Com o mercado global avançando rapidamente e a ANPD intensificando a fiscalização no Brasil, o desafio agora é estruturar governança sem comprometer a
Durante muito tempo, a governança de dados foi tratada dentro das empresas como uma camada necessária, mas essencialmente operacional, algo ligado a controle, compliance e organização. Na prática, acabou sendo associada a processos lentos, aprovações excessivas e dificuldade de acesso à informação. Esse entendimento até fez sentido em um determinado momento. Hoje, porém, ele já não responde à forma como os dados impactam a operação, a tomada de decisão e a geração de valor.
À medida que os dados passaram a ocupar um papel central na estratégia, seja para orientar decisões, desenvolver produtos ou abrir novas frentes de receita, a forma como as empresas estruturam sua governança passou a influenciar diretamente sua capacidade de execução. Este é um tema que já não está restrito à área técnica, e aparece no ritmo do negócio, na qualidade das decisões e na capacidade de escalar iniciativas. O dilema entre controle e agilidade continua presente, mas ganha outro contorno: é preciso avançar sem que um limite o outro.
Quando se observa o movimento de mercado, essa mudança fica evidente. O avanço acelerado do segmento de governança de dados, que deve alcançar US$ 15,86 bilhões e crescimento anual de 18,89% até 2032, segundo relatório da SNS Insider, não acontece por acaso: acompanha a crescente dependência das empresas de dados mais organizados e confiáveis.
Isso fica ainda mais claro quando olhamos para iniciativas de analytics avançado, inteligência artificial e personalização. Todas elas dependem de uma base acessível e bem definida. Sem isso, o que se vê são projetos que avançam até certo ponto, mas não conseguem se sustentar no tempo nem gerar impacto relevante.
No Brasil, esse cenário ainda convive com um certo atraso na percepção de risco. A LGPD já está em vigor há alguns anos, mas a aplicação de sanções, até aqui, foi relativamente limitada. Isso contribuiu para que muitas empresas tratassem o tema de forma gradual, sem a urgência que ele, na prática, exige. Embora a maioria das empresas já tenha conhecimento da legislação, poucas avançaram de forma consistente na sua implementação.
Esse contexto, no entanto, começa a mudar. A atuação mais recente da ANPD aponta para um aumento de rigor e escala na fiscalização, o que tende a elevar rapidamente o nível de exigência sobre as organizações.
Na prática, a ausência de uma governança bem estruturada se traduz em problemas recorrentes: dificuldade de acesso a dados no momento necessário, inconsistências entre diferentes fontes de informação, retrabalho e baixa confiança nos dados utilizados para tomada de decisão. Em paralelo, iniciativas de dados e inteligência artificial frequentemente ficam restritas a pilotos, sem conseguir ganhar escala.
Esse é um padrão frequente em empresas que já avançaram em dados, analytics e inteligência artificial, mas ainda encontram dificuldade para transformar esses esforços em escala, eficiência e resultado de negócio. Na maior parte dos casos, o entrave não está na falta de investimento em tecnologia, mas na ausência de uma base organizada que permita converter esse avanço em retorno concreto. Em geral, o desafio não está na tecnologia em si, mas na forma como os dados estão organizados, acessados e governados, o que acaba limitando a execução e, com o tempo, comprometendo a capacidade de capturar valor.
Quando esse ponto passa a ser tratado como prioridade, os efeitos costumam aparecer de forma concreta: o acesso a dados melhora, a confiança nas informações aumenta, as decisões ganham consistência e as iniciativas deixam de depender de esforço excessivo para avançar.
Hoje, já existem abordagens mais maduras para lidar com esse desafio. Arquiteturas como Data Mesh e Data Fabric permitem distribuir a responsabilidade sobre os dados entre as áreas de negócio, mantendo padrões comuns de governança. Isso reduz a dependência de um único ponto central e aproxima os dados de quem efetivamente os utiliza.
Da mesma forma, o uso de ferramentas baseadas em inteligência artificial vem simplificando atividades que historicamente exigiam grande esforço manual, como catalogação, classificação de dados sensíveis e monitoramento de qualidade. Isso torna os processos mais ágeis e menos suscetíveis a erros.
Outro ponto relevante é a forma de implementação. Em vez de grandes iniciativas centralizadas, que levam meses para gerar resultado, tem se mostrado mais eficaz começar pelos dados mais críticos e evoluir de forma incremental, alinhando a governança às prioridades do negócio.
Por fim, há um aspecto que costuma ser subestimado, mas que faz diferença no longo prazo: cultura. Sem um nível mínimo de entendimento sobre dados dentro das áreas, qualquer modelo de governança tende a gerar dependência e, eventualmente, novos gargalos. É nesse ponto que Data Literacy faz diferença. Mais do que capacitação, trata-se de ampliar a responsabilidade sobre o uso de dados em toda a organização, reduzindo dependências excessivas e fortalecendo uma cultura em que as áreas compreendam melhor o valor e os riscos das informações.
Na prática, essa diferença aparece com bastante clareza: empresas que organizam melhor seus dados avançam com mais previsibilidade, enquanto as demais passam a carregar um nível crescente de complexidade. Mas o caminho para corrigir este cenário existe e passa pela governança, que se consolida como base para sustentar o uso de dados em escala. Ela não resolve tudo, mas define com mais clareza os limites e as possibilidades de execução do negócio.
Esse é um ponto recorrente nas conversas com nossos clientes: chega um momento em que avançar em dados já não é algo que exija novas iniciativas, e sim uma melhor estrutura. Sem isso, o crescimento perde consistência e os resultados não se sustentam ao longo do tempo.
Hoje, a capacidade de escalar um negócio passa cada vez mais pela forma como os dados são organizados, acessados e incorporados à operação. Não por falta de tecnologia ou ambição, mas porque, sem essa base, o crescimento perde consistência. E a sua empresa, até que ponto está preparada para sustentar o uso de dados em escala?
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