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Contemplação x aceleração: equilíbrio é chave para impulsionar inovação, defende Werner Vogels, CTO da Amazon

Werner Vogels, CTO da Amazon. Foto: Divulgação re:Invent 2024

Todo ano, uma das apresentações mais aguardadas do re:Invent*, da Amazon Web Services (AWS), é de Werner Vogels, CTO da Amazon. Há 20 anos na Amazon, Vogels é figura conhecida do mercado de tecnologia e referência em previsões nada triviais.

Para além das suas previsões, em uma conversa com três veículos de mídia da América Latina – entre eles o IT Forum –, Vogels mostrou-se mais preocupado com o destino da humanidade do que com as próximas metas de vendas. Na entrevista, o executivo não poupou críticas a si mesmo nem ao próprio setor de tecnologia. Para ele, o frenesi em torno da inteligência artificial (IA) já se dissipou, e a corrida desenfreada para lançar produtos sem compreender plenamente seu impacto é um erro estratégico.

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Vogels fala com conhecimento de causa. Ele não é um teórico enclausurado em um laboratório. Sua trajetória acadêmica deu lugar, há mais de duas décadas, a uma posição central em uma das empresas mais poderosas do mundo. Ao contrário do estereótipo do executivo de terno, ele mantém um ar de professor holandês – origem que não faz questão de esconder – e fala com a franqueza de quem já viu de tudo.

Na conversa, ele discutiu desde a redistribuição energética via minirreatores nucleares até o papel da tecnologia na construção de um mundo mais equilibrado, passando por uma crítica contundente ao vício digital e à falta de significado no trabalho contemporâneo.

O hype da IA e a urgência da responsabilidade

Nos últimos anos, a inteligência artificial, em especial a geração de texto e imagem sintéticas, a IA generativa, tomou conta do imaginário popular. Modelos de linguagem, textos gerados por um robô, imagens fotorrealistas criadas a partir de prompts… O mundo celebrou a nova magia digital como uma panaceia. Mas, segundo Vogels, esse frenesi já começa a se dissipar.

“A realidade está se impondo”, afirma, categórico. Ele explica que a IA não é mais a ‘febre do ouro’ que os entusiastas previram. Empresas e governos, antes tomados pela pressa de se posicionar, agora questionam: onde estão, de fato, as eficiências prometidas? Quais problemas a IA e a IA generativa realmente resolvem?

“Estamos retomando o pé no chão. A questão não é mais apenas lançar chatbots ou ferramentas de texto preditivo. É integrar a IA de forma significativa, responsável, e acima de tudo, útil. A geração de balelas tecnológicas, a corrida para ser o mais veloz, sem pensar no impacto, já deixou de ser um diferencial. Agora, o que vale é ser o primeiro a ter impacto real, não o primeiro a colocar um produto meia-boca no mercado”, pontua.

Nessa mesma linha, ele afirma: “Melhor ser o primeiro do que o mais rápido”. Primeiro em solucionar um problema humano de verdade, primeiro em criar sistemas confiáveis e éticos, primeiro em entender a responsabilidade do que se coloca no mundo. A provocação vem depois de eu questioná-lo se a tecnologia nos deixa presos em um universo de aceleração e menos contemplação, como acontecia na época de ouro dos filósofos, na qual a criatividade estava em alta.

Energia, sustentabilidade e o retorno do nuclear em miniatura

Entre os temas que mais tiram Vogels do lugar-comum corporativo está a questão energética. Ele menciona sua cidade natal, Amsterdã, na Alemanha, onde a capacidade de expansão do fornecimento elétrico está estagnada. “Não dá mais para construir grandes negócios se não temos energia para abastecê-los. A distribuição, não apenas a geração, tornou-se gargalo”, explica. A resposta? Mais descentralização.

E, de forma surpreendente, para ele, a volta do nuclear em escala reduzida, como reatores modulares (SMRs) pode ser um caminho. Enquanto o mundo já presenciou acidentes assustadores, Vogels lembra que submarinos nucleares navegam há décadas sem incidentes significativos, graças a um controle rigoroso e operações em menor escala.

“Talvez o futuro não sejam megacentrais nucleares, mas pequenos reatores locais, mais seguros, rápidos de construir e de operar. Isso pode mudar a dinâmica de abastecimento energético, inclusive para grandes clusters de data centers”, afirma. O CTO da Amazon não sugere que cada data center tenha reator próprio, mas a ideia não parece tão absurda em um futuro de necessidades energéticas fragmentadas e urgência climática.

Tecnologia a serviço do bem comum: a nova demanda da força de trabalho

Um dos pontos mais contundentes da entrevista é a atenção que Vogels dá ao que ele chama de “uso propositivo da tecnologia”. Há décadas, a tecnologia tem sido usada para lucro, entretenimento e propaganda.

Entretanto, diante de um mundo que precisa alimentar mais 2 bilhões de pessoas até 2050, dar acesso à saúde, educação, financiamento e segurança a todos, há uma nova geração de profissionais emergindo. E ela quer mais do que salários generosos. A busca aqui é por propósito, saúde mental e qualidade de vida. Uma equação bastante diferente das gerações anteriores.

“Gen Z, Gen X, Millennials: todos começam a olhar para o significado do seu trabalho. Vejo isso claramente, já que muitos preferem receber menos, mas atuar em empresas e projetos que realmente tragam impacto social positivo. Isso não é papo de ONG. É modelo de negócio. Hoje, ser um bom empregador significa oferecer não só bons salários, mas projetos com propósito real”, defende Vogels. Segundo ele, as empresas que não entenderem esse recado terão dificuldade de contratar os melhores talentos.

Ele destaca o apoio da Amazon a iniciativas como o Humanitarian OpenStreetMap Team, que mapeia regiões remotas não por interesse comercial, mas para salvar vidas em desastres naturais. Ou a parceria com organizações que ajudam pequenos agricultores no Sudeste Asiático a obter microcrédito ao fornecer dados sobre suas colheitas, algo que os livra da busca por crédito sem necessidade e aumenta a produção de alimentos. “É tecnologia aplicada diretamente ao problema humano, não à distração”, enfatiza.

Contra a maré da desinformação

Jornalistas e empresas de mídia, lembra Vogels, estão em uma luta constante pela atenção do público. A desinformação corre solta, impulsionada pela tecnologia que gera fake news a um clique. “Hoje, ser o primeiro a lançar uma reportagem importa mais do que ser acurado. Mas isso não se sustenta. A credibilidade da mídia está em jogo”, argumenta.

Ele sugere que a tecnologia também deve auxiliar a mídia a provar a veracidade dos fatos. Empresas recém-criadas já oferecem ferramentas que, ao lado de um texto, exibem pesquisas acadêmicas relevantes. É uma tentativa de combater “artigos falaciosos, recheados de referências que não existem”. “Nós, tecnólogos, temos responsabilidade nisso. Criamos as ferramentas que facilitam a desinformação, agora precisamos criar as que a combatem.”

Vogels cita o Bellingcat, site de jornalismo investigativo com sede na Holanda especializado em verificação de fatos e inteligência de código aberto, e as unidades de investigação de código aberto do New York Times e da BBC, que buscam mapear a origem de informações. Mas essas equipes, diz ele, ainda operam com ferramentas rudimentares. “Dê a eles ferramentas melhores, mais potentes, e poderemos virar o jogo da desinformação.”

A exaustão digital e a busca pelo “fazer nada” – o famoso ócio criativo?

Em um mundo tomado por telas e notificações, Vogels lamenta a perda da contemplação. “Hoje, ninguém espera o ônibus sem tirar o celular do bolso. Não sonhamos mais acordados, não deixamos a mente vagar. Crianças de quatro anos já estão vidradas no YouTube, criando um padrão de dependência de estímulos constantes.”

Ele vê surgirem movimentos contrários, como o “Clube Off-line” em Amsterdã, onde a tecnologia não é banida, mas usada com moderação. O conceito holandês de “niksen” – fazer nada -, não é preguiça, mas liberdade mental. Uma pausa no fluxo intenso de dados. O conceito me faz lembrar do ócio criativo do italiano Domenico De Masi.

“Se a tecnologia cria dependência, também pode criar mecanismos de gestão. Ferramentas para focar, para minimizar distrações, para organizar o tempo de forma saudável. Sem mecanismos concretos, só com boas intenções, não dá certo. É preciso estabelecer limites rígidos: um período sem e-mail, sem reuniões, para aprender de novo, para pensar, para criar.”

Ele lembra que a dependência tecnológica pode ter efeitos no longo prazo, especialmente nos jovens. “Se desde cedo você é bombardeado por estímulos, acostuma-se a um fluxo interminável de dopamina. Mais tarde, talvez o vício em telas se transforme em outros vícios, porque o cérebro não aprendeu a se acalmar.” Para Vogels, as empresas precisam ajudar a criar um equilíbrio, não apenas gerar lucro a qualquer custo.

A corrida pelo “primeiro lugar” e a maturidade do setor

Para Vogels, portanto, vivemos uma nova era. A tecnologia entrou em uma nova fase, mais adulta e consciente. Não basta ser veloz, é preciso ser o primeiro a gerar valor real, a enfrentar os grandes problemas sociais, a escolher a saúde do planeta em vez da velocidade do próximo hype.

Sejam reatores nucleares modulares, projetos de IA para acelerar o diagnóstico de doenças, sistemas de microcrédito para agricultores, ou ferramentas robustas de checagem de fatos, o denominador comum é a busca por sentido. “O hype da IA acabou”, destaca Vogels mais uma vez.

A maturidade tecnológica demanda mais do que fanfarra. Demandará empresas, governos, profissionais e consumidores dispostos a encarar a tecnologia como meio, não como fim, e a assumir responsabilidades. Nesse jogo, ser o primeiro a fazer a coisa certa vale muito mais do que ser o mais rápido a fazer qualquer coisa.

*A jornalista viajou a convite da AWS

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Published by
Déborah Oliveira
Tags: amazonreinvent 24Werner Vogels
1 ano ago

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