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Forjada entre barras de ballet, Flávia Picolo lidera a Accenture com disciplina e graça

Flávia Picolo, líder de tecnologia para a América Latina na Accenture (Imagem: divulgação)

O corpo se posicionava na quinta posição, braços arredondados, olhar fixo no espelho. Durante 14 anos, foi assim que Flávia Picolo começou suas manhãs em Valinhos, no interior de São Paulo. A barra, o aquecimento, os pliês intermináveis. A busca pela perfeição em cada movimento.

Hoje ela ainda mantém a postura ereta de bailarina, mas o palco mudou completamente. No lugar dos ensaios exaustivos, reuniões estratégicas. Em vez de coreografias, transformações digitais. Como líder de tecnologia para a América Latina na Accenture, Flávia comanda um grupo de 17 mil profissionais espalhados por cinco países.

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Um dia tudo mudou. “Vamos passar uma tarde na tecnologia”, sugeriu o pai, que trabalhava em uma multinacional. Era mais um convite casual de quem queria apresentar o trabalho à filha. Flávia aceitou por curiosidade, sem imaginar que aquela tarde traçaria um novo capítulo à sua história.

Ela tinha 18 anos e um sonho cristalizado: ser bailarina profissional. Catorze anos de dedicação absoluta ao balé haviam moldado não apenas seu corpo, mas sua personalidade. A disciplina implacável, a paciência com a repetição, a capacidade de transformar crítica em crescimento.

No escritório do pai, diante das primeiras telas e códigos, algo inesperado aconteceu. A mesma sensação de descoberta que sentia ao dominar um grand jeté, movimento clássico do balé no qual a bailarina salta com uma perna estendida para frente e a outra para trás, formando uma linha quase horizontal no ar. “Foi como encontrar uma nova linguagem”, conta.

O peso de abandonar um sonho

Deixar o balé não foi uma decisão, foi um processo. Demorou meses para aceitar que havia encontrado sua verdadeira vocação. “Era difícil explicar para quem me via dançando desde criança”, lembra.

Os pais apoiaram, ainda que confusos. Os amigos do balé estranharam. Flávia enfrentou o luto de abandonar uma identidade construída ao longo de anos. Mas algo dentro dela havia mudado irreversivelmente.

Começou como estagiária em uma empresa de tecnologia. Os primeiros meses foram frustrantes. O ritmo corporativo não correspondia à intensidade que conhecia dos palcos. “Parecia que estava parada num ensaio que nunca terminava”, descreve.

O encontro com a Accenture

A insatisfação a levou a buscar novos ares. Em 2001, aos 24 anos, ingressou na Accenture como consultora júnior. Nos primeiros anos, Flávia descobriu que os ensinamentos do balé se traduziam perfeitamente para o mundo corporativo. A disciplina para ensaiar a mesma sequência centenas de vezes virou capacidade para refinar códigos até a perfeição. A resistência física para longas apresentações se transformou em energia para maratonas de reuniões.

Mais importante: aprendeu que liderança também é uma performance. Exige presença, timing e a capacidade de inspirar outros a darem o melhor de si.

Leia mais: Desde cedo indo além dos códigos, Fernanda Toscano lidera para conectar

O primeiro grande teste veio com o convite para trabalhar na Argentina. Mudar de país significava recomeçar em muitos aspectos. Novo idioma, cultura diferente, distância da família. “O espanhol era um universo completamente novo. Eu falava inglês, mas ali precisava me comunicar numa língua que mal conhecia, sobre assuntos técnicos complexos”, conta.

O frio na barriga era constante. Mas Flávia havia aprendido com o balé que o medo pode ser transformado em energia positiva. Cada apresentação da infância havia começado com o mesmo friozinho no estômago.

Em Buenos Aires, desenvolveu uma competência que marcaria toda sua trajetória: a capacidade de se adaptar rapidamente a novos contextos sem perder a essência. Como uma bailarina que domina diferentes estilos de dança.

Arte de liderar milhares

Duas décadas depois, Flávia ocupa uma das posições mais desafiadoras da Accenture na região. Coordena times espalhados por Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e Peru. São 17 mil pessoas que dependem de sua liderança para entregar projetos de transformação digital.

“Cada grande projeto é como montar um espetáculo”, explica, recorrendo naturalmente às metáforas da dança. “Você precisa alinhar diferentes talentos, criar harmonia entre as partes e garantir que o resultado final seja impecável.”

A comparação não é forçada. Assim como uma primeira bailarina precisa estar sincronizada com todo o corpo de baile, Flávia aprendeu a orquestrar equipes multidisciplinares em diferentes fusos horários.

Entre códigos e filhos

Casada há 26 anos, mãe e avó, Flávia descobriu que equilibrar carreira e família também requer coreografia própria. “Não existe fórmula mágica”, admite. “É questão de estar presente de verdade nos momentos que importam.”

Recentemente, decidiu realizar um sonho que guarda há décadas: aprender a surfar. Aos finais de semana, troca o traje executivo por roupas de neoprene. “Quero ser uma vovó surfista”, brinca, com o mesmo brilho nos olhos que tinha ao falar de balé.

Está construindo uma casa no interior, um refúgio onde pretende passar mais tempo com a família. Mas não pensa em aposentadoria. “Ainda tenho muito para contribuir”, diz.

O palco que não tem cortinas

Em uma área tradicionalmente dominada por homens, mulheres como ela estão ocupando posições de liderança e trazendo perspectivas diferentes. “Diversidade não é um conceito bonito para colocar no relatório anual”, enfatiza. “É uma necessidade estratégica. Equipes diversas entregam soluções mais criativas e eficazes.”

Décadas depois de trocar as sapatilhas pelo teclado, Flávia não demonstra nostalgia pelo caminho não trilhado. “O balé me deu a base para tudo que conquistei depois”, reflete.

Ela ainda mantém a postura ereta, a elegância nos gestos, a disciplina implacável. Características que a acompanham desde os tempos de barra. A diferença é que hoje seu palco não tem limites físicos – se estende por toda a América Latina, impactando milhões de pessoas através da tecnologia.

A menina de Valinhos que sonhava com os grandes teatros do mundo descobriu que existem palcos ainda maiores. E que, às vezes, a música muda para nos levar exatamente onde deveríamos estar.

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Published by
Isabella Winckler
Tags: IT Forum InteligênciaMulheres na TI
9 meses ago

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