All Rights ReservedView Non-AMP Version
IT Forum
  • Homepage
  • Notícias
Categories: Notícias

Desculpe, mas não pirateio.

A reserva de mercado e suas consequências

Comecei a usar computador na segunda metade dos anos oitenta do século passado. Naqueles dias, tanto os programas quanto os sistemas operacionais eram em inglês.

As melhores notícias de tecnologia B2B
Acompanhe todas as novidades diretamente na sua caixa de entrada

Havia, sim, alguns em português. Não lembro o nome, porque ninguém os usava. E não usava por diversas razões. A primeira é que funcionavam mal. A segunda é que eram cópias não autorizadas, mal feitas e mal traduzidas de uma das versões comerciais do DOS original, em inglês, feitas por empresas brasileiras que alegavam terem desenvolvido o sistema quando na verdade o haviam cinicamente copiado do original (o folclore da informática incorpora casos bizarros de situações em que, sem mais nem menos, afloravam mensagens de erro em inglês em um SO supostamente desenvolvido em português por uma empresa nacional).

É que vivíamos na tenebrosa era da ditadura militar em que estava em plena vigência a não menos tenebrosa lei da reserva de mercado da informática segundo a qual era proibido usar qualquer hardware ou software que não fosse desenvolvido ou fabricado no país.

Estas empresas, então, praticavam pirataria. Mas era uma pirataria oficial, protegida pelas autoridades militares da época que haviam, com o inacreditável apoio da esquerda nacionalista, forjado a maldita lei da reserva de mercado que, quem podia, descumpria. Pois quem descumpre leis ditatoriais, como ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão.

Começou assim a se formar a mentalidade de que usar produtos de informática contrabandeados e programas pirata eram atividades perfeitamente aceitáveis por descumprir uma lei claramente injusta e burra. O que fez com que se tornassem práticas usuais e correntes. E todos a ela aderiram. Inclusive este que vos tecla.

Mesmo porque não fazer isto era se expor a extorsão.

Por exemplo: no final dos anos oitenta eu andei me metendo a programar. E programava em C e Assembly. Portanto precisava de um bom compilador.

Havia o da Microsoft, que todo o mundo pirateava. Seu maior concorrente era um soberbo conjunto de programas desenvolvidos pela Borland, o pacote “Turbo”. E, na época, havia no Largo do Machado um “centro comercial de informática” constituído por meia dúzia de arapucas com aspecto de lojas que vendiam hardware supostamente nacional e programas, alguns importados, tudo isto a preços extorsivos.

Passei por lá para verificar o que conseguiria comprar para compilar meus programas. Encontrei o Turbo C da Borland, versão 1.5, por um valor equivalente a pouco mais de mil dólares americanos. Não dava. Afinal, eu programava por prazer, não por profissão, e gastar aquela grana preta não estava nos meus planos.

[singlepic id=3247 w=320 h=240 float=]

Mas acontece que por alguma razão eu tinha agendada uma viagem aos Estados Unidos mais ou menos naquela ocasião. E lá, encontrei (e comprei) o mesmo Turbo C, porém versão 2.0, por pouco mais de cem dólares (a figura 2 mostra a capa da embalagem da versão 3.0). Menos de dez vezes o preço que me haviam cobrado aqui por uma versão desatualizada. Uma diferença injustificável ainda que se levasse em conta os impostos escorchantes.

Conclusão: naqueles dias, comprar software legal era se submeter a um tipo de extorsão legalizada. E, pior: legalizada por um dispositivo institucional criado pela ditadura militar para beneficiar meia dúzia de seus protegidos. O resultado disto é que esta prática generalizou-se e passou a ser considerada mais ou menos como uma ação em legítima defesa.

Foi assim que o uso de software pirata, mesmo ilegal, acabou se tornando prática tida como justa e aceitável entre usuários de computadores. E não apenas os usuários domésticos: a maioria das empresas também recorria a eles.

Pois bem, as coisas mudaram.

Page: 1 2 3 4

Next Dificuldade de contratar pessoas está entre os 10 principais preocupações das companhias »
Previous « Desculpe, mas não pirateio.
Share
Published by
Editorial IT Forum 365
15 anos ago

    Related Post

  • Novos executivos da semana: Uncover, Tech for Humans, Diebold Nixdorf, Unico e mais
  • Se o Brasil não organizar seus dados culturais, outro fará isso por nós, alerta Jorge Brivilati
  • CBYK nomeia Maurício Matsuda como novo CEO

Recent Posts

  • Notícias

IA muda entrevistas para programadores e força revisão dos processos de contratação

A popularização de ferramentas de inteligência artificial (IA) voltadas à programação está provocando uma transformação…

1 semana ago
  • Notícias

Golpe do álbum da Copa de 2026 usa nuvem legítima e Pix para ampliar fraudes, aponta relatório

O aumento de golpes envolvendo o álbum da Copa do Mundo FIFA 2026 expôs uma…

1 semana ago
  • Notícias

Cyber Horizon Group anuncia centro de hacking defensivo em São Paulo

A Cyber Horizon Group abre em dezembro seu segundo Centro de Hacking Defensivo, em São…

1 semana ago
  • Notícias

Anthropic levanta US$ 65 bilhões e ultrapassa OpenAI em valor de mercado

A Anthropic anunciou uma nova rodada de financiamento de US$ 65 bilhões que elevou seu…

1 semana ago
  • Notícias

CBYK nomeia Maurício Matsuda como novo CEO

Maurício Matsuda é o novo CEO da CBYK. A empresa de tecnologia especializada em cloud,…

1 semana ago
  • Notícias

IBM aposta US$ 5 bilhões para proteger código aberto da nova geração de ameaças de IA

A IBM anunciou investimento de US$ 5 bilhões em uma iniciativa voltada à proteção de…

1 semana ago
All Rights ReservedView Non-AMP Version
  • L