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As oportunidades que só chegam com a evolução

Imagine que você é um executivo à frente de uma tecelagem no início da segunda revolução industrial e a eletrificação está começando, e os motores elétricos passam a substituir as caldeiras a vapor. Imagine que, na sua tecelagem, você realiza uma análise SWOT (Forças – Strengths, Fraquezas – Weaknesses, Oportunidades –Opportunities e Ameaças – Threats) com o objetivo de avaliar a competitividade de sua empresa. Como produto desse exercício, você identifica que suas vendas estão caindo, devido a atrasos na entrega dos produtos no ponto de venda. O que você vai fazer?

Confrontado com uma falha operacional, você provavelmente faria uma revisão profunda em seus processos. Vamos supor que você identifique que a falha está na fábrica. Na sua fábrica, como em várias outras tecelagens que se desenvolveram utilizando a tecnologia da caldeira a vapor da primeira revolução industrial, existe uma grande caldeira que movimenta todos os teares da tecelagem. Percebendo que a caldeira é uma fonte de problemas, você vai ao mercado e identifica que o motor elétrico é uma tecnologia promissora, que pode substituir a caldeira, garantindo operação contínua livre de falhas por muito mais tempo, com um custo operacional muito menor e poupando alguns dos postos de trabalho necessários para manter a caldeira funcionando.

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Enfim, um investimento que contribui para a entrega dos produtos no ponto de venda na data, além de oferecer uma taxa de retorno adequada ao investimento. Perfeito! Você, que é um pioneiro, decide que o motor elétrico é o remédio para a sua dor. Mas é esse o modelo mental para a continuidade da sua empresa em um momento no qual os limites que restringiam uma maior velocidade dos negócios estão desaparecendo?

Imagine que, ao mesmo tempo em que você está desenvolvendo seu projeto de modernização, com foco em evoluções incrementais na eficiência operacional, o seu concorrente está avaliando possibilidades de utilização dessa nova tecnologia para a criação de novas vantagens competitivas. Partindo desse modelo, talvez o seu concorrente conclua que, em vez de simplesmente substituir a antiga caldeira a vapor por um motor elétrico, a nova tecnologia permite que cada tear tenha seu próprio motor elétrico. Decidindo adotar essa proposta desconcertante e exagerada para os padrões da época, de colocar um motor para cada tear, talvez seu concorrente descubra que dessa forma a empresa terá uma operação mais flexível e será mais ágil para responder e explorar as oportunidades do mercado.

Talvez ele consiga convencer a diretoria de que essa independência operacional nos teares permite que cada tear possa ser configurado para um produto específico, com tamanho de lote específico, viabilizando uma maior variedade de produtos. Talvez seu concorrente conclua que a nova tecnologia não é apenas um remédio para uma dor, mas sim uma poderosa ferramenta que cria oportunidades para empresas, que podem mudar a dinâmica do negócio. Talvez seu concorrente sonhador não tenha sucesso na sua estratégia e seja chamado de louco. Ou talvez tenha razão e se torne um visionário.

De fato, mais do que apenas prover mudanças incrementais para a organização, a tecnologia é o principal fator responsável pelo desenvolvimento humano, como apontado pelos pesquisadores Erik Brynjolfsson e Andrew Paul McAfee. A tecnologia da caldeira a vapor foi o fator responsável por eliminar o limite da energia animal, viabilizando a primeira revolução industrial e acelerando a urbanização, com a migração em massa do campo para as cidades. Depois, a eletrificação e a linha de montagem foram responsáveis por reduzir a limitação que o trabalho individual impunha à produtividade, dando origem à segunda revolução industrial e ao surgimento da classe média. A digitalização e a evolução das telecomunicações foram responsáveis por ampliar muito a produtividade individual e eliminar grandes gargalos e entraves da comunicação.

No início do ano de 2016, quando os participantes começavam a chegar a Davos, na Suíça, para a reunião anual do World Economic Forum (WEF), começou-se a questionar se a organização não tinha errado ao escolher a Quarta Revolução Industrial como tema para o encontro. Tendo em vista que o mundo estava diante de uma crise de refugiados, de um aumento do terrorismo e de uma desaceleração da economia da China, parecia haver outros temas mais proeminentes do que a Quarta Revolução Industrial. Segundo Klaus Schwab, autor de A Quarta Revolução Industrial, essa nova revolução, que começamos a conhecer, semelhante às anteriores, também está eliminando limites. Os limites que agora estão sendo eliminados são os entre os mundos físico, digital e biológico. Essa revolução é fruto do desenvolvimento de várias tecnologias, como a IA, a IoT, a biotecnologia etc. Os impactos que essa “falta de limite” trará para a sociedade demandará muitas reflexões por parte das instituições governamentais, empresas, academia e indivíduos.

Negligenciar esse debate pode significar viver permanentemente à margem desse novo mundo em construção.

*Por Elcio Brito é sócio-diretor na SPI Integração de Sistemas. O executivo é conselheiro do CONIC (Conselho Superior de Inovação e Competitividade) da FIESP, pesquisador no HC-FMUSP e pós-doutorando na Poli/USP. Sua Formação: doutor em Engenharia Elétrica pela Poli/USP; mestre em Engenharia Mecânica pela FEI; master Systèmes d’Information et d’Organisation pela Universidade Pierre Mendès; e bacharel em Administração pela FAAP, Maria Scoton é pesquisadora no GAESI/USP, Eduardo Dias é professor titular na Escola Politécnica da USP e Coordenador do GAESI/USP, Sergio Pereira é professor Livre Docente da Escola Politécnica da USP, da FEA da PUC/S, membro do GAESI/USP e do GENE (Grupo de Excelência de Negócios em Energia do Conselho Regional de Administração São Paulo).

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Published by
Ana Gabriela De Callis
Tags: evoluçãomodernizaçãoOportunidades
7 anos ago

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