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IA, genoma e soberania científica: quem controla a saúde do futuro?

Publicado: 10/04/2026 às 15:34

Leitura 9 minutos

PAMELA SOUSA (MEDIAÇÃO, TEXTO E PRODUÇÃO), FABIANA ROLFINI (PESQUISA)

DIEGO ARISTIDES, COFUNDADOR DA STELULLA E CEO DO THE COLLAB; E SONIA CASTRAL, ESPECIALISTA DO IT FORUM INTELIGÊNCIA

CAPTAÇÃO E EDIÇÃO DE VÍDEO: VORAZ FILMES

Desenvolver um medicamento do zero pode levar de 12 a 15 anos. Com a inteligência artificial (IA) aplicada ao design molecular e à análise de bases de dados científicas, esse ciclo já começa a encolher e, em casos como a parceria entre a Cleveland Clinic e a IBM com computação quântica, o que levaria oito anos foi comprimido para oito meses. A aceleração é real. Mas ela levanta uma questão que vai muito além da tecnologia: quem detém esse conhecimento e quem ficará de fora quando ele mudar tudo?

Essa é a provocação central do episódio de estreia do IT Forum Series, que reuniu Diego Aristides, cofundador da Stelulla e CEO do The Collab, e Sonia Castral, especialista do IT Forum Inteligência.

Leia também: Como o prontuário universal pode mudar o sistema de saúde? 

A IA que entrou no laboratório

Para Sonia Castral, a entrada da inteligência artificial na indústria farmacêutica já é fato consumado, mas com fronteiras bem definidas. Ela atua principalmente na fase inicial de pesquisa: no estudo de moléculas e na análise de grandes bases de dados científicas.

“A inteligência artificial atua hoje principalmente no estudo da molécula e na análise da base de dados sobre ela. Com isso, reduz pelo menos dois a três anos dessa pesquisa”, explica Sonia. O limite, por ora, está nos estudos clínicos: ensaios com pacientes seguem exigindo etapas presenciais que a tecnologia ainda não substituiu.

“O processo que levaria quase oito anos foi reduzido para oito meses”, afirma Diego Aristides, ao comentar a parceria entre a Cleveland Clinic e a IBM com computação quântica.

Diego Aristides vai além e situa a IA dentro de um ecossistema mais amplo de tecnologias profundas, o chamado deeptech, que inclui computação quântica, biotecnologia, ciência de materiais e realidade mista. Para ele, o salto mais relevante não está nos grandes modelos generativos, mas nos algoritmos especializados, treinados com bases de dados privadas e científicas.

“Quando a inteligência artificial é aplicada em um modelo bem delimitado, configurado e especializado, o resultado muda completamente”, diz Aristides. “É a tecnologia potencializando as capacidades do pesquisador que está na ponta.”

Soberania científica e a corrida das patentes

Até 2028, cerca de 280 patentes de medicamentos importantes vencerão globalmente. Entre elas estão remédios amplamente utilizados. A queda recente da patente da semaglutida, princípio ativo das chamadas “canetinhas”, já movimentou o mercado. Segundo Aristides, há atualmente 18 farmacêuticas com processos na Anvisa para registrar versões genéricas do produto.

Esse vencimento em massa representa uma janela de oportunidade, mas também um diagnóstico preocupante. Segundo dados citados no episódio com base em relatório do JP Morgan, a China lidera hoje os investimentos globais em biotecnologia, seguida pelos Estados Unidos. A média global de investimento anual no setor é de 19 milhões de dólares. O Brasil investe 14,2 milhões, abaixo da média global.

Em healthtech especificamente, o País aplica cerca de 1,5 bilhão de dólares por ano. Um número que, para os convidados, reflete movimento crescente, mas ainda insuficiente diante do potencial do Brasil.

“Quando a pesquisa está prestes a valer dois bilhões, o pesquisador já está na Alemanha ou na Suíça, com a patente praticamente vendida”, afirma Diego Aristides.

O Brasil tem um portfólio científico de peso: universidades federais e estaduais, Fiocruz, Instituto Butantan e uma base de dados de pacientes do SUS que atende mais de 70 milhões de pessoas, volume comparável ao do Reino Unido e da China. Sonia Castral é direta: “O portfólio de cientistas brasileiros é fantástico.” O problema, segundo ela, está em converter esse ativo em patentes e em produtos que permaneçam no País.

A fuga de talentos é um sintoma concreto dessa lacuna. Pesquisadores brasileiros são valorizados no exterior justamente pela capacidade de operar em múltiplas frentes simultaneamente, característica que, em outros países, exigiria quatro ou cinco especialistas. “Perdemos muitos pesquisadores para o mercado externo”, reconhece Sonia.

Regulação, Anvisa e o atalho pela FDA

A discussão sobre regulação revelou um paradoxo prático: algumas startups brasileiras têm optado por buscar aprovação da FDA americana antes de submeter seus produtos à Anvisa, porque o aval norte-americano acelera o processo regulatório brasileiro.

“Eles preferiram ir para os Estados Unidos, gastar dinheiro, montar uma base lá, conseguir aprovação da FDA para depois voltar para o Brasil”, relata Aristides.

Sonia reconhece que a Anvisa avançou em alguns pontos, como a recente regulação que passou a exigir estudos de bioequivalência também para medicamentos similares, não apenas genéricos. Mas avalia que o órgão ainda carece de um foco mais estruturado em inovação. “Para ela, o que importa é a eficácia do produto. Como o produto foi feito ainda é uma camada que precisa evoluir.”

Para Aristides, a comparação com países como China, Estados Unidos e Japão aponta para um denominador comum: política pública estruturada de longo prazo para a construção de novos medicamentos e novas empresas. “O que pesa no Brasil é a ausência de uma política clara de construção de novos negócios.”

Dados, cibersegurança e a governança que ainda falta

À medida que os sistemas de saúde se tornam mais digitalizados e interconectados, a exposição a ataques cibernéticos cresce na mesma proporção. A pesquisa anual do IT Forum, Antes da TI, a Estratégia, que ouviu mais de 180 CIOs e líderes de TI, mostra que cibersegurança é o principal tema de investimento das empresas de saúde nos próximos 12 meses, à frente até mesmo de inteligência artificial generativa.

Os números são expressivos: 88% dos respondentes indicaram cibersegurança como prioridade de investimento, com 44% avaliando que a maturidade da empresa nessa área já é alta. Na sequência aparecem IA e machine learning (75%) e IA generativa (69%).

Para Aristides, o diagnóstico tem raízes estruturais: na maioria das organizações de saúde, a segurança da informação ainda está subordinada à área de TI, o que compromete o equilíbrio entre proteção e inovação.

“Como criar novas soluções e inovar com inteligência artificial carregando também a responsabilidade pela segurança? O que prevalece é a segurança.”

A alternativa que ele defende passa por conceitos como IA federada, em que o modelo se move e não o dado, e pela separação entre a área de segurança da informação e a de tecnologia. Sonia acrescenta uma camada: “Além da cibersegurança, incluiria a governança. As duas precisam trabalhar juntas, porque é aí que se constrói a governança do dado.”

“O dado precisa ser tratado como ativo estratégico da organização. Quanto mais se coleta com responsabilidade, maior o potencial de uso com inteligência artificial”, afirma Diego Aristides.

Outro ponto crítico levantado é a interoperabilidade, ou a falta dela. O Brasil tem 70% dos hospitais sem prontuário eletrônico. Iniciativas como o OpenCare, lideradas pelo Ministério da Saúde, são vistas com otimismo pelos convidados, mas ainda insuficientes.

“O mercado está se resolvendo de forma privada, enquanto a maior parte dos hospitais brasileiros ainda opera sem prontuário eletrônico”, observa Aristides.

Ética, medicina de precisão e os limites do algoritmo

Um dos momentos mais instigantes do episódio envolveu um exemplo concreto: uma startup testou óculos de realidade mista para mapear o fundo do olho e identificar 27 doenças do sistema nervoso, entre elas, Parkinson. Das 27, 18 ainda não têm tratamento. O conselho de ética da empresa decidiu não comunicar o resultado ao paciente, para não gerar angústia diante de uma condição incurável e sem perspectiva terapêutica no horizonte.

“Voltamos à ética, voltamos à regulação e olhamos novamente para toda a cadeia de saúde”, reflete Aristides. O dilema ilustra com precisão a tensão que percorre todo o episódio: a tecnologia avança mais rápido do que os protocolos éticos, regulatórios e sociais conseguem acompanhar.

Sonia aponta outro risco: modelos de IA treinados majoritariamente com dados genômicos de populações europeias e norte-americanas tendem a produzir diagnósticos menos precisos para populações diversas. Em um País com a diversidade genética do Brasil, um dos argumentos mais fortes para atrair pesquisa internacional, ignorar essa variável pode significar reproduzir desigualdades estruturais dentro da própria medicina de precisão.

O futuro que ainda precisa de política

Na reta final do episódio, cada participante foi convidado a propor uma única política pública para os próximos cinco anos. As respostas foram complementares.

Sonia elegeu ética e governança: “É preciso ter clareza sobre como a ferramenta deve funcionar. Há uma questão ética muito forte que precisa estar no centro de qualquer política pública na área da saúde, acompanhada de uma governança sólida sobre o uso dos dados.”

Aristides foi mais abrangente: uma política de Estado de longo prazo, com investimento público e privado combinados, que crie distritos de inovação onde indústria, universidade e paciente estejam próximos e que, antes de tudo, garanta que pesquisadores brasileiros tenham razão para permanecer no País.

“Sem essa jornada bem desenhada, qualquer regulação será burocrática e a fuga de investimento vai continuar.”

Os dois concordam que o cenário não é pessimista. A pandemia acendeu uma luz sobre o potencial da tecnologia na saúde, o número de healthtechs cresceu expressivamente nos últimos três anos e o Brasil tem energia, diversidade e base científica para competir. O que falta, como ficou evidente ao longo de toda a conversa, é orquestração.

“Em três anos, ouviremos falar de biotecnologia com a mesma intensidade com que hoje se fala de inteligência artificial. A queda das patentes, o avanço tecnológico e a maturidade no uso de dados vão mudar o jogo”, afirma Diego Aristides.

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