No final de semana passada, o desenvolvedor de app russos i-Free retirou seu app Girls Around Me, que havia recebido críticas de vários sites por ser uma ferramenta de stalkers. Permitia ao usuário mapear a localização de mulheres na vizinhança e informações sobre elas usando os dados do Facebook e Foursquare.
A empresa disse que removeu seu aplicativo do iTunes App Store porque o Foursquare, levado pela controvérsia, retirou o acesso do aplicativo de sua API de geolocalização, evitando com isso que o app funcionasse. O app foi baixado por 70 mil usuários.
Em sua defesa, a empresa que criou o recurso afirmou para o The Wall Street Journal: “Girls Around Me não fornece nenhum dado que já não esteja disponível na rede social, nem revela dados que não são compartilhados com todos”.
O aplicativo pode ser insosso, infantil e cínico. As apps stores estão cheias de aplicativos grosseiramente concebidos; mas não pode ser considerado assustador, que foi o termo usado pela Cult of Mac para descrevê-lo.
Com a palavra ‘assustador’, o termo implícito é a intenção. Seria assustador se a i-Free tivesse projetado o app para ser usado para vigilância e perseguição. Mas não há nenhuma evidência dessa intenção, nem evidência de que o aplicativo tenha sido criado para causar mal. Claro que o aplicativo pode ser usado para perseguir, mas o mesmo pode ser dito de binóculos, que são ferramentas que podem ser assustadoras nas mãos de certos indivíduos, mas no geral, têm seu uso legitimado.
O app também é uma ferramenta que agrega e correlaciona dados públicos. Seu crime parece ter sido violar as regra do Foursquare ao agregar dados do API para várias localizações. A maioria dos usuários da internet provavelmente já cometeu uma violação similar. Assim como os consumidores, é provável que os desenvolvedores da empresa não tenham lido as regras do serviço.
De onde vêm todos esses dados? É disponibilizado pelos usuários do Facebook e Foursquare. O que é realmente assustador acerca do Girls Aroud Me é que revela a capacidade das pessoas de autoflagelo. Os usuários da internet tinham privacidade antes de usarem redes sociais, agora ficam irritados quando percebem o que é feito com os dados que eles mesmos compartilharam.
A ironia dessa controvérsia é uma revelação ainda mais assustadora: segundo documentos obtidos pela Aclu, as agência do governo rotineiramente rastreiam os dados de uso de celulares das pessoas, muitas vezes sem mandato e com a cooperação das empresas de telecomunicação – que geram receita dos dados dos consumidores ao cobrar taxas de serviços para o governo. Você fornece os dados, sua empresa de telefone é paga.
Diferentemente de agregar dados públicos da rede social, o escrutínio do governo em dados dos celulares é uma violação potencial dos direitos protegidos constitucionalmente.
Se quer ler algo assustador, considere esse trecho de documentos compilados para ajudar o governo a obter dados de celulares. Foi postado pelo pesquisador de privacidade Christopher Soghoian. Apesar de não saber a fonte, a passagem também aparece em um boletim de 2006 postado em abril de 2011, onde foi creditado ao procurador geral adjunto da California, Robert Morgester.
“Telefones celulares se tornaram o biógrafo virtual de nossas atividades diária. Rastreia com quem conversamos e aonde vamos. Realiza chamadas, tira fotos e mantém nossa lista de contatos à mão. Em suma: se tornou um peça indispensável de evidência em uma investigação criminal”.
A pergunta que deveríamos fazer não é se o Girls Around Me encoraja a perseguição, e sim se nós, como usuários de tecnologia, podemos ter privacidade se a escolhermos. Ou é a regra não escrita de nosso contrato de serviço móvel que devemos submeter todas nossas atividades ao nosso biógrafo virtual?
Tradução: Alba Milena, especial para o IT Web | Revisão: Adriele Marchesini
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