O potencial de ruptura da tecnologia é grande, inclusive ameaçando os antigos intermediários que mantém modelos de negócios tradicionais baseados em garantia de confiança
Publicado:
Leitura 6 minutos
Esse é o quarto artigo da série de cinco sobre Blockchain.
Já no anterior (aqui)
apontávamos que blockchain tem alto potencial de provocar rupturas e não deve
ser subestimado. Nesse vamos abordar seu uso em diversos setores. Por ser um
conceito ainda relativamente desconhecido, tende a ser subestimado e, claro,
ainda existe muito ceticismo ao seu redor. Tudo que é novo embute insegurança,
desconfiança e ceticismo, principalmente quando esse novo é ameaça ao modelo
mental e aos modelos de negócios predominantes.
Vamos olhar os bancos. Já vemos muitos bancos ao redor do
mundo procurando entender o que é Blockchain e o impacto nos seus negócios
atuais. Na prática essas experimentações são ainda uma pequeníssima abertura na
porta para verem o que está acontecendo, e tentarem controlar, pelo peso de sua
influência nos órgãos reguladores, o ritmo de disseminação do conceito no
setor. Indiscutivelmente, as inovações baseadas em Blockchain vêm de startups e
nem sempre é possível (e muito menos fácil) para um banco adotar internamente
uma inovação criada por startups. São animais bem diferentes.
Uma proposta que alguns bancos vêm adotando é criar uma
aceleradora e procurar incorporar as inovações criadas por elas dentro de casa.
Na minha opinião isso dificilmente vai dar certo, pois para as gigantescas e
burocráticas organizações que são os grandes bancos, uma aceleradora é como um
zoológico, e as startups são como animais bonitos, mas selvagens, que eles não
conseguirão domesticar a ponto de colocar dentro de casa.
Não é apenas uma questão de incorporar uma nova tecnologia
ou ideia inovadora, mas de choque cultural. Um exemplo é o fenômeno das
FinTechs, que exploraram o espaço deixado pelo conservadorismo dos bancos, entrando
em territórios não aproveitados ou negligenciados por eles. Outro exemplo foi a
criação, anos atrás, do PayPal, que explorou um gap nos serviços oferecidos
pelos bancos. O PayPal provou que serviços alternativos aos oferecidos pelos
bancos são sim, viáveis. Na sua esteira começaram a proliferar as FinTechs.
Surgiu o ApplePay e outros Pay…todas iniciativas que começam a corroer, em
maior ou menor grau, os serviços tradicionais dos bancos.
Aqui no Brasil, ao mesmo tempo que as FinTechs começam a
ganhar corpo e o fenômeno dos bancos digitais já desponta, oferecendo serviços
mais flexíveis e ágeis a custos menores, os bancos tradicionais fazem o caminho
inverso, aumentando suas tarifas, sem contrapartida de melhoria em seus
serviços. Realmente não acreditam que as FinTechs decolarão. Bem, o tempo dirá
se eles estão certos… Creio que aqui
se aplica perfeitamente a brilhante frase de Clayton Christensen, autor do
livro “Innovator´s Dilemma” : “The worst place to develop a new business model
is from within your existing business model”.
O Blockchain deve seguir o mesmo caminho das FinTechs. No
fim de 2015 o mundo já tinha 268 startups financeiras baseadas em Blockchain.
Clique aqui
para conhecê-las.
Enquanto as FinTechs se concentram nos serviços de
pagamento, o Blockchain tem o potencial de ir direto ao coração e as artérias
dos bancos! Não, os bancos não acabarão. Mas perderão relevância (tenderão a
ficar no backend dos processos financeiros, se distanciando dos clientes e em
consequência, com menores chances de cross-selling para seus clientes) e terão
que dividir o espaço que hoje dominam com outras empresas. E quem sabe essas
não serão startups de Blockchain, subestimadas hoje, mas que decolem como
WhatsApp, Airbnb, Uber e Amazon AWS decolaram em outros setores, abocanhando
espaço das poderosas empresas já existentes?
Que opções os bancos têm? A meu ver: a) podem ficar inertes
e esperar para ver no que Blockchain vai dar, e então correr atrás; b) de forma
proativa buscar analisar onde e como o Blockchain poderá ajudá-los a melhorar
seus serviços e a criar outros; ou c) se reinventar. Creio que a imensa maioria
se concentrará em (a) e (b)…

Mas Blockchain vai
muito além dos bancos
O potencial de ruptura da tecnologia é grande, inclusive ameaçando os antigos
intermediários que mantém modelos de negócios tradicionais baseados em garantia
de confiança, como tabeliões e autoridades públicas de registro de automóveis, casamentos,
propriedades, patentes, passaportes, registros médicos, entre outros.
Uma olhada na experiência do BitNation
mostra o potencial de mudanças que poderá vir a ocorrer. Provavelmente, veremos
as primeiras iniciativas aparecendo nas adjacências dos negócios tradicionais
(foi assim que a web começou, lembram?), ocupando o espaço todo depois,
deslocando e fechando negócios que não mais acompanham a velocidade de uma
sociedade digital.
Um tabelião, por exemplo, como existe hoje, é uma relíquia
burocrática que não tem porque sobreviver no século 21. De imediato, pode
parecer uma ideia absurda. Mas se começarmos a pensar no conceito de DAO
(Distributed Autonomus Organization), talvez a ideia faça sentido. Em 1997 ninguém sequer imaginava que poderíamos
ter apps e praticamente tudo que precisamos fazer digitalmente na palma de
nossa mão, com um smartphone.
Exemplos de aplicações Blockchain? Que tal um eventual
substituto do Uber, como o La´Zooz? Ainda
é uma experimentação, mas pode ser a ponta do iceberg. Vale a pena ler o texto
“La’Zooz:
The Decentralized, Crypto-Alternative to Uber”. Ou armazenamento
distribuído, como proposto pelo Maidsafe?
Vamos em frente. Governança e votação em conselhos de
administração? BoardRoom. Gerenciar carga de
bateria de veículos elétricos é a proposta da RWE, empresa de energia alemã. A
experiência pode ser lida no texto “Why
a German Power Company is Using Ethereum to Test Blockchain Car Charging”.
E até para coisas aparentemente impensáveis, como reduzir ou eliminar corrupção
nas transações governamentais, como propõe o governo da Ucrânia. Vale a pena
ler “Ukraine
to use blockchain technology in curtailing corruption when selling government
assets”. E em saúde? “Blockchain in healthcare: From theory to
reality”.
Claro, ainda são apenas startups e experimentações. Mas, a
web começou assim e hoje é uma camada eletrônica indispensável à nossa
sociedade. Nos próximos anos veremos se Blockchain é apenas um hype ou um
tsunami que vai redesenhar muitos negócios atuais. Minha percepção é que será
um tsunami…
(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, CEO da ThinPost e autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data
Redação
6 dias atrás
Redação
6 dias atrás
Redação
6 dias atrás
Pamela Sousa
7 dias atrás