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Experiência antropológica

Roberto Busato, CIO mundial da Bunge há dois anos, chefia uma equipe de 60 pessoas de países das América do Norte e do Sul, Europa e Ásia. Ao passar duas semanas por mês viajando pelo mundo, ele já consegue fazer um balanço da experiência “antropológica” que é um brasileiro liderar estrangeiros das mais diversas nacionalidades.
Leia o depoimento do executivo sobre essa vivência.

“Sem dúvida é um grande desafio. Não se trata apenas de um desafio técnico ou de negócios, mas cultural. Quando ocupava um cargo gerencial de nível nacional já havia tido uma experiência similar, pois chefiava equipes de diferentes estados, cada qual com uma peculiaridade em termos de dinâmica de trabalho e padrões comportamentais. Dependendo da região ou do país, os processos de decisão são diferentes, as prioridades são outras.
Hoje o Brasil conta com profissionais de bom preparo técnico, equivalente ao de muitos países ditos de primeiro mundo. Mas levamos vantagem na capacidade de conviver e saber extrair aspectos positivos das diferenças. Outras culturas costumam ser mais fechadas em relação a isso, menos tolerantes. Os brasileiros também estão mais acostumados a gerenciar crises, a começar com os sobressaltos na continuidade de planos econômicos, que sempre refletem nos negócios e nos demandam as soluções mais criativas possíveis.
Cada cultura me ensina uma coisa positiva. Os brasileiros não têm, em geral, tanta disciplina e planejamento como os nativos de países do hemisfério norte. Se somos criativos por um lado, por outro temos de tomar cuidado para botar ordem nessas idéias, caso contrário não chegamos a lugar algum. O ideal é aquela velha fórmula de unir a disciplina do norte com a capacidade de improviso latino-americana.
Quando cheguei para chefiar uma equipe nos Estados Unidos, passei por uma situação no mínimo cômica mas que me ensinou muito. Um de meus funcionários se negou a executar algumas atividades que lhe solicitei. Como assim?, pensei, sem acreditar no fato de minha autoridade ter sido desafiada. Depois entendi que ele estava sobrecarregado e que só iria realizar o que fosse prioritário. Lá as pessoas não prometem o que não podem cumprir. Se acaso sentem que algo não poderá ser entregue em determinado prazo, ou simplesmente não entendem o que foi solicitado, não o fazem. É uma atitude mais honesta, por um lado. No Brasil, as pessoas se mostram mais solícitas, dizem ‘deixa comigo’, mas sabe-se lá quando vão fazer a tarefa de fato. Os latinos têm a mania de partir para a ação primeiro. 
Na verdade, não há o jeito certo, tampouco o errado. A melhor dica, especialmente para um líder, é primeiro entender o que está acontecendo, depois planejar e aí sim, partir para a ação.
Mas nas multinacionais, como na Bunge, essa mistura está cada vez mais enraizada. Nessas empresas, as pessoas já estão acostumadas ao ambiente cosmopolita, não se assustam com as diferenças culturais. E então, fica mais fácil focar nos resultados, no negócio em si, mesmo na área de tecnologia da informação. Afinal, nossa língua oficial é, e sempre foi, a do dólar.”

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* depoimento à repórter Rachel Rubin

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rrubin
21 anos ago

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