Ana Mantovan, CTO da Turbi, e Eduardo Portelada, diretor de Relações com Investidores da Turbi. Fotos: Divulgação/Turbi
Alugar um carro ainda pode ser sinônimo de fila, balcão, burocracia e chave. Não para a Turbi. A empresa brasileira nasceu com a proposta de eliminar, por meio da tecnologia, todos os pontos de atrito na experiência de quem precisa alugar um veículo, e conseguiu. Sem lojas físicas, com frota própria e uma operação 100% digital, a Turbi não apenas simplifica, mas também provoca o mercado a repensar o que significa locar um carro.
Por trás da experiência fluida, está uma infraestrutura tecnológica complexa, construída internamente com hardware, internet das coisas (IoT), inteligência artificial (IA) e algoritmos proprietários. O resultado? A menor sinistralidade do setor, a melhor margem da indústria e um modelo pronto para escalar.
O IT Forum testou o app da Turbi em São Paulo e comprovou a promessa: uma jornada simples e eficiente, do cadastro ao destravamento do carro via celular, em um dos mais de 300 estacionamentos credenciados. Revelamos aqui os bastidores da tecnologia que dirige esse modelo de negócio.
“A Turbi é uma empresa de tecnologia que aluga carros, não o contrário”, crava Ana Mantovan, Chief Technology Officer da companhia. Com um time de tecnologia que representa entre 30% e 40% dos colaboradores, a empresa desenvolveu um core tecnológico próprio, incluindo software, hardware, IA e infraestrutura, que pavimenta toda a jornada do usuário, da esteira de cadastro ao monitoramento em tempo real da frota.
A experiência começa com um processo de onboarding robusto, que valida identidade por biometria facial, documento de habilitação, score positivo e até registros criminais, com o apoio de APIs externas. “Temos uma esteira de cadastro proprietária, flexível, mas segura. Já trabalhei em fintechs e sei que essa é uma das etapas mais complexas de uma operação digital”, afirma Ana.
Depois disso, tudo segue no digital e o celular vira a chave do carro. O check-in e o check-out são realizados por fotos que passam por uma IA treinada para identificar e comparar possíveis danos. A Turbi também desenvolveu sensores internos instalados nos carros para monitorar RPM, localização, uso do motor e comportamento do usuário, além de rastreadores e bloqueadores de ignição.
“Se o carro entra em uma área de risco previamente mapeada, conseguimos travar a ignição e acionar automaticamente uma régua de contato com o cliente”, explica Ana. Outro exemplo é se o celular do motorista se distancia do veículo, o sistema interpreta que outra pessoa pode estar dirigindo, e bloqueia a ignição como medida preventiva.
Segundo Eduardo Portelada, diretor de Relações com Investidores da Turbi, essa infraestrutura tecnológica permitiu à empresa registrar a menor sinistralidade do setor, fator crítico para uma operação com frota própria e foco em rentabilidade.
A inovação segue acelerando, de acordo com os executivos. Um novo sistema de IA visual, atualmente em fase de testes, permitirá o monitoramento de danos via câmeras instaladas nos estacionamentos. “Estamos posicionando duas câmeras na diagonal de cada vaga para captar imagens em 360º na entrada e saída do veículo”, adianta Portelada.
Fundada por Daniel Prado e Diego Lira, dois ex-executivos do mercado financeiro, a Turbi nasceu da percepção de que o setor de locação estava estagnado. Mesmo com gigantes como Localiza e Movida dominando o mercado, pouca coisa havia mudado nas últimas décadas. Inspirados por fintechs como o Nubank, os fundadores resolveram digitalizar o processo de ponta a ponta, com foco em eficiência, escalabilidade e custo de serviço reduzido.
Com uma frota atual de 6 mil veículos e operação concentrada na região metropolitana de São Paulo, a Turbi já é a quarta maior locadora B2C do País. Mas a alta demanda, especialmente nos fins de semana, pressiona a empresa a expandir. “Chegamos a picos de 95% de ocupação. Já não damos conta. A ampliação para novas capitais é inevitável”, afirma Ana.
A estratégia mira cidades com estacionamento privado disponível, uma infraestrutura essencial para o modelo descentralizado da empresa. E, como reforça Portelada, a decisão sobre onde posicionar a frota não é baseada em IBGE ou intuição, mas em dados em tempo real.
A Turbi usa mapas de calor proprietários para identificar os pontos de maior demanda. Se o ponto não performar? Retiram os carros. “Nosso custo de arrependimento é muito menor que o dos concorrentes”, diz o executivo.
Esse modelo também garante solidez financeira. No primeiro trimestre de 2025, a empresa registrou margem EBITDA de 55%, saltando para 60% em março. Agora, a Turbi busca captar até R$ 1 bilhão via equity para escalar a operação. Um número expressivo, especialmente para uma empresa que ainda era deficitária no início de 2024.
A vertical de seminovos também ganha tração. A Turbi Seminovos vende carros com média de 33 mil km rodados, bem abaixo da média do mercado. Em 2024 foram 1,3 mil veículos vendidos; no primeiro trimestre de 2025, 393 unidades.
A operação B2B, com sistemas próprios de gestão, também pode se desmembrar. O CRM da empresa, batizado de Friday, foi desenvolvido especificamente para locadoras e tem potencial de mercado entre as 30 mil empresas ainda pouco digitalizadas no setor. “Alguns dos nossos produtos de tecnologia têm potencial de gerar mais valor do que o próprio negócio de aluguel de carros”, projeta Portelada.
A visão de futuro da Turbi inclui, inevitavelmente, os carros autônomos. “Quando esse modelo for realidade, nossa experiência será ainda mais fluida. Teremos comunicação entre veículos, sinistralidade ainda menor, e uma esteira de cadastro muito mais ágil”, acredita Ana. A Turbi já prepara seus sistemas para essa nova etapa da mobilidade.
Enquanto isso, a IA continua evoluindo. A empresa treina seus modelos com dados diversos, buscando evitar vieses, inclusive envolvendo mulheres e pessoas mais velhas na validação de imagens. O objetivo é ampliar o conforto e a confiança de perfis que normalmente evitam locadoras tradicionais por receio da interação humana.
Outro plano em estudo é permitir que usuários disponibilizem seus carros particulares na plataforma, ideia semelhante à da Tesla nos Estados Unidos. “Tecnicamente, podemos fazer isso hoje. O entrave é regulatório”, explica Portelada.
A ambição da Turbi é grande, mas o pé segue firme no chão. A empresa tem mantido o foco em entregar com excelência o que chama do “arroz com feijão” antes de acelerar a expansão nacional. A chegada de executivos mais seniores, como a própria Ana e o novo CFO, Mario Liao, reforça esse compromisso, inclusive.
E há espaço para mais, revelam os executivos. A Turbi explora oportunidades como a venda de seu hardware para empresas de financiamento de veículos, que poderiam reduzir inadimplência ao bloquear ignição remotamente. Também avalia fornecer tecnologia para seguradoras e locadoras menores, um ecossistema que pode ser tão ou mais lucrativo do que o negócio de aluguel em si.
A Turbi segue na quarta posição do mercado, mas tem a eficiência, a margem e a tecnologia para chegar lá e ultrapassar, acreditam Ana e Portelada. E como o app testado mostra na prática: o futuro da mobilidade já está circulando pelas ruas. Ele é prático, é digital e brasileiro.
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