A maioria das empresas não falha em IA por causa da tecnologia, mas pela falta de clareza estratégica antes de adotá-la.
A conversa sobre inteligência artificial nas empresas quase sempre começa no ponto errado. Começa na ferramenta, no modelo, na qualidade dos dados, na governança e na arquitetura. Tudo isso importa, mas ainda assim não explica por que tanta iniciativa aparentemente bem montada produz tão pouco efeito relevante no negócio.
O problema, na maior parte dos casos, aparece antes de a tecnologia entrar em cena.
IA deixou de ser apenas uma agenda de experimentação e virou uma agenda de pressão. Não tanto pela tecnologia em si, mas pelo ambiente que se formou em torno dela. O mercado se movimenta, concorrentes anunciam iniciativas, fornecedores prometem solução para tudo e conselhos cobram posicionamento. Assim, ficar de fora passou a parecer mais arriscado do que entrar sem saber direito por quê.
Uma pesquisa da McKinsey & Company mostra que mais de metade das empresas já adotou algum tipo de IA. O número sugere avanço, mas também mostra que muita gente entrou no jogo antes de entender qual jogo queria de fato transformar.
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Dentro das empresas, a lógica costuma ser parecida. O investimento em IA não nasce de uma pergunta bem feita sobre o negócio, nasce da pressão externa. O concorrente está fazendo, o mercado só fala disso, alguém apresenta um case e, em pouco tempo, não fazer nada passa a soar como omissão. A decisão deixa de ser estratégica e vira reflexo.
Quando a decisão nasce desse jeito, a execução se fragmenta. Surgem iniciativas em atendimento, marketing, operações, vendas e analytics. Cada frente melhora um indicador, cada área apresenta algum ganho e cada projeto parece justificável isoladamente. O problema é o conjunto. A empresa soma pilotos, provas de conceito e automações, mas não constrói uma direção clara nem altera de fato sua posição competitiva.
O erro aparece também na forma como o objetivo é formulado, e normalmente quando ele é formulado. Pergunta-se para que a IA vai servir e surgem respostas genéricas demais para orientar decisão de verdade. Vasmo ganhar eficiência, reduzir custo e melhorar a experiência. Todas são defensáveis, mas nenhuma, sozinha, ajuda a escolher onde entrar, o que priorizar e o que deixar de lado. Sem esse filtro, quase toda aplicação parece fazer sentido, e a tecnologia começa a avançar por impulso, não por necessidade concreta do negócio.
Os sinais de frustração já aparecem. Um estudo do IBM Institute for Business Value indica que apenas uma parcela das empresas consegue capturar valor consistente com IA, mesmo com o aumento dos investimentos. Nesses casos, é comum culpar integração, talento ou qualidade de dados. Muitas vezes, porém, o problema é mais simples, a empresa investiu sem ter definido o que precisava melhorar.
Há ainda um assunto menos discutido, mas fácil de observar, o fascínio pela tecnologia. IA funciona bem o suficiente para convencer rápido. Automatiza, responde, gera e decide. A conversa passa a girar em torno de como usar melhor, e não de onde faz sentido usar. A pergunta muda de lugar sem que ninguém perceba.
Isso mexe em tudo mais do que parece. O atendimento fica mais ágil, mas também mais transacional. A comunicação ganha escala, mas perde densidade. O relacionamento passa a ser conduzido por fluxos que resolvem demandas, mas raramente constroem algo além disso. Como os indicadores operacionais melhoram, a sensação é de avanço, nem sempre de fato.
IA não cria esse movimento, mas acelera e amplifica o que já estava mal resolvido. Se não existe clareza sobre o tipo de experiência que se quer entregar ou sobre o papel que a empresa quer ocupar, a tecnologia transforma essa indefinição em processo. E processo, quando escala, fica difícil de rever.
É por isso que tantas iniciativas parecem corretas no detalhe e irrelevantes no conjunto. Resolvem partes, ajustam métricas, geram ganhos incrementais. Não mudam o jogo. A tecnologia entrega o que foi pedido, o problema é que, muitas vezes, o pedido foi pequeno demais.
A pergunta inicial está invertida. Em vez de começar pelo que a IA permite fazer, a empresa deveria começar pelo que precisa mudar no negócio, e por quê. Sem essa resposta, a tendência é seguir abrindo frentes ao mesmo tempo, acumulando bons indicadores locais e baixo impacto estratégico.
No fim, a IA não resolve direção, só acelera o que a empresa já vinha fazendo, certo ou errado.
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