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O risco invisível de quase R$ 6 trilhões: biodiversidade, finanças e o futuro que (ainda) ignoramos

Mais do que um ativo natural, a biodiversidade deve ser reconhecida como infraestrutura essencial

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Pessoa usando um laptop com ícones digitais relacionados a ESG (Environmental, Social, and Governance) sobrepostos na imagem. Ícones incluem temas como energia renovável, emissão de CO₂, reciclagem, metas e sustentabilidade ambiental, empresa, stanford, biodiversidade
Imagem: Shutterstock

Por Sandro Paulino de Faria

Você aplicaria quase R$ 6 trilhões em ativos financeiros sem avaliar o risco de colapso da natureza que sustenta essa economia?

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Parece improvável, mas é exatamente isso que ainda acontece com frequência no sistema financeiro global. A negligência com os chamados Biodiversity-Related Financial Risks (BRFRs) – ou Riscos Financeiros Associados à Perda de Biodiversidade – pode desencadear uma crise silenciosa, mas de proporções colossais.

Um recente estudo francês faz o alerta de um colapso já anunciado. A pesquisa recente, conduzida por instituições como o Banque de France e a CDC Biodiversité, aponta que 42% do valor das carteiras financeiras francesas estão ligados a empresas altamente dependentes de serviços ecossistêmicos – como a purificação da água, a formação do solo e a polinização. Atualmente, o montante de ativos financeiros expostos a esse tipo de risco já alcança 1 trilhão de euros, o equivalente a quase 6 trilhões de reais.

A exposição não se limita ao futuro. Os investimentos analisados no relatório já provocaram impactos concretos: a perda de biodiversidade em uma área equivalente a um quarto do território francês, com uma taxa de avanço anual que corresponde a 48 vezes o tamanho da cidade de Paris. Os setores mais responsáveis incluem alimentos processados, combustíveis fósseis, produtos químicos e comércio, segmentos com forte presença também na economia brasileira.

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Embora a pesquisa tenha como foco a França, o alerta é claramente global. O Brasil abriga uma das maiores capitais naturais do planeta, mas suas cadeias produtivas, especialmente nos setores agrícola, mineral e energético, exercem pressão direta sobre ecossistemas frágeis. Mesmo sem um estudo nacional com o mesmo grau de detalhamento, os sinais são evidentes: o país já está no radar de investidores internacionais, reguladores e consumidores atentos ao impacto ambiental de suas operações.

Nesse cenário, até os eventos climáticos extremos entram na conta, comprometendo cadeias de abastecimento e limitando o acesso ao capital. A perda de biodiversidade deixou de ser um problema isolado de conservação. Ela passou a ser um risco econômico real, mensurável e urgente.

No Centro de Pesquisas do Instituto Itaqui, nosso trabalho é justamente construir pontes entre ciência aplicada, inovação tecnológica e estratégia territorial. Com foco inicial na Região Metropolitana de São Paulo, desenvolvemos metodologias para mensurar e territorializar os BRFRs, priorizando áreas críticas do ponto de vista ambiental e social. Nosso diferencial está na aplicação de soluções baseadas em ciência de dados, sensoriamento remoto, biotecnologia e inteligência artificial para antecipar riscos e apoiar processos decisórios. Acreditamos que a transformação digital pode e deve ser aliada na construção de métricas mais precisas, plataformas de rastreabilidade, sistemas preditivos de impacto e soluções escaláveis que conectem o capital à natureza com responsabilidade.

Nossa comunidade acadêmica, composta por mestrandos e doutorandos, investiga temas como governança climática, finanças sustentáveis e estratégias corporativas de conservação. O objetivo é claro: transformar conhecimento em ferramentas práticas para orientar decisões empresariais e políticas públicas com visão de futuro.

Mas a urgência do momento exige mais do que dados. Exige ação coordenada e inovação sistêmica. Empresas e investidores precisam compreender sua dependência direta dos ecossistemas e aproveitar o potencial tecnológico para mensurar, mitigar e transformar esses riscos em oportunidades. Também é essencial avançar na criação de métricas de dupla materialidade que conectem impactos socioambientais aos riscos financeiros, com o suporte de tecnologias integradas que permitam diagnósticos mais precisos sobre as ameaças e oportunidades que a crise da biodiversidade impõe.

Mais do que um ativo natural, a biodiversidade deve ser reconhecida como infraestrutura essencial. Ela sustenta economias inteiras, regula sistemas vitais e oferece resiliência em tempos de crise. Ignorá-la é como reformar um edifício sem reforçar seus alicerces. Incorporar esse risco às decisões financeiras, com apoio da ciência e da tecnologia, deve ser ação imediata e com a urgência que o momento exige.

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Sobre o Autor

Sandro Faria é Diretor Executivo da Carbono Florestal – Pesquisa e Conservação e também Diretor do Centro de Pesquisas Itaqui. Biólogo, mestre pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e doutor pela Universidade Federal do Paraná, dedicou sua carreira ao estudo dos ecossistemas naturais e dos impactos antrópicos que afetam seus componentes, sob uma perspectiva sistêmica e complexa. Como pesquisador, realizou estudos em biologia molecular, filogeografia e biogeografia. No âmbito acadêmico, lecionou disciplinas como biogeografia, evolução e biologia animal. Além disso, atuou como consultor, coordenando mais de 70 projetos de licenciamento e estudos ambientais em diversas regiões do Brasil, abrangendo setores como Óleo e Gás, Energias Renováveis, Infraestrutura, Mineração, Desenvolvimento Urbano e Manufatura, entre outros. É anilhador sênior credenciado pelo CEMAVE/ICMBio e especialista em monitoramento e manejo de fauna.

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