O lugar de onde lideramos: a teoria U e o custo do silêncio na era agêntica

Em um cenário de IA, a liderança exige mais que dados: exige presença. De Trancoso, reflito como a Teoria U e a escuta generativa moldam o futuro

Publicado:

Leitura 4 minutos

Otto Scharmer, professor sênior do MIT, fundador do Presencing Institute e autor de Theory U, durante palestra no IT Forum Trancoso 2026 (Imagem: PlayP)
Otto Scharmer, professor sênior do MIT, fundador do Presencing Institute e autor de Theory U, durante palestra no IT Forum Trancoso 2026 (Imagem: PlayP)

Por Renata Marques

Neste ano, minha experiência no IT Forum teve um sabor diferente. Ao atravessar os jardins do Club Med em Trancoso, eu não carregava a pressa das agendas de negócio de uma CIO. Estava lá como convidada de um painel, uma posição que me destituiu da “armadura funcional” e me devolveu algo precioso: o lugar da observadora.

As melhores notícias de tecnologia B2B
Acompanhe todas as novidades diretamente na sua caixa de entrada

Longe do modo de combate das decisões de parcerias e infraestrutura, pude notar nuances que a correria do KPI costuma atropelar. E foi nesse estado de abertura que as reflexões de Otto Scharmer sobre a Teoria U ressoaram não como teoria acadêmica, mas como um diagnóstico urgente da nossa liderança.

Leia também: O humano no centro da empresa viva

A condição interna do líder

Scharmer nos confronta com uma premissa poderosa: o sucesso de uma intervenção depende da condição interna de quem intervém. Em termos executivos: a eficácia da sua estratégia de IA ou da sua transformação cultural não depende apenas das ferramentas, mas do lugar interno de onde você opera.

Ao observar meus pares entre um debate e outro, notei como a “Era Agêntica” tem nos deixado ansiosos. Se a IA agora processa e executa com precisão sobre-humana, o que resta ao executivo? Resta-nos a qualidade da nossa presença.

O diagnóstico da escuta: onde você operou hoje?

O coração da Teoria U reside nos quatro níveis de escuta. Convido você a fazer uma autópsia honesta da sua postura nas reuniões desta semana:

  1. Escuta por “download” (O cárcere do ego): é aquela reunião onde você já entra com a resposta pronta. O time apresenta um risco, mas você apenas busca confirmação para o seu plano. Aqui, a inovação morre por asfixia. Você ouve apenas o eco das suas certezas passadas para resolver problemas de 2026. 
  2. Escuta factual (o olhar do analista): você abre a mente para dados divergentes. É útil, mas é frio. É o nível onde a IA brilha. Se o seu valor como líder é apenas identificar desvios em relatórios, você está competindo com um algoritmo que não dorme.
  3. Escuta empática (a ponte H2H): é quando você para de olhar para o gráfico e olha para a pessoa. Nos corredores do Club Med, percebi que as conversas mais ricas não eram sobre cloud, mas sobre a exaustão das estruturas e a busca por propósito. Quando o líder sente a temperatura do time, ele deixa de “gerir recursos” e começa a nutrir confiança. Isso é Human to Human na veia.
  4. Escuta generativa (o estado de presencing): é o nível mais alto. É o silêncio que permite que o novo emerja. Vi isso acontecer quando líderes, despidos de seus cargos, pararam de defender orçamentos para cocriar caminhos que nenhum deles tinha previsto sozinho. É desse lugar que surgem as decisões corajosas que transformam o P&L e a cultura.

A IA como alavanca do humano

A tecnologia agêntica não veio para nos substituir, mas para nos “empurrar” para cima na escala de Scharmer. Se os agentes de IA cuidarem da escuta factual e da automação do óbvio, eles nos devolvem o que temos de mais escasso: tempo para a escuta generativa.

Minha jornada pessoal, marcada pela pergunta “Quem disse que não é para mim?”, ganha aqui um novo capítulo. Esse “lugar” que reivindicamos não é apenas uma cadeira no board; é o espaço interno de quem tem a coragem de silenciar o ruído das notificações para ouvir o que está tentando nascer na organização.

O convite ao desconforto

A jornada do “U” é uma escolha diária entre a arrogância do saber acumulado e a humildade da descoberta. Para liderar o sistema complexo do lado de fora, você terá que dominar o sistema ainda mais complexo que habita aí dentro.

Ao fechar este artigo e retornar para sua próxima decisão estratégica, questione-se: sua escuta está servindo para proteger o seu passado ou para dar à luz o seu futuro?

Se você ainda duvida que essa liderança consciente, humana e sensível é para você, eu respondo com a convicção de quem aprendeu a ouvir o silêncio de Trancoso antes de ouvir o mercado: é para você, sim.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

Sobre o Autor

Apaixonada por gente e por construir pontes entre pessoas e Negócios. Acredita na tecnologia humanizada, que possa ser usada para melhorar a vida das pessoas e das organizações.

Construiu sua carreira passando por diversas indústrias como Agro, Farma, Bens de Consumo duráveis e dede 2020  na Natura &co ocupa a posição de CIO para América Latina, trabalhando na integração de empresas e processos de negócios, como também na evolução Digital de Cloud, Dados e engenharia de produtos. Lidera e apoia movimentos internos e externos de mulheres tech  na liderança, como também iniciativas de educação na formação de jovens em tecnologia, contribuindo no impacto na sociedade. É cofundadora da trilha C2T da Gonew.Community, formação de membros de conselho em tecnologia.

Formada em Processamento de Dados pelo Mackenzie, com pós-graduação em Administração de empresas pela FAAP e MBA executivo pela Universidade de Pittsburgh-Katz.

 

Ver publicações deste autor

Colunas relacionadas