O paradoxo do desenvolvedor infinito: para GitHub, IA não reduz, mas multiplica número de programadores

IA escreve código, mas número de devs nunca cresceu tanto. O futuro do software será menos programar e mais orquestrar, acredita GitHub

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Logo do GitHub exibido na tela de um dispositivo móvel, com o icônico ícone de um gato em silhueta branca dentro de um círculo preto. O fundo desfocado destaca cores suaves, criando um ambiente tecnológico e minimalista, Github, Teki, Microsoft
Imagem: Shutterstock

Quando a automação chegou às fábricas, imaginava-se que as máquinas substituiriam por completo os operários. Décadas depois, o trabalho mudou, mas não desapareceu. Agora, na indústria do software, a história se repete: a inteligência artificial (IA) já escreve código, revisa e testa, mas o número de desenvolvedores aumentou 30% em apenas dois anos, segundo o Octoverse Report 2025 do GitHub. Em vez de extinguir o ofício, a IA o multiplicou e redefiniu o que significa “trabalhar com tecnologia”.

Tim Rogers, gerente de produto sênior do GitHub, observa um movimento contraintuitivo. “Apesar da IA, o número de desenvolvedores no mundo está crescendo mais rápido do que nunca. No último Octoverse Report, registramos uma pessoa entrando no GitHub a cada segundo”, afirmou em entrevista ao IT Forum durante o GitHub Universe 2025, em San Francisco, nos Estados Unidos. “E o Brasil teve o crescimento mais acelerado da história.”

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O que está em jogo não é o desaparecimento do programador, mas o nascimento de uma nova função, o de curador de inteligências. Rogers explica que os agentes autônomos e o GitHub Copilot estão permitindo que desenvolvedores deleguem tarefas mecânicas, como testes, documentação e debugging, e se concentrem em decisões criativas e estratégicas.

“Hoje, apenas 20% do tempo de um desenvolvedor é gasto escrevendo código. O resto é ocupado por tarefas repetitivas. Com IA, queremos inverter essa proporção”, assinala. “As pessoas poderão se dedicar ao que realmente agrega valor que é resolver novos problemas.”

Esse deslocamento ecoa dados recentes da plataforma Stack Overflow. Segundo o relatório, 85% dos desenvolvedores já usam IA no processo de criação de software, mas 72% dizem que aprenderam mais sobre lógica e arquitetura de sistemas desde que passaram a usar assistentes de código. “O ofício muda e se expande”, resume Rogers.

Chão de fábrica digital

O GitHub sempre foi o “pátio industrial” do desenvolvimento colaborativo. Agora, essa metáfora ganha nova camada. O chão de fábrica digital é habitado por humanos e máquinas cognitivas que trabalham lado a lado. Ferramentas como Copilot Code Review e Mission Control inauguram uma era em que o desenvolvedor supervisiona times de agentes paralelos, com diferentes papéis e especializações.

“Antes, cada pessoa trabalhava em uma ou duas tarefas. Agora, um desenvolvedor pode ter três ou quatro agentes executando atividades em paralelo”, diz Rogers. “Isso cria outro tipo de produtividade e uma nova complexidade.”

Economia da orquestração

Para Júlio Viana, gerente regional Brasil do GitHub, o país ainda está em transição entre a “era do prompt” e a “era da orquestração”. “No Brasil, as empresas começaram usando IA como pair programmer. Agora estão aprendendo a orquestrar agentes autônomos”, conta.

Segundo Viana, isso altera não apenas a forma de desenvolver, mas de gerir tecnologia. “As equipes começam a se dividir entre quem escreve código e quem o dirige. É como sair de tocar um instrumento para reger uma orquestra.”
A revolução em curso não é apenas técnica, é cognitiva. Se antes o valor do desenvolvedor estava em “fazer o código funcionar”, agora está em “fazer as inteligências cooperarem”.

Rogers aposta que o próximo salto virá quando os agentes deixarem de ser executores e passarem a ser propositivos. “Hoje eles esperam instruções. Amanhã vão propor melhorias e ideias. O papel humano será avaliar o que faz sentido e isso é o núcleo da inovação”, finaliza ele.

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Sobre o Autor

Diretora de Marketing e Conteúdo da Itaqui e editora-chefe do IT Forum, Déborah Oliveira é jornalista com mais de 17 anos de experiência na área de TI. Atuou nas redações da Computerworld, CIO e IDG Now!. É bacharel em Jornalismo, com graduação executiva em Marketing e MBA em Marketing. Em 2018, venceu o prêmio de melhor Jornalista de TI no Brasil, concedido pelo Cecom. Nos anos de 2019 e 2020, foi destaque no mesmo prêmio na categoria Telecom. É uma das autoras do livro “Da Informática à Tecnologia da Informação – Jornalistas Contam Suas Histórias”, publicado pela Reality Books em 2020.

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