Artigo: Ninguém ganha com a crise elétrica

Quem olha de fora tem dificuldade em entender como o Brasil conseguiu chegar a essa grave crise energética

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No início de fevereiro, o próprio Ministério das Minas e Energia, que até então tentava minimizar a crise elétrica pela qual o País vem passando, admitiu que aumentou o risco de desabastecimento e de que ocorram interrupções no fornecimento de eletricidade. Pela primeira vez este risco ultrapassou o limite prudencial de 5% estabelecido em 2004 pelo CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), chegando a 7,3% para o Sudeste e Centro-Oeste. Ou seja, o apagão de 19 de janeiro, que atingiu 11 Estados, pode se repetir a qualquer momento.

Especialistas do setor elétrico afirmam que faltou planejamento, já o governo culpa São Pedro pela falta de chuvas nos reservatórios e até vem pedindo a shopping centers e indústrias para que coloquem seus geradores para funcionar em horários de picos. Mas no final é o consumidor, a população e o setor privado, quem sofre com os apagões e com o aumento das tarifas de energia elétrica.

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Por outro lado, empresas que fabricam, vendem ou alugam geradores aparecem na mídia alardeando que a procura tem sido grande, que nunca fecharam tantos negócios na vida e que há filas de espera – como diz o dito popular, enquanto alguns choram, outros vendem lenços.

Mas apesar disso, não há motivos para comemoração. Uma crise de energia, agravada por outros problemas pelo qual o País passa atualmente, afeta a todos indistintamente – as empresas em geral vendem menos, produzem menos, investem menos e demitem funcionários; a economia entra em recessão ou estagnação e aumenta a desconfiança de consumidores e empresários. É uma bola de neve que, em algum momento, vai atingir a todos, mesmo aqueles que estão bem neste momento. No nosso setor, o aumento nas vendas agora é pontual, uma bolha que deverá estourar mais para frente.

O melhor cenário, para qualquer empresa, é o de crescimento econômico sustentável, com estabilidade. Isso permite a previsibilidade para o planejamento e a realização de investimentos, seja em mão de obra, compra de máquinas ou inovação. Com estabilidade, o ambiente de negócios melhora, há mais oportunidades de empregos e as pessoas se sentem confiantes para consumir, fazendo girar a roda da economia. Este é o chamado ciclo virtuoso de crescimento, onde todos ganham.

O Brasil sempre foi considerado um país com grandes recursos naturais. Quem olha de fora tem dificuldade em entender como chegamos a esta grave crise energética. É bom relembrarmos como tudo começou, em especial no setor elétrico. Em setembro de 2012, a presidente Dilma Rousseff publicou a Medida Provisória (MP) 579, posteriormente aprovada e transformada na Lei 12.783/2013. A medida permitia que o governo renovasse as concessões das usinas, transmissoras e distribuidoras de energia, cujos contratos estariam vencendo agora entre 2015 e 2017. Em troca disso, as concessionárias beneficiadas com esta antecipação teriam de baixar as tarifas em até 30%.

Já nessa época, especialista alertavam sobre uma possível crise hídrica, pois o volume de chuvas vinha diminuindo. O governo federal devia ter escutado os alertas e acionado imediatamente as termoelétricas para diminuir a vasão nos reservatórios e economizar água. Mas ao contrário, o que se fez foi incentivar ainda mais o consumo de eletricidade. Mais grave ainda, o governo criou um enorme passivo.

Se computarmos os recursos que o Tesouro Nacional teve de colocar no setor para socorrer as distribuidoras de energia, mais as perdas das empresas elétricas, o resultado é um montante da ordem de R$ 114 bilhões. Isso porque o governo optou por não repassar o aumento de custos nas tarifas causado pelo acionamento das termoelétricas, de olho na reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Outro fator que vem piorar o cenário é que muitas obras de geração e transmissão de energia estão atrasadas, pois o governo não consegue resolver os impasses ambientais. 

Assim, chegamos ao cenário atual, de um verdadeiro curto circuito no setor elétrico. Mas entender o que aconteceu é uma coisa, aceitar os equívocos praticados é uma história bem diferente.

*Sakher Al Shara é CEO da TS Shara.

 

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