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Redesenhar a liderança é a inovação mais urgente da tecnologia

Imagem: Shutterstock

Por Thais Fischberg

Minha trajetória profissional não seguiu um caminho linear. Comecei no marketing e, anos depois, encontrei no setor de tecnologia e pagamentos uma oportunidade de impacto e inovação. Como mulher e LGBTQIA+, construí minha carreira atravessando espaços que, historicamente, não foram desenhados para pessoas como eu. Cada transição ampliou meu repertório e cada ambiente desafiador reforçou ainda mais minha convicção: a inovação nasce do encontro entre perspectivas diferentes, e não da repetição de padrões já conhecidos. É por isso que defendo que a liderança feminina no setor de tecnologia é parte central da transformação que o próprio mercado busca promover.

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Durante muito tempo, diversidade como um todo, foi tratada como pauta paralela, quase um apêndice das discussões estratégicas. No setor de tecnologia, no qual decisões ganham escala e impacto exponencial, ignorar pluralidade é comprometer a própria capacidade de evoluir. Diversidade e equidade de gênero precisam ser vistas como motores reais de inovação e crescimento – não apenas em março, no mês da Mulher, mas no ano inteiro. É preciso reafirmar que a participação feminina não deve ser vista como valor e gesto simbólico, mas como decisão estrutural. E decisões estruturais moldam o futuro dos negócios.

A matemática da inovação ainda não fecha quando falamos de gênero. Embora as mulheres representem 39% da força de trabalho global e, há décadas, desempenhem funções que exigem habilidades em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, elas ainda ocupam apenas 25% das posições nessas áreas e somente 9% dos cargos de CEO em empresas de tecnologia. Os dados são do relatório Unlocking Women’s Leadership Through STEM Skills Programmes, do Boston Consulting Group, em parceria com o Women’s Forum for the Economy & Society.

Leia mais: CI&T: 52% dos funcionários se identificam como parte de grupos minoritários

O mercado se orgulha de resolver problemas complexos de tecnologia com eficiência, mas mantém uma assimetria estrutural justamente em sua própria composição de liderança. Esses modelos até funcionam no curto prazo, mas acumulam um tipo silencioso de débito técnico na inovação. Quanto mais homogêneas as decisões, maior o risco de criar soluções limitadas. E, mais cedo ou mais tarde, essa conta chega.

No setor de pagamentos, falamos muito sobre “arquitetura sem fricção”. Criar experiências fluidas, remover barreiras invisíveis e antecipar ruídos antes que se tornem obstáculos. Ao longo da minha trajetória, percebi que essa lógica também se aplica à gestão. Organizações são sistemas complexos. Quando ignoram assimetrias ou deixam talentos à margem, criam fricções internas que limitam crescimento, criatividade e competitividade.

Já estive em muitas reuniões em que era a única mulher na sala. No início, a tendência era ajustar o tom, medir palavras, evitar tensionar o ambiente. Com o tempo, compreendi que minha voz não era um ruído no sistema, e sim uma parte essencial da equação. Usá-la com clareza e consciência deixou de ser apenas uma questão de posicionamento pessoal e se tornou uma ferramenta de liderança.

A diversidade de experiências cria um radar mais apurado para identificar fricções invisíveis.

Quem já esteve fora do eixo central aprende a perceber mais rápido desalinhamentos que passam despercebidos por estruturas homogêneas. Isso vale para produtos, para cultura
organizacional e para estratégia. Reconhecer essas assimetrias não é fragilidade. Muito pelo contrário: é inteligência operacional aplicada à gestão.

Na Adyen, aprendi que a verdadeira eficiência depende de visão sistêmica. E visão sistêmica só existe quando ampliamos quem participa das decisões. Times diversos fazem perguntas melhores, antecipam riscos com mais precisão e constroem soluções mais resilientes. Eliminar as barreiras que impedem esse tipo de dinâmica deve ser encarado como uma exigência competitiva.

Para mim, o maior compromisso das lideranças é revisar a arquitetura dos próprios sistemas que comandam. Perguntar quem está na mesa, quem ficou de fora e quais fricções estamos naturalizando. Toda organização que ignora essas questões compromete sua capacidade de inovar de forma sustentável. O futuro da tecnologia será definido não apenas pelo avanço das ferramentas, mas pela coragem de redesenhar estruturas.

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Isabella Winckler
Tags: diversidadeESGliderança
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