacidade da ferramenta e termos de uso;

·         Informe aos participantes da reunião que sobre a transcrição e a finalidade, e prossiga somente após a anuência de todos os participantes;

·         Armazene em um ambiente seguro;

·         Confira se o arquivo gerado traz corretamente as falas abordadas e compartilhe a transcrição da reunião com todos os participantes.

USO DE IMAGENS CRIADAS POR IA:

Como utilizar imagens criadas por IA de forma correta

O que não fazer Ação indicada
·         Não deixe de verificar os termos de uso e a possibilidade de uso para fins comerciais.

·         Não deixe de informar que a imagem foi criada por IA.

·         Certifique-se de que você tem os direitos necessários para utilizá-la. Algumas ferramentas de geração de imagens por IA oferecem licenças específicas para uso comercial ou pessoal. Confira sempre antes, inclusive para gerar imagens derivadas.

 

*Gisele Truzzi é  Advogada especialista em Direito Digital e Segurança da Informação. CEO de Gisele Truzzi Tech Legal Advisory; Georgia Vasconcelos Ferfoglia é Advogada e DPO de Gisele Truzzi Tech Legal Advisory.

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Sobre o Autor

Advogada especialista em Direito Digital e Segurança da Informação. CEO e sócia-fundadora de Gisele Truzzi Tech Legal Advisory.

Experiência de 20 anos na área do Direito Digital, dos quais 15 são à frente de seu próprio escritório, assessorando empresas e startups a alavancarem seus negócios neste mundo digital, com segurança jurídica, agilidade e inovação

Graduada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/SP, com pós-graduação em Segurança da Informação, e especialização em Direito Eletrônico pela FGV/RJ. Certificada em Direitos Autorais para a Internet pela Harvard Law School (parceria ITS-RJ).

Pós-graduanda em Neurociências, Comunicação e Desenvolvimento Humano (Centro de Mediadores, Brasília/DF).

Colunista do portal ITForum, para o qual escreve periodicamente sobre Direito e Tecnologia.

Autora de diversos artigos sobre temáticas relacionadas a Direito e Tecnologia, publicados em vários portais, sites, revistas e livros, tais como IstoÉ Dinheiro, Conjur, Galileu, IBDI/IOB, entre outros.

Coautora das obras jurídicas “Direito Digital: Debates Contemporâneos” (Org.: Ana Paula Canto de Lima e outras. RT, 2019) e “Manual de educação digital, cibercidadania e prevenção de crimes cibernéticos” (Org.: Higor Vinícius Nogueira Jorge. Juspodium; 2019)

Professora convidada em cursos de Pós-graduação e MBA, para lecionar disciplinas relacionadas ao Direito Digital, Proteção de Dados e Privacidade,  Compliance e Segurança da Informação (EPD/SP, PUC – Campinas, ESA/OAB, UNINASSAU, entre outras instituições).

Condecorada com a medalha Tobias Barreto, pela UNINASSAU/PE, pela qualidade dos serviços jurídicos prestados e compartilhamento de conhecimento com a sociedade.

Ministrou palestras e treinamentos sobre as temáticas nas quais atua, em diversas empresas, órgãos públicos e eventos, tais como: Exército, Tribunal Superior do Trabalho (TST), Escola de Magistratura (EMATRA), PRODAM, PRODESP, FENALAW, CNASI, ICCyber, entre outros.

Responsável pela coordenação de projetos de Compliance em várias empresas, em temáticas relacionadas à Proteção de Dados e Privacidade, Governança Corporativa e Segurança da Informação, entre outros assuntos.

Atualmente assessora diversas empresas que necessitam de suporte jurídico especializado em demandas relacionadas à Tecnologia. Ministra palestras e treinamentos in company.

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