Em painel sobre humanidade e tecnologia, ator e cientista de dados exploraram criatividade, governança e o papel do indivíduo na era da IA
O que a inteligência artificial (IA) não consegue fazer? A resposta de Rumman Chowdhury é direta: discernir. A de Idris Elba, ainda mais direta: ser engraçado.
No palco do Knowledge26, conferência anual da ServiceNow em Las Vegas, os dois protagonizaram um dos painéis mais improváveis do evento. De um lado, Elba, ator britânico e embaixador da ServiceNow. Do outro, Rumman Chowdhury, cientista de dados, CEO da Humane Intelligence e ex-diretora de engenharia da equipe META (Machine Learning Ethics, Transparency, and Accountability) do Twitter.
“Minha palavra para 2026 é discernimento”, diz Rumman, que escreve um livro sobre o futuro da inteligência. Para ela, a IA gera coisas que parecem boas, mas somente humanos sabem dizer se são boas ou ruins. O exemplo é na arte, um modelo treinado na obra do compositor produz músicas que soam como Mozart, mas Mozart, se vivo, não repetiria Mozart. Ele romperia paradigmas. “Por definição, a IA só cria dentro da sua distribuição normal.”
Elba foi mais visceral. Perguntado sobre o que os humanos conseguem que as máquinas não, respondeu em duas palavras: “Ser engraçado.” E explicou: “A IA não consegue substituir as sinapses que todos estamos ligados agora. Como seres humanos, fazemos isso naturalmente.”
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Rumman defende uma visão diferente da IA nos ambientes de trabalho: não como ferramenta de produtividade, mas como ferramenta de domínio. “Como a IA pode nos ajudar a alcançar o próximo objetivo que temos na vida? Uma das coisas mais bonitas dos seres humanos é que estamos sempre buscando melhorar”, diz.
Para líderes que tentam convencer equipes resistentes, ela recomenda incrementalismo e cita Kahneman. As pessoas não saltam de A a Z, saltam de A para B. Sua sugestão prática é começar com um projeto pequeno, sem grandes riscos. “Comecei com um projeto de monitoramento doméstico usando Raspberry Pi e meu próprio servidor. Parecia assustador. Hoje estou automatizando quase tudo com agentes. Foi esse primeiro passo que mudou tudo.”
Elba usou a roda como analogia. Em cinco mil anos, o objeto não mudou, mas o uso sim. Rumman completou: “Nós também escolhemos para onde viajar. A roda não nos diz para onde ir. Nós escolhemos o destino.”
Para Rumman, a governança da IA não é responsabilidade exclusiva das organizações. Indivíduos também têm papel. “É responsabilidade da organização ter princípios éticos e criar as estruturas internas para que os funcionários possam agir com base neles. Mas é responsabilidade do indivíduo carregar isso adiante”, afirma.
Elba recorreu a uma analogia simples. Em uma biblioteca, quando alguém pega um livro danificado, é o leitor quem precisa avisar. Responsabilidade individual dentro de um sistema coletivo.
No cinema, diz Elba, um filme é feito quatro vezes, da concepção ao roteiro, das filmagens à edição. Em cada etapa, diretores, atores e roteiristas debatem interpretações diferentes. “É sempre uma conversa. O que você acha? O que eu acho? Em tecnologia, os mesmos princípios se aplicam.”
Para os dois, em um dia a dia cada vez mais fragmentado, a saída não é se afastar, mas manter a curiosidade acesa. Elba foi breve: “Só permaneça curioso.” Rumman foi mais específica. Ela lê ficção científica e defende que livros ensinam a enxergar o mundo por outras perspectivas. “Acordo animada para fazer o que faço porque tiro tempo para fazer coisas completamente diferentes do trabalho”, diz.
Rumman também questionou o diagnóstico de vício em tecnologia. Para ela, a pergunta certa não é quanto tempo se passa nas redes, mas o que se faz com ele. “Você sabe o que seu filho está fazendo na internet? Talvez ele esteja fazendo um filme com amigos de outro país”, diz.
*A jornalista viajou a convite da ServiceNow
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