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O brasileiro Demian Borba levava uma vida idealizada por muitos compatriotas, especialmente aqueles que buscam na tecnologia uma forma de crescer profissionalmente e, por que não, mudar o mundo: com menos de 30 anos, tinha uma empresa de TI em San Diego que faturava quase um milhão de dólares por ano. Morava em um dos estados norte-americanos mais cobiçados e dava aula na universidade da Califórnia. Há cerca de um ano largou tudo. Dispensou seus 30 funcionários e foi se tornar empregado novamente. Para o espanto de muitos geeks, que veem o futuro através dos produtos da Apple e do Google, a empresa escolhida foi a Research In Motion (RIM), que produz o BlackBerry.
Borba explicou, em entrevista realizada com jornalistas da América Latina, essa decisão: “Eu não tomaria essa atitude se não tivesse certeza de que o BlackBerry 10 vai mudar o mundo”. Um dos evangelistas do produto, que chega ao mercado no primeiro trimestre de 2013, Borba repete o discurso de seus colegas e garante que ele não tem ligação alguma com as versões recentes, que vão até o BB7. A base utilizada para a produção de cada um é, por si só, bem diferente: enquanto antes utilizava o Java como base para o sistema operacional, a tecnologia por trás é um combinado de QNX com C++, que já vem no tablet Playbook. “Chegamos ao limite do Java”, contou. “São plataformas completamente diferentes. O BB10 já tem três anos de desenvolvimento, estamos apenas lapidando agora”, detalhou.
A proposta não é criar um novo sistema para celular, mas uma plataforma. “O BB10 é um sistema operacional robusto para preparar o BlackBerry para os próximos dez anos. O objetivo é rodar telefone, tablet, computadores, carros…”, disse. Apesar disso, o executivo pontuou não haver planos de a RIM migrar a produção para novos hardwares, mantendo o ciclo fechado de sistema + dispositivo que conhecemos hoje com smartphone e tablet.
O executivo garante que tudo mudou na RIM a respeito do ecossistema de desenvolvedores. Por muitos anos conhecida como empresa fechada ao mercado open source, a canadense abre os braços para a comunidade de programação. Além de permitir que aplicativos Android sejam portados para a App World, a companhia preparou para o BB10 kits de desenvolvimento (SDKs) para que o desenvolvedor não precise mudar a linguagem com a qual está acostumado. Portanto, HTML5, Adobe Air, C++ são apenas alguns dos exemplos de bases liberadas para desenvolvimento. A ideia é deixar o profissional confortável e não exigir que ele aprenda uma nova linguagem para entrar no ecossistema da RIM.
“Empresa nenhuma está cuidando tanto desenvolvedor. Já demos mais de 20 mil tablets Playbooks e mais de 5 mil Alphas [smartphones com um beta do BB10] para a comunidade”, ponderou. Além disso, a companhia não cobra por uso de ferramentas ou anuidade de seus parceiros, apenas 30% sobre o valor do aplicativo vendido. Vale citar ainda o programa que paga US$ 10 mil aos desenvolvedores que não atingir esse valor em vendas na App World. Aqui, é importante lembrar que para estar apto a esse programa, é preciso que o aplicativo tenha sido submetido de 21 a 23 de janeiro e consiga vender, sozinho, ao menos US$ 1 mil em um ano.
Mudança de percepção
Com início na carreira de desenvolvimento com o Flash, em 1998, Borba conta que ao longo dos Jams, que são realizados com desenvolvedores ao redor do mundo – já foram seis, sendo cinco com latino-americanos e 85 novos aplicativos como resultado –, foi vista uma mudança na percepção das pessoas sobre RIM e BB10.
O sistema operacional era esperado para meados deste ano, mas teve seu lançamento atrasado. Essa investida foi vista com maus olhos pelo mercado, já que a RIM perde, continuamente, seu espaço nas empresas para dispositivos mais amigáveis, como iPhone e telefones Android, por conta da consumerização. Dados do Gartner mostram que a RIM teve redução em novas vendas mundiais de smartphones no acumulado no ano passado, passando de 3,1 para 2,9% do mercado.
“Houve uma mudança na percepção das pessoas. Quando chegávamos, os comentários eram de que a BlackBerry estava falindo, estava quebrada. Quando você mostra o sistema para o desenvolvedor, o olho brilha. Isso é fantástico. Mas este é um trabalho de formiga, que estamos fazendo um a um”, finalizou.
*A jornalista viajou a San Jose a convite da RIM
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Pamela Sousa
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