Qual a responsabilidade das lideranças?
Por Gisele Truzzi e Georgia Vasconcelos Ferfoglia*
A discussão sobre o uso de Inteligência Artificial (IA) nas empresas lembra, em muitos aspectos, o debate sobre o uso de telas por crianças e adolescentes. Não é mais possível imaginar um mundo onde elas cresçam sem ter contato com celulares, tablets e computadores — e, convenhamos, também não faria sentido ignorar os benefícios que essas tecnologias trazem para o desenvolvimento cognitivo, o acesso à informação e ao lazer.
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Por outro lado, o uso excessivo, sem limites exatos ou supervisão, pode gerar problemas sérios. Com a IA nas empresas, a lógica é semelhante.
Para alguns, o cenário ainda é de resistência: há empresas tentando bloquear o uso da IA em todos os formatos, criando políticas de proibição generalizadas. A verdade é que a IA já faz parte do ambiente corporativo — com ou sem autorização formal.
Para gestores de TI e líderes empresariais, o caminho parece não ser ignorar ou proibir, mas assumir o protagonismo da governança dessa tecnologia. E é aqui que a área jurídica, especialmente o Direito Digital, surge como aliada estratégica.
A IA já começou a ganhar espaço em diferentes áreas corporativas. Em muitas organizações, está presente em sistemas de atendimento, automação de e-mails, emissão de relatórios financeiros, análise preditiva de dados e até em ferramentas de recrutamento. Mesmo que de forma sutil ou indireta, essa tecnologia vem sendo incorporada aos processos — e, quando bem aplicada, transforma a rotina operacional em algo muito mais estratégico e produtivo. Mas adotá-la vai muito além disso: é indispensável transformar a cultura, os fluxos de trabalho e, principalmente, as expectativas.
Assim como educadores e responsáveis devem estabelecer tempo de uso, tipo de conteúdo e supervisão para as telas, a liderança precisa criar um ambiente em que a IA seja aplicada com propósito, regras específicas e responsabilidade.
Na prática, isso significa definir diretrizes com atenção à proteção de dados e transparência dos resultados; capacitar colaboradores não apenas do ponto de vista técnico, mas também sob os aspetos ético e jurídico; oferecer opções seguras, de preferência homologadas; e monitorar continuamente a execução dos projetos.
O bloqueio total das atividades, além de ineficiente, transmite a mensagem de que a empresa não está preparada para lidar com a inovação de forma madura. A liberação de tecnologias sem critério, por sua vez, pode aumentar os riscos: vazamento de dados, decisões equivocadas, uso indevido de informações sensíveis e impactos legais.
Por isso, recomendamos os seguintes passos:
Seja qual for o porte, não é necessário complicar o uso da IA nas empresas. É possível integrá-la ao dia a dia com segurança jurídica, sem travar a inovação. O segredo está na clareza, na governança e na colaboração entre TI, jurídico e demais áreas de negócio.
Não se trata de escolher entre proibir ou liberar. Mas sim de incluir com responsabilidade, orientar com precisão e aplicar com consciência. “Esperar para ver” é abrir espaço para concorrentes mais ágeis. O risco não está em testar.
Fique de olho em algumas dicas práticas que podem pautar a definição de políticas e fluxos sobre o tema:
| INFORMAÇÕES A SEREM INSERIDAS:
Cuidado ao inserir dados em IAs como ChatGPT, Gemini, Copilot, entre outras |
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| O que não fazer | Ação indicada |
| · Não insira texto ou imagem que contenha dados pessoais (tais como nome, e-mail, CPF, conta bancária), informações da empresa (nome, CNPJ, e-mail corporativo) ou de clientes nos comandos;
· Não insira informações confidenciais, estratégicas, financeiras ou comerciais.
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· Realize perguntas direcionadas que possam te auxiliar e anonimize o conteúdo ao usar a ferramenta;
· Troque o nome de empresas ou pessoas, para que assim não possam ser identificadas; · Verifique se a informação compartilhada pela IA é verídica; · Entenda que a IA possui limitações, logo, ela deve ser utilizada como uma ferramenta de suporte, e não para substituir o julgamento e análise humanas. |
| TRANSCRIÇÃO DE REUNIÕES:
Como realizar uma transcrição de uma reunião com IA da forma correta |
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| O que não fazer | Ação indicada |
| · Não utilize uma ferramenta que não apresente segurança ou desrespeite a LGPD e/ou demais legislações brasileiras;
· Tenha cuidado com o conteúdo da transcrição e a possibilidade que o conteúdo deixe de ser confidencial. |
· Verifique a política de privacidade da ferramenta e termos de uso;
· Informe aos participantes da reunião que sobre a transcrição e a finalidade, e prossiga somente após a anuência de todos os participantes; · Armazene em um ambiente seguro; · Confira se o arquivo gerado traz corretamente as falas abordadas e compartilhe a transcrição da reunião com todos os participantes. |
| USO DE IMAGENS CRIADAS POR IA:
Como utilizar imagens criadas por IA de forma correta |
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| O que não fazer | Ação indicada |
| · Não deixe de verificar os termos de uso e a possibilidade de uso para fins comerciais.
· Não deixe de informar que a imagem foi criada por IA. |
· Certifique-se de que você tem os direitos necessários para utilizá-la. Algumas ferramentas de geração de imagens por IA oferecem licenças específicas para uso comercial ou pessoal. Confira sempre antes, inclusive para gerar imagens derivadas. |
*Gisele Truzzi é Advogada especialista em Direito Digital e Segurança da Informação. CEO de Gisele Truzzi Tech Legal Advisory; Georgia Vasconcelos Ferfoglia é Advogada e DPO de Gisele Truzzi Tech Legal Advisory.
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