Entre estoicismo e IA, o professor Luis Vabo Jr. defende que sete práticas filosóficas são tão urgentes quanto qualquer ferramenta tecnológica
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O professor e empresário Luis Vabo Jr. encerrou a terceira e última manhã do Filosofia da TecnologIA com uma aula sobre o que chamou de “as regras do jogo da vida”: um conjunto de sete práticas filosóficas, ancoradas sobretudo no estoicismo, que ele defende como tão urgentes quanto qualquer ferramenta de inteligência artificial.
Engenheiro de formação, com passagem por startups, mercado financeiro e três universidades brasileiras, Vabo abriu a sessão com uma votação. Perguntou à plateia de executivos se o mundo de hoje havia evoluído em relação ao mundo de 2.300 anos atrás. Quase todos levantaram a mão concordando. Então reformulou: e do ponto de vista humano e emocional?
“A evolução técnica e científica é incontestável. Mas continuamos com guerra, violência, discriminação, corrupção e crise de saúde mental. Os modelos de linguagem avançam, e o ser humano continua mentindo e brigando em família. Do que adiantou?”, diz.
Essa pergunta atravessou toda a apresentação como fio condutor.
Antes de apresentar as sete práticas, Vabo organizou três diagnósticos.
O primeiro: a evolução técnica não foi acompanhada por avanço proporcional no comportamento humano. O segundo: há uma “pandemia silenciosa” de indiferença, presenteísmo e vitimismo nas organizações e nas famílias. Presenteísmo, explicou, é o fenômeno em que a pessoa está fisicamente presente no trabalho, mas com a atenção em outro lugar.
O terceiro diagnóstico foi o mais filosófico. Os cinco sentidos humanos são insuficientes para traduzir toda a realidade. Exibiu uma imagem estática que parece se mover para ilustrar o ponto. “A realidade não está se mexendo. A interpretação ocular traz algo diferente. Se existem ilusões de ótica, que outros elementos podem estar distorcendo nossa leitura do mundo?”, questiona.
Citou o espectro eletromagnético: o olho humano enxerga apenas um fragmento. Wi-Fi, micro-ondas e raio X existem sem que ninguém os veja. “Operamos como se os cinco sentidos bastassem para entender o todo. A questão é se bastam.”
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Vabo contou a parábola do fazendeiro chinês cujo único cavalo foge. Os vizinhos lamentam. Ele responde: “Talvez sim, talvez não.” O cavalo volta trazendo outros três. Os vizinhos comemoram. Ele mantém a mesma resposta. O filho cai de um dos cavalos e quebra a perna. Dias depois, o exército recruta todos os jovens da aldeia. O filho, por causa da fratura, fica em casa.
“As coisas não são boas ou ruins em essência. O que define é a interpretação que se dá a elas”, diz. “Os navios não afundam porque estão rodeados de água. Afundam porque deixam a água entrar.”
Propôs uma inversão sobre fracasso: “O oposto do sucesso não é o fracasso. O fracasso é um degrau para o sucesso. O oposto do sucesso é desistir.”
Em 2022, com a esposa grávida, Vabo foi assaltado em São Paulo. A pergunta que se fez depois não foi de quem era a culpa, mas de quem era a responsabilidade. A resposta foi desconfortável: dele mesmo.
“Escolhi estar ali naquele momento. Escolhi não ter película antivandalismo no carro. Estava distraído, conduzindo uma reunião no meio do trânsito”, diz. “Não controlo o que acontece comigo. Controlo como reajo.”
Como resposta ao episódio, produziu uma cartilha de orientações de prevenção e conduta pós-assalto e distribuiu pela rede. Mais de 20 pessoas entraram em contato para agradecer, segundo ele. “E o mais importante: voltei para casa. Minha filha nasceu com saúde. Estar vivo já é uma oportunidade.”
Do latim, amor ao destino. Vabo descreveu um período como subsíndico do prédio onde mora, em que um vizinho hostil o irritava com regularidade. Depois de meses nesse ciclo, percebeu que o vizinho funcionava como professor involuntário de paciência. E de compaixão.
“O encontrava por um ou dois minutos no elevador. Ele convive consigo mesmo 24 horas por dia”, diz. Passou a tratá-lo com mais gentileza. Em seis meses, os encontros cessaram.
Para chegar ao amor fati, Vabo encadeou três etapas: aceitação, que definiu como parar de resistir ao que já aconteceu; perdão; e gratidão. Usou a história de dois monges: um carregou uma mulher nos braços por dois minutos para tirá-la de um rio onde se afogava; o outro carregou o episódio na cabeça por dez horas, perturbado com a quebra do voto de celibato do companheiro. “Por quanto tempo carregamos fatos que já passaram?”
A quarta prática, ser “infisgável” em tradução aproximada, foi apresentada como a mais trabalhosa. A ideia central: ninguém retira outra pessoa do sério; o que existe é a própria pessoa cedendo esse poder.
“Do que adianta dominar as ferramentas de inteligência artificial se, na primeira situação de conflito, o executivo perde o equilíbrio?”, pergunta. “Só existe violência externa porque existe uma violência interna sendo manifestada.”
Mostrou a palavra tatuada no braço. “Coloquei aqui para não esquecer.”
Memento mori, “lembra que você vai morrer”, serviu de antídoto ao excesso de ego. Vabo recorreu ao xadrez: no fim do jogo, todas as peças voltam para a mesma caixa, do peão à dama.
“Não existem pessoas extraordinárias. Existem pessoas comuns que fazem coisas extraordinárias. E confundimos as realizações com o ser”, diz.
O Summum Bonum, o bem supremo da tradição estoica, foi apresentado como bússola de escolhas. As quatro virtudes cardinais, sabedoria, coragem, justiça e temperança, foram o mapa prático.
Na virtude da justiça, citou um monge budista tibetano torturado por décadas pelo exército chinês. Ao retornar, o monge diz que quase perdeu a compaixão pelo torturador. Quase. “O ato é condenável. Quem o praticou age a partir de uma ignorância profunda de si mesmo, e por isso merece compaixão.”
A escola de Thomas Edison enviou à mãe uma carta informando que o menino tinha dificuldades de aprendizado e seria expulso. A mãe leu ao filho que a escola o considerava brilhante demais para aquele ambiente e recomendava educação domiciliar. Edison foi educado em casa. Décadas depois, ao revisar um baú, encontrou a carta original.
“A mãe não acreditou no que foi imposto. Acreditou no que via no filho”, diz Vabo. “Nossas crenças são variações de dois elementos: não consigo ou não mereço. E ambos costumam ser histórias que a própria mente constrói.”
Citou a relação entre esforço e talento: “O esforço supera o talento quando o talento não se esforça. Mas quando o talento se dedica, não há competição.”
A última prática partiu de uma imagem: uma célula do estômago que decide atacar o rim. Quem perde não é o rim. É o organismo inteiro.
“Somos células de um organismo maior. O que é ruim para a colmeia é ruim para a abelha”, diz, parafraseando Marco Aurélio. “Quando alguém fala mal de outra pessoa, revela mais sobre si do que sobre o outro.”
Apontou a “ilusão da separação”, a crença de que o eu e o outro são entidades completamente distintas, como a causa raiz das dores humanas. Fome, violência e falta de amor seriam consequências. “Prejudicar o outro passa a fazer menos sentido quando se entende que, no fundo, é uma forma de se prejudicar.”
Para encerrar, Vabo pediu à plateia que imaginasse o último dia da própria vida e respondesse por escrito: que ser humano você se tornou? O que cultivou? O que eliminou? Que legado deixou?
“A ideia não é gerar ansiedade em relação a um futuro distante. É identificar um passo nessa direção que possa ser dado hoje”, diz.
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