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Computação quântica entra no radar global; Brasil ainda patina na infraestrutura

Mateus Pierre, diretor de Pesquisa e Inovação no Instituto Eldorado

A decisão da ONU e da UNESCO de instituir 2025 como o Ano Internacional da Ciência e da Tecnologia Quântica é um marco para a consolidação de um campo científico que, embora tenha cem anos de existência, começa agora a se preparar para seu impacto mais amplo na sociedade e na economia. A avaliação é de Mateus Pierre, diretor de Pesquisa e Inovação no Instituto Eldorado em entrevista ao IT Forum.

“Ao longo de um século, a mecânica quântica deixou de ser apenas uma teoria para se transformar na base de tecnologias que já usamos, como lasers e ressonância magnética. Agora, vivemos a transição para a chamada segunda geração de tecnologias quânticas”, afirma Pierre. Segundo ele, o movimento das Nações Unidas visa dar visibilidade a esses avanços e “extinguir o misticismo” que ainda cerca o tema.

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De acordo com o executivo, as tecnologias quânticas — como a computação, a criptografia e a sensorização baseadas em princípios da física quântica — estão prestes a gerar transformações de grande escala. “O mundo precisa se preparar para os impactos que estão por vir”, afirma.

Leia também: Computação biológica: a promessa de unir o orgânico e o digital em um futuro incerto

Infraestrutura limitada

O Brasil conta com grupos de pesquisa reconhecidos, mas enfrenta gargalos importantes para acompanhar o ritmo internacional no desenvolvimento de tecnologias quânticas. “Temos pesquisadores extremamente capacitados, mas falta infraestrutura laboratorial de ponta e uma indústria de apoio forte, principalmente na área de semicondutores”, diz Pierre.

Além da deficiência estrutural, a retenção de talentos também é um desafio. “Muitos pesquisadores acabam migrando para o exterior em busca de melhores condições de trabalho”, afirma.

Apesar das dificuldades, existem avanços relevantes no país. Pierre cita o dispositivo de informação quântica baseado em ressonância magnética nuclear da USP, o desenvolvimento de um computador quântico supercondutor na Unicamp e a implementação de uma rede quântica em Recife, liderada pela UFPE.

Aplicações concretas

Hoje, aplicações práticas da computação quântica já começam a ser testadas no setor produtivo e em centros de pesquisa, ainda que em estágio inicial. “Existem empresas do setor financeiro no Brasil testando soluções quânticas para detecção de fraudes e instituições da área hospitalar formando equipes internas para explorar o potencial da tecnologia”, afirma o diretor do Eldorado.

Esses projetos, segundo Pierre, ainda se limitam a provas de conceito. “O objetivo é validar as abordagens utilizadas e entender as vantagens da computação quântica, não necessariamente obter benefícios imediatos”, explica.

Setores como saúde, farmacêutica, agricultura, finanças e segurança devem ser os primeiros a colher resultados práticos, especialmente em áreas como simulações químicas e sensoriamento quântico, aplicações menos dependentes da escalabilidade dos computadores quânticos.

Atuação do Instituto Eldorado

O Instituto Eldorado iniciou projetos próprios de pesquisa em computação quântica em 2022 e já estabelece parcerias para novos desenvolvimentos. Segundo Pierre, boa parte dos trabalhos atuais se concentra na aplicação de quantum machine learning — uma vertente que combina aprendizado de máquina e princípios da física quântica.

Entre os projetos em andamento, ele destaca a parceria com a Unicamp para o desenvolvimento do “CryoCMOS+Qubits”, circuito integrado criogênico CMOS que opera a temperaturas abaixo de 4 kelvin para controlar bits quânticos. “O desenvolvimento de qubits é estratégico para viabilizar supercomputadores quânticos”, diz.

Política pública e soberania

Pierre ressalta que o avanço das tecnologias quânticas deve ser tratado como questão de soberania nacional. “Existem diálogos com o governo e iniciativas em andamento, mas o esforço ainda é pequeno frente à urgência do tema”, afirma.

Segundo ele, o país precisa investir em infraestrutura laboratorial, fomentar a inovação e desenvolver indústrias de apoio para não perder espaço globalmente. “O atraso em políticas públicas para tecnologias quânticas nos deixa em desvantagem em relação a outras nações”, diz.

Além disso, a colaboração internacional é vista como crucial. “Precisamos nos integrar a consórcios globais e projetos multilaterais que estão moldando o futuro da área”, afirma Pierre.

Comunicação com a sociedade

A distância entre a sociedade e a tecnologia quântica ainda é um obstáculo a ser superado. “Mesmo em setores técnicos, a compreensão sobre o que são tecnologias quânticas e como podem ser aplicadas ainda é limitada”, aponta Pierre.

Iniciativas como o Ano Internacional da Ciência e da Tecnologia Quântica e o Dia Mundial Quântico, com eventos e premiações para cidades que promovam atividades públicas, são formas de popularizar o tema. No setor privado, ele recomenda que as empresas busquem projetos internos, provas de conceito e capacitação. “Há instituições, como o próprio Eldorado, dispostas a apoiar o setor produtivo nesse movimento”, diz.

Formação de talentos

Para Pierre, o futuro da tecnologia quântica no Brasil depende da formação de profissionais multidisciplinares. “Não basta ter físicos ou engenheiros isoladamente. Precisamos de pessoas que entendam de fundamentos quânticos, mas também consigam aplicar esse conhecimento na computação, na indústria, na agricultura”, afirma.

Essa preparação, segundo ele, é estratégica para que o Brasil consiga não apenas acompanhar, mas também participar ativamente da construção da nova fronteira tecnológica mundial.

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Published by
Pamela Sousa
Tags: computação quânticaInstituto EldoradoONUUnesco
1 ano ago

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