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Até onde vai a guerra das fintechs?

Imagem: Shutterstock

Por Amure Pinho

A guerra das fintechs se tornou um dos movimentos estratégicos mais intensos da economia contemporânea. O que começou como disputas pontuais por nichos, como carteiras digitais, pagamentos e crédito ao consumo, evoluiu para uma competição de escala sistêmica, em que startups, neobancos, big techs, bancos tradicionais e provedores de infraestrutura disputam o controle dos sistemas que movimentam o dinheiro.

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Se antes a narrativa girava em torno da “disrupção” conduzida por empresas ágeis e pouco reguladas, hoje envolve capital, governança, tecnologia avançada e modelos capazes de sustentar margens em um ambiente mais exigente.

O enfraquecimento do ciclo de capital de risco entre 2023 e 2024 deu novo contorno a esse campo de batalha. O investimento global em fintechs caiu para cerca de US$ 95 bilhões em 2024, com queda no número de deals e maior seletividade por parte dos fundos. A fase do “crescimento a qualquer custo” ficou para trás: investidores agora buscam margens claras, unit economics sólidos e rotas tangíveis para lucratividade.

Ainda assim, o setor demonstrou resiliência. No Brasil, diversas fintechs alcançaram lucro operacional em 2024, e análises apontam que a receita agregada dos players mais maduros cresceu acima do ritmo dos bancos tradicionais, impulsionada por monetização de produtos, aumento de receita por cliente e ganhos de eficiência.

Nesse ambiente mais rígido, as frentes de disputa se multiplicaram. A primeira é a aquisição de clientes, cada vez mais cara. Com o aumento expressivo dos custos de mídia paga e da disputa por atenção, muitas fintechs passaram a priorizar parcerias B2B, modelos de embedded finance e distribuição via plataformas de varejo, mobilidade e software empresarial. Nesse sentido, colocar serviços financeiros dentro de apps já consolidados tornou-se uma estratégia de sobrevivência e escala: é mais barato captar clientes integrando crédito, conta ou pagamento a um ecossistema existente do que tentar conquistar o consumidor final por campanhas diretas.

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A segunda frente é a infraestrutura. O coração da guerra hoje está na disputa entre plataformas que oferecem contas digitais, serviços bancários “as a service”, processamento de pagamentos e soluções de dados. Quem controla a infraestrutura controla a margem, o ritmo de inovação e o relacionamento com empresas que distribuem serviços financeiros. Isso explica por que bancos tradicionais, por exemplo, tornaram-se parceiros e, simultaneamente, concorrentes de fintechs de infraestrutura, criando um cenário de “coopetição” permanente.

O terceiro campo crítico é o regulatório. À medida que as fintechs avançam para crédito, investimentos e serviços cross-border, aumentam também as exigências de governança, compliance e capital. A resposta das empresas se divide: algumas buscam licenças bancárias completas, outras preferem operar por meio de parcerias regulatórias. A estratégia, porém, tem impacto direto na competição, pois a regulação define quem pode crescer mais rápido e quem consegue capturar maior parte da cadeia de valor sem comprometer a margem.

Regionalmente, a América Latina exemplifica como a guerra se comporta em mercados emergentes. A região viu seu número de fintechs quadruplicar em seis anos, impulsionada por inclusão digital massiva, demandas por serviços financeiros mais eficientes e regulação favorável. Porém, é também um dos terrenos onde a consolidação se acelera mais rapidamente: margens apertadas, volatilidade econômica e custo de capital elevado forçam fintechs latino-americanas a buscar fusões, aquisições ou expansão internacional para diversificar receita.

Há, ainda, o front tecnológico. O uso avançado de dados tornou-se fator decisivo: scoring alternativo, precificação flexível de crédito, ofertas personalizadas, automação de compliance e modelos generativos que otimizam desde atendimento até análise de risco. Nesse ponto, grandes neobancos, com dezenas de milhões de clientes, assim como big techs, saem na frente pela capacidade de treinar modelos com bases massivas e testar produtos com ciclos curtos. Isso gera uma assimetria relevante: enquanto algumas fintechs lutam para alcançar escala mínima, outras caminham para desempenhar papel quase sistêmico em seus mercados.

Com tantas frentes simultâneas, até onde vai essa guerra? O cenário mais provável combina consolidação com amadurecimento. Fintechs pequenas e médias tendem a ser adquiridas; plataformas de software e bancos devem estabelecer alianças duradouras com players especializados; e um pequeno grupo de vencedores, aqueles com escala, tecnologia própria, diversificação de receita e disciplina regulatória, deve dominar fatias significativas do mercado. Ao mesmo tempo, nichos continuarão existindo, sustentados por expertise específica, experiência superior ou foco em comunidades antes negligenciadas pelos grandes incumbentes.

Mas há limites. A competição extrema também traz riscos: concentração excessiva de dados, dependência de infraestrutura privada, desafios de privacidade e possíveis aumentos de custo para consumidores caso o número de players diminua demais. Por isso, o papel regulatório seguirá crescendo, pressionando o setor a equilibrar inovação, segurança e responsabilidade.

No fim, a guerra das fintechs não caminha para uma vitória absoluta de um lado sobre outro, mas para uma reorganização profunda da indústria financeira. O futuro será menos sobre ruptura e mais sobre integração: quem dominar tecnologia, dados, governança e distribuição ao mesmo tempo definirá o próximo capítulo. Até lá, a disputa continua cada vez mais sofisticada, cada vez mais estratégica, e cada vez mais determinante para o modo como indivíduos e empresas lidam com dinheiro no mundo digital.

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Published by
Pamela Sousa
Tags: #fintech
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