Aberto à inovação, flexível e voltado às pessoas, com forte habilidade de ouvir. Essas são características consideradas essenciais para o novo gestor de tecnologia da informação que deve surgir nos próximos anos na visão de analistas do Gartner. E nas entrelinhas desse perfil, os especialistas acreditam que, cada vez mais, a TI deve se desapegar dos projetos e deixar de tratá-los como filhos; eles frisam que é preciso ter planos que vão além da implantação e que prevejam, por exemplo, a morte de determinado software.
?Em geral, os CIOs e as empresas não planejam a troca de sistemas. Desenvolvem e implantam como se os sistemas fossem eternos. Controlam o orçamento do projeto, tempo e, eventualmente, até o escopo. Mas você avalia o valor que esse projeto aportou na empresa após um tempo e planeja a aposentadoria do sistema? Implanta e acha que a missão está cumprida. No mundo, 22% fazem avaliação posterior à manutenção?, analisa Ione de Almeida Coco, vice-presidente regional e líder do programa executivo da consultoria para América Latina.
Para a especialista, a área de TI tem um apego muito grande aos sistemas implantados. Ela brinca e diz que esses softwares são tratados como filhos. Mas a brincadeira dá espaço para um recado simples e direto: ?é preciso desapegar?. Ione ressalta que os negócios precisam de mais agilidade e esse apego chega a atrapalhar o processo. ?Tem que vender para empresa que o sistema não termina na implantação, mas quando ele é aposentado?, ensina.
Nesse cenário de transformação do CIO, se convertendo em uma figura de perfil mais estratégico que operacional, Mark McDonald, vice-presidente do Gartner, avisa que, para uma boa argumentação de projeto e montagem do que em TI se convencionou chamar de ?business case?, o departamento deve responder a cinco perguntas: Qual o problema? Qual o custo do problema? Quando acontece? Quem é impactado? Com que frequência acontece?
?Uma das mudanças que as novas tecnologias pedirá aos CIOs é reconhecer que uma parte do investimento não terá business case?, pondera McDonald. ?Será parte do custo de fazer negócio. Atualização de rede, atualização para Windows 8, isso tudo é despesa, não investimento. A outra peça é que, tradicionalmente, os executivos de TI acreditam que o valor vem de aumentar o nível de controle sob as operações e clientes e, no futuro, o valor vem de onde eu coloco a complexidade.?
O desapego sugerido por Ione e o trabalho bem feito na elaboração de projetos ressaltado por McDonald, faz com que a organização de TI tenha mais tempo para se dedicar à transformação do negócio ou a pensar em coisas diferentes, inovar. E a especialista frisa que o Brasil, em termos de disponibilidade tecnológica, não se difere muito de outras nações, diferente do passado, quando eram necessários até cinco anos para que uma tecnologia nova chegasse por aqui. ?Estamos num ponto de inflexão. O CIO precisa pensar de forma diferente, no resultado final da empresa e na experiência do consumidor. Uma pesquisa que fizemos ano passado mostrou que o CIO é mais avesso a risco que CFO. Se a empresa não vê valor, continua com budget apertado. Eu já ouvi executivo falar que tinha implantado ERP e questionava o porquê do CRM. E isso é sigla de TI, não um projeto para melhorar experiência do cliente. TI é hermética até nos nomes dos projetos?, provoca Ione.
Parte dessa aversão ao risco e de estar preso a frameworks altamente padrozinados leva a uma TI pouco ágil e, num mundo globalizado, as empresas querem soluções cada vez mais rápidas para seus problemas. As companhias, de forma geral, não querem ouvir da área de tecnologia que são necessários dez meses para um projeto, elas precisam disso em três semanas. Como comentou Ione, CEOs e CFOs esperam uma TI mais dinâmica, mesmo tendo todo o legado para tomar conta. ?Soltamos um framework falando de diferentes tipos de aplicações para diferentes tipos de necessidade, quando você tem processo bem definido, pode levar dez meses, mas, para agilidade, precisa de coisas rápidas e não dizer que vai ficar com elas por 30 anos. Algumas soluções podem ser dispensadas em três meses. E os executivos de TI são muito conservadores e avessos a risco, com isso, levam mais tempo para entrega.?
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